E la nave va
Num planeta tão ambíguo e incerto, como e onde nós, brasileiros, nos inseriríamos como Estado e Sociedade? Teremos que nos bandear para um lado determinado, como alguns propalam?

Para os amigos que acompanharam a entrevista dos meus colegas professores da Escola Superior de Propaganda e Marketing/ESPM, Gunther Rudzit e Leonardo Trevisan, gostaria de complementar com uma matéria da analista Celia Froufe, no Estadão, que considero muito importante para entendermos os desdobramentos do século XXI e a insersão do Brasil no mundo que está-se conformando.
O seu título Investimento Chinês no País soma US$ 6,1bi em 2025, maior em 7 anos enuncia o que está-se tornando cada vez mais óbvio: a China avança a passos largos por estas bandas e se consolida como “O” – com maiúscula – parceiro estratégico privilegiado do Brasil.
Segundo a analista, “os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 6,1 bilhões em 2025, marcando um crescimento de 45% em relação ao ano anterior, e o maior valor em sete anos…. o Brasil consolidou-se como um dos principais destinos globais para o capital chinês, com forte foco em energia, infraestrutura e tecnologia.”… “como salientou o Conselho Empresarial Brasil-China/CEBC, o crescimento desses aportes foi muito superior ao desempenho geral dos investimentos estrangeiros em nosso país, e avançaram 4,8% em 2025, atingindo US$ 77,7 bilhões. Também é muito superior à elevação dos recursos chineses depositados no mundo”.
‘O interesse chinês não é mais apenas por produtos agrícolas e matérias-primas’
Ainda segundo a matéria, a área de mineração mereceu destaque, já que recebeu investimentos de US$ 1,76 bilhão — mais que o triplo do valor registrado em 2024, o maior desde o início do registro histórico do CEBC. O setor automotivo ficou em terceiro lugar, respondendo por 15,8% do valor investido em 2025 (leia-se entre outras iniciativas, a instalação da BYD em Camaçari), com aportes que somaram US$ 965 milhões). Já os investimentos no setor de petróleo chegaram a US$ 804 milhões no ano passado. Ou seja, não é mais apenas produtos agrícolas e matérias-primas.
Tudo isto sem tentar convencer o Brasil a seguir a sua cartilha político-ideológica e a adotar perfil similar ao seu. Contrariamente ao que pensam alguns setores mais radicais: “it´s business, stupid“!
Agora, falemos da visita do presidente Lula a Washington. Segundo o Estadão “Lula negociou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump um prazo de mais 30 dias para tentar pacto e evitar novo tarifaço”: “… o petista disse ter proposto esse prazo para que os dois lados apresentem uma proposta e os presidentes possam decidir sobre a questão comercial: quem estiver errado vai ceder”, afirmou Lula, que reclamou do andamento das tratativas entre as burocracias estatais”. Ou seja, dificuldades…dificuldades…
‘É preciso nos desarmarmos dos conceitos e preconceitos – ideológicos, sobretudo – que nos atam a um mundo que está em acelerada transformação’
É óbvio que estou exagerando na simplificação das complexidades envolvidas em ambos processos. Mas é preciso nos desarmarmos dos conceitos e preconceitos – ideológicos, sobretudo – que nos atam a um mundo que está em acelerada transformação.
Cito sempre a minha experiência pessoal de ter passado por quatro hegemonias nos meus 80 anos: 1) o fim do colonialismo britânico e da supremacia europeia, quando nasci, em 1945; 2) a hegemonia compartilhada EUA / URSS, até 1991, quando esta última se desintegrou; 3) a unívoca americana, a partir de então; e 4), a compartilhada entre EUA e RPC, com a emergência da China, no início deste século. A quantas mais ainda assistiremos? Onde fica a Índia? Ou seja, não há nada mais instável que “estabilidade” nas relações entre os Estados e as sociedades. Os exemplos se multiplicam se entrarmos em outras searas, religiões… costumes… tecnologia… Tautológico, mas irretorquível!
Num planeta tão ambíguo e incerto, como e onde nós, brasileiros, nos inseriríamos como Estado e Sociedade? Teremos que nos bandear para um lado determinado, como alguns propalam? Como não conseguiremos, obviamente, parar ou interferir no andar da História, só nos resta nos adequarmos a ela, buscando encontrar o melhor caminho para nós, Estado e Sociedade.
‘Recorro sempre a Antonio Azeredo da Silveira: adotemos a política do “pragmatismo responsável”, ou seja, salvaguardemos os nossos interesses nacionais, não importa a ideologia’
Recorro sempre ao sábio conselho do maior diplomata brasileiro do século XX, sob o qual tive o privilégio de servir no Itamaraty, Antonio Azeredo da Silveira: adotemos a política do “pragmatismo responsável”, ou seja, salvaguardemos os nossos interesses nacionais, não importa a ideologia: ou parodiando Deng Xiaoping (sim),”não importa a cor do gato, desde que cace ratos”: sabedoria multimilenar.
Não é que sejamos invertebrados políticos, mas que acompanhemos as circunstâncias, preservando a nossa identidade e a nossa índole, para auferirmos os benefícios da contemporaneidade: se a História segue para o Oriente (o que estou dizendo há mais de quarenta anos, quando optei pela Ásia na minha carreira na diplomacia), desbravemos a rota. Complicado? Não é uma questão de “ou”, mas de “e”!
Radical??? Pronto, falei.
Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.
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