29 abril 2026

De Kiev a Taipei – Arco geopolítico de conflitos acelera transição para um mundo multipolar

Por Vitor Stuart Gabriel de Pieri e Ricardo Luigi* Uma leitura sobre os conflitos atuais tem ganhado força entre analistas de geopolítica: a de que a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio e no Leste Asiático não são episódios isolados, mas partes de uma mesma transformação estrutural do sistema internacional. Em vez […]

Foto: Wikimedia Commons

Por Vitor Stuart Gabriel de Pieri e Ricardo Luigi*

Uma leitura sobre os conflitos atuais tem ganhado força entre analistas de geopolítica: a de que a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio e no Leste Asiático não são episódios isolados, mas partes de uma mesma transformação estrutural do sistema internacional.

Em vez de crises regionais desconectadas, o que se observa é a formação de um amplo arco de instabilidade que se estende da Ucrânia, capital Kiev, na Europa Oriental, até Taiwan, capital Taipei, no Leste Asiático, passando pelo Cáucaso, Oriente Médio e Golfo Pérsico. Esse espaço coincide, em grande medida, com o chamado Rimland, conceito clássico da geopolítica que designa a borda estratégica da Eurásia.

Para entender melhor essa dinâmica, é preciso começar pelo mapa. A guerra entre Rússia e Ucrânia recolocou o Mar Negro e o Leste Europeu no centro das disputas globais. Ao mesmo tempo, o Oriente Médio vive uma escalada de tensões envolvendo Irã, Israel e diferentes atores regionais.

Mais a leste, a crescente rivalidade entre China e Estados Unidos, em torno de Taiwan, adiciona um novo ponto de pressão. Quando observados em conjunto, esses focos de conflito formam uma faixa contínua de tensões que atravessam algumas das regiões mais estratégicas do planeta.

Rimland concentra grande parte da população mundial e rotas comerciais

Esse padrão não é casual. O rimland, conceito formulado por Nicholas Spykman, corresponde justamente a essa faixa que circunda o núcleo continental da Eurásia. Trata-se de uma região que concentra grande parte da população mundial, importantes centros econômicos e, sobretudo, as principais rotas comerciais e energéticas globais.

Ao longo da história, o controle desse espaço esteve associado à capacidade de influenciar o equilíbrio de poder internacional. O conceito é retomado, no entanto, com uma mudança ligada à natureza da disputa. Se no passado o poder era exercido, sobretudo, por meio da ocupação territorial direta, hoje se manifesta também na capacidade de controlar fluxos: de energia, de mercadorias, de informações e de infraestrutura.

O arco que vai de Kiev a Taipei concentra exatamente esses elementos. No Mar Negro, no Canal de Suez, no Estreito de Ormuz e nas rotas do Indo-Pacífico, encontram-se alguns dos principais pontos de estrangulamento do comércio global. Qualquer instabilidade nessas áreas tem impacto imediato sobre preços, cadeias produtivas e segurança econômica.

Estados Unidos e aliados buscam preservar a ordem internacional consolidada no pós-Guerra

Nesse cenário, diferentes atores disputam posições em um sistema internacional cada vez mais tensionado. Estados Unidos e seus aliados europeus buscam preservar a ordem internacional consolidada no pós-Segunda Guerra Mundial, estruturada não apenas em alianças militares, como a OTAN, mas também em organismos econômicos e financeiros que sustentam a governança global.

Esse arranjo se apoia na centralidade do Ocidente, na defesa de regras internacionais e na predominância do dólar como principal moeda das transações globais. No entanto, essa arquitetura enfrenta crescentes dificuldades internas e externas.

Um dos elementos mais relevantes é a ascensão de correntes políticas associadas à extrema direita em diversos países ocidentais, que tensionam os próprios fundamentos dessa ordem, questionando instituições multilaterais e relativizando alianças tradicionais. Esse movimento enfraquece a coesão do bloco ocidental e dificulta a construção de consensos em torno de temas centrais da governança global.

