Confrontação política e econômica com os EUA
O novo pacote tarifário dos EUA ameaça reduzir exportações brasileiras em até US$ 11 bilhões e inaugura uma fase inédita de confronto político entre Brasília e Washington, em meio à campanha eleitoral e ao debate sobre uma eventual retaliação comercial do Brasil.

Como era esperado, o governo de Washington confirmou o novo tarifaço de 25% sobre produtos exportados para os EUA por práticas desleais a partir de 22 próximo. Ainda deverão ser anunciados mais 12,5% relacionados com a importação de produtos de países com trabalho forçado.
Essas tarifas se aplicam em mais de 80 países que não têm acordo comercial com os EUA, em substituição às tarifas que tiveram de ser suspensas em função da decisão da Suprema Corte que considerou ilegal a base legislativa (IEEPA) que as respaldavam.
‘Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados’
O tarifaço vai afetar cerca de 2.900 produtos, especialmente industriais, vai prejudicar muitas empresas nacionais e vai reduzir ainda mais o intercâmbio bilateral. Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados.
Foram mantidas as exceções para café em grão, carne bovina, suco de laranja, produtos aeronáuticos, petróleo, castanhas e algumas frutas. A lista de exceções foi ampliada (2.100) com relação àquela proposta em 1º de junho. Essas exceções foram consideradas “insumos essenciais para a economia americana”; “produtos cuja taxação poderia gerar interrupções de abastecimento” e “bens sem fontes alternativas adequadas de fornecimento”.
Segundo cálculos preliminares, o número de linhas tarifárias passou de 1.698 em junho para 2.126. Foram incluídos diversos produtos de interesse dos exportadores brasileiros na lista de exceções. Destacam-se, entre eles, mel orgânico, ferro-gusa e café solúvel; mel orgânico; ferro-gusa; café solúvel sem sabor; alguns tipos de pescado (tilápia e atum); hidróxido de alumínio; antiguidades, itens de colecionador e arte; cinzas contendo metais preciosos ou compostos de metais preciosos; certas peles de animais, peles com pelo e couros – certos produtos de frutos do mar; certos produtos de madeira adicionais; resíduos e sucatas de ferro e aço; roupas usadas.
‘O Palácio do Planalto circulou nota dura em que afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”’
Logo em seguida o Palácio do Planalto circulou nota dura em que afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável. O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais. O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”.
Os dois lados dizem que não houve empenho da outra parte em uma efetiva negociação para superar as dificuldades.
É compreensível a politização interna dessa questão pelo envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, acusado de traição à Pátria, quando se inicia a campanha para as eleições de outubro.
‘É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro’
É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.
A Fiesp, em nota, critica fortemente o Governo Lula afirmando que “em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamentos políticos com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”. A posição da Fiesp foi considerada “vergonhosa e estarrecedora” pelo Planalto.
‘A grande novidade está no ataque político de Washington ao governo de Brasília’
A grande novidade está no ataque político de Washington ao governo de Brasília. Depois de 62 ataques de Lula a Trump nos últimos três anos, a Nota de Rubio dá início ao ataque político de Washington ao presidente brasileiro. Essa novidade deve continuar com crescente interferência norte-americana durante a campanha eleitoral.
Chama a atenção a ênfase política que essa decisão está ensejando e o eventual confronto político entre os dois países. Ao anunciar a decisão, a Casa Branca divulgou nota de Marco Rubio em que afirma que o presidente Trump decidiu impor 25% em muitos produtos importados do Brasil, mas, “não deve haver confusão nas razões dessa decisão: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA em boa fé. Suas políticas econômicas são contrárias aos interesses norte-americanos e brasileiros. Desde o ano passado, Lula colocou seu ego à frente dos entendimentos para benefício do povo brasileiro e essas tarifas são o preço por isso”.
A resposta de Mauro Vieira escala a crise política ao chamar o pronunciamento de Rubio de “grosseiro e arrogante” e “inaceitável e ofensivo ao povo e ao governo brasileiro”. “O que incomoda ao governo dos EUA é o fato do Brasil não ter se curvado às demandas irrazoáveis”.
‘A questão mais grave e preocupante é a possibilidade de retaliação comercial contra os EUA anunciada pelo Planalto’
A questão mais grave e preocupante é a possibilidade de retaliação comercial contra os EUA anunciada pelo Planalto. Haverá um período de 30 dias para a confirmação da medida. Nenhum outro país no mundo (com exceção da China por curto período, logo corrigido) ameaçou retaliar os EUA. O governo de Washington divulgou que nas negociações as tarifas sobre os produtos brasileiros poderão subir ou descer, dependendo da reação do governo brasileiro.
O custo para o Brasil e para as empresas brasileiras pode ser enorme. A retaliação de Washington pode ocorrer em qualquer outra área, prejudicando setores econômicos inteiros.
O Brasil não tem cacife para enfrentar comercialmente os EUA. Nenhuma retaliação contra produtos norte-americanos exportados para o Brasil afetará significativamente os interesses do governo Trump. Uma decisão nessa direção poderá trazer ganhos políticos internos, mas será certamente contra o interesse nacional, a médio e longo prazo. O programa de apoio às empresas afetadas, prometido pelo governo, vai ser muito importante nesse momento.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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