23 janeiro 2026

Conselho da Paz

‘Rival’ da ONU criado pelo governo dos EUA coloca Trump como imperador global e gera impasse para o resto do mundo. Brasil precisa avaliar convite à luz da resposta de aliados e da perspectiva sobre multilateralismo

Foto: Casa Branca

O presidente Donald Trump inaugurou nesta semana o Conselho da Paz, sem detalhar como vai funcionar e sem ter conversado com a ONU. 

O Conselho tem sua origem na Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em novembro passado, com a abstenção da China e da Rússia. Essa Resolução endossava o plano para encerrar o conflito de Gaza e aprovava a criação de um Conselho da Paz, com personalidade jurídica internacional. 

Aproveitando essa decisão importante para garantir o fim do conflito e apoiar o esforço de reconstrução de Gaza, em mais uma iniciativa exótica na área internacional, o presidente Donald Trump propôs a criação, pelo governo dos EUA, de um Conselho da Paz, enfatizando a necessidade de um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz. 

Foram convidados 50 chefes de Estado e menos de 20 países compareceram à inauguração do Conselho.

‘A missão do Conselho da Paz é buscar promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos’

Segundo os termos do documento produzido por Washington, a missão do Conselho da Paz é buscar promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. O Conselho da Paz deverá desempenhar funções de consolidação da paz em conformidade com o direito internacional e conforme aprovado por esta Carta, incluindo o desenvolvimento e a disseminação de melhores práticas que possam ser aplicadas por todas as nações e comunidades que buscam a paz. 

Chama a atenção que o documento não menciona em nenhum momento o objetivo de apoiar a segunda fase do plano de paz e a reconstrução de Gaza.

‘Na prática, o Conselho rivalizaria e poderia substituir a ONU, na discussão de todos os conflitos ou questões internacionais’

 Na prática, o Conselho rivalizaria e poderia substituir a ONU, na discussão de todos os conflitos ou questões internacionais. 

Haveria algumas diferenças em relação às Nações Unidas. Ao contrário da ONU, com cinco idiomas oficiais, a nova organização terá um só: o inglês. O veto existe, mas o direito será o privilégio de um membro: os EUA. A presidência caberá sempre aos EUA. A participação no Conselho da Paz é limitada aos Estados convidados pelo presidente Trump e inicia-se após a notificação de que o Estado consentiu em se vincular a esta Carta. 

Cada Estado-membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da entrada em vigor desta Carta, sujeito a renovação pelo presidente Trump. O mandato de três anos não se aplicará aos Estados-Membros que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão em fundos em dinheiro para o Conselho de Paz durante o primeiro ano de entrada em vigor da Carta. 

As decisões serão tomadas por maioria dos Estados-membros presentes e votantes, sujeitas à aprovação do presidente Trump, que poderá também votar na sua qualidade de Presidente em caso de empate. O Conselho de Paz será dissolvido no momento que o presidente Trump considerar necessário ou apropriado, ou ao final de cada ano civil ímpar, a menos que seja renovado pelo presidente até 21 de novembro do referido ano civil ímpar. 

‘Qual imperador global, Donald J. Trump atuará como presidente do Conselho de Paz e, separadamente, como o primeiro representante dos Estados Unidos da América’

A megalomania trumpiana não tem limites. Qual imperador global, Donald J. Trump atuará como presidente do Conselho de Paz e, separadamente, como o primeiro representante dos Estados Unidos da América. O presidente terá autoridade exclusiva para criar, modificar ou dissolver entidades subsidiárias, conforme necessário ou apropriado para cumprir a missão do Conselho da Paz. O presidente deverá, em todos os momentos, designar um sucessor para o cargo de presidente. 

A substituição do presidente poderá ocorrer somente após renúncia voluntária ou em decorrência de incapacidade, conforme determinado por voto unânime do Conselho Executivo, ocasião em que o sucessor designado pelo presidente assumirá imediatamente o cargo de presidente e todos os deveres e atribuições a ele associados.

‘O órgão principal do Conselho da Paz é o Conselho Executivo, selecionado pelo presidente Trump e será composto por líderes de renome internacional’

O órgão principal do Conselho da Paz é o Conselho Executivo, selecionado pelo presidente Trump e será composto por líderes de renome internacional, com mandatos de dois anos, sujeitos à destituição pelo presidente e renováveis ​​a seu critério. 

O Conselho Executivo será liderado por um diretor executivo nomeado pelo Presidente e confirmado por voto da maioria do Conselho Executivo. As decisões do Conselho Executivo serão tomadas por maioria dos seus membros presentes e votantes, incluindo o diretor executivo. Tais decisões entrarão em vigor imediatamente, sujeitas a veto do presidente a qualquer momento posterior.

Levando em conta todas as circunstâncias em que o Conselho está sendo proposto, como verdadeiro “diktat” de Washington, será difícil que muitos dos presidentes aceitem uma situação de subordinação a Trump. 

Não estão claros detalhes como os limites da atuação, a relação com a ONU e a governança do Conselho. 

A França, Suécia, Noruega e Eslovênia já declinaram do convite neste momento. 

No caso do Brasil, antes da decisão sobre o convite, seria importante saber quais os países vão aderir, quais os mais próximos do Brasil, como ficará a proposta de criação de um Estado Palestino. 

‘A resposta ao convite para integrar o Conselho poderá aguardar mais esclarecimentos, mas o governo brasileiro não poderia aceitar o convite sem ignorar suas posições públicas com a defesa do multilateralismo’

A resposta ao convite para integrar o Conselho poderá aguardar mais esclarecimentos, mas o governo brasileiro não poderia aceitar o convite sem ignorar suas posições públicas com a defesa do multilateralismo, das organizações internacionais, e, em especial, das Nações Unidas e com a defesa da criação de um Estado Palestino. A apresentação ontem em Davos do projeto de “riviera” como o plano de reconstrução de Gaza, deixando implícita a retirada da população palestina, reforça a posição contrária.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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