Ao mesmo tempo, observa-se a intensificação de uma espécie de “guerra cultural” no plano internacional, em que valores, narrativas e identidades passam a ocupar lugar central nas disputas políticas. Questões como soberania, imigração, identidade nacional e globalização são mobilizadas tanto no debate doméstico, quanto na política externa, contribuindo para um ambiente de maior polarização.

Nesse contexto, o diálogo internacional se torna mais difícil, uma vez que divergências ideológicas profundas passam a interferir diretamente nas relações entre Estados.

Por outro lado, países como Rússia e Irã atuam como potências revisionistas, contestando aspectos dessa ordem e buscando ampliar sua influência regional e internacional. Para isso, recorrem a estratégias que combinam ação direta e indireta, incluindo o uso de alianças flexíveis, redes de influência e modalidades de guerra assimétrica.

China amplia sua influência sobre os fluxos globais de comércio e energia

Esses países não apenas desafiam a estrutura de poder existente, mas também exploram suas fragilidades, sobretudo em regiões estratégicas do Rimland. Mas talvez o elemento mais decisivo dessa nova configuração seja a ascensão do chamado Sul Global.

Países da Ásia, África e América Latina vêm ampliando sua margem de manobra, diversificando parcerias e evitando alinhamentos automáticos com as grandes potências tradicionais. Nesse contexto, ganha destaque o papel da China, que se afirma como o principal ator capaz de articular economicamente esse espaço sem depender, prioritariamente, do uso da força militar.

A estratégia chinesa se diferencia por privilegiar a conectividade. Por meio da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), Pequim investe em portos, ferrovias, rodovias e corredores logísticos que atravessam justamente o Rimland.

Ao conectar regiões estratégicas da Eurásia, do Oriente Médio e da África, a China amplia sua influência sobre os fluxos globais de comércio e energia. Além disso, sua atuação diplomática busca reduzir tensões em áreas-chave, garantindo estabilidade suficiente para a circulação de mercadorias e investimentos.

A questão de Taiwan se insere diretamente nesse contexto. A ilha, situada em uma das áreas mais sensíveis do Indo-Pacífico, é estratégica tanto do ponto de vista militar quanto econômico, especialmente pela centralidade na produção global de semicondutores.

A crescente pressão da China sobre Taiwan e o envolvimento dos Estados Unidos na defesa da ilha transformam essa região em um dos principais focos potenciais de conflito global, ampliando o arco de tensões que atravessa o Rimland até sua porção oriental.

O que emerge desse quadro é um mundo em transição, não de uma ordem unipolar para outra completamente distinta, mas de uma estrutura ainda marcada pela predominância ocidental para um cenário cada vez mais multipolar. Nesse novo contexto, múltiplos centros de poder passam a coexistir, ampliando a complexidade das relações internacionais e reduzindo a capacidade de uma única potência de impor regras de forma unilateral.

Ao mesmo tempo, cresce a instabilidade, à medida que diferentes projetos de organização do sistema internacional entram em disputa. Um dos elementos centrais dessa transformação é o questionamento da centralidade do dólar nas transações globais.

Países do Sul Global, em articulação com potências emergentes, têm buscado ampliar o uso de moedas locais em acordos comerciais, estabelecer mecanismos financeiros alternativos e reduzir a dependência das estruturas dominadas pelo Ocidente. Ainda que esse movimento não represente uma substituição imediata do dólar, ele sinaliza uma tendência de diversificação monetária que pode, no longo prazo, reconfigurar os fundamentos econômicos da ordem internacional.

Nesse contexto, o arco de conflitos que vai de Kiev a Taipei pode ser uma expressão territorial dessa transformação. Mais do que uma sequência de guerras, há o entrecruzamento de interesses estratégicos, rotas comerciais, disputas energéticas e projetos de poder. Compreender essa dinâmica é fundamental para entender não apenas os conflitos atuais, mas também os rumos da geopolítica global nas próximas décadas.


*Vitor Stuart Gabriel de Pieri, professor Associado do Instituto de Geografia Humana, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Ricardo Luigi, Professor de Geografia e Relações Internacionais, Universidade Federal Fluminense (UFF)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

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