14 outubro 2022

Editorial: Internacionalização da Amazônia

O vácuo de soberania existente em partes da Amazônia e a ausência de uma política externa proativa na América do Sul abrem caminho para que iniciativas novas, como o convite colombiano para que Otan e EUA atuem na região da floresta, preencham o vazio deixado pela omissão voluntária da maior nação do subcontinente

O vácuo de soberania existente em partes da Amazônia e a ausência de uma política externa proativa na América do Sul abrem caminho para que iniciativas novas, como o convite colombiano para que Otan e EUA atuem na região da floresta, preencham o vazio deixado pela omissão voluntária da maior nação do subcontinente

Helicóptero da Força Aérea brasileira durante exercício na tríplice fronteira do Brasil, Colômbia e Peru (Divulgação)

Por Rubens Barbosa*

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em entrevista recente, deu informações sobre entendimentos mantidos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e com os EUA para, “em vista da importância da crise climática, ter ajuda na região da Floresta Amazônica”. Disse que “tinha conseguido alcançar importantes objetivos com os EUA e a Otan”. “Com os EUA, o que estou tentando é levar o diálogo para outras áreas, além do combate às drogas, que fracassou”.

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Foi criada a primeira unidade militar com 12 helicópteros Black Hawk, mais de polícia do que militar, para ajudar a combater as queimadas na Amazônia”. “Será uma mudança completa no que a ajuda militar dos EUA tem sido até aqui. É uma grande conquista. Já há três helicópteros em ação. Vou continuar nessa linha porque me parece que nesse caminho podemos construir um diálogo muito mais positivo com os EUA”. Por outro lado, mencionou que “o objetivo das conversas com a Otan, da qual somos parte, é trazer a Organização do Tratado do Atlântico Norte para cuidar da Floresta Amazônica, para emprestar colaboração tecnológica”.

A Colômbia mantém desde 2015 um acordo de cooperação com a Otan no tocante à segurança eletrônica, marítima, crime organizado e terrorismo.  A Colômbia é o único parceiro global latino-americano da Otan, e o primeiro país sul-americano concluir um acordo de cooperação com a Otan. Naquela época, a aproximação com a Otan, por influência dos EUA, pode ser atribuída `a presença da Rússia e da China na Venezuela e às tensões ideológicas e políticas com o vizinho, cuja relação está hoje normalizada. Por outro lado, Joe Biden, no último dia 21 de setembro, em comunicação à presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, formalizou a designação da Colômbia como um aliado estratégico fora da Otan. 

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A iniciativa colombiana de chamar a Otan e os EUA para ter presença na Amazônia deve ser vista com cautela, mas, do ponto de vista do Brasil, se confirmada, é de extrema gravidade, por suas possíveis implicações estratégicas, ambientais, políticas e de defesa.

Podem, de imediato, ser identificadas duas preocupações permanentes do governo brasileiro, em particular das Forças Armadas e do Itamaraty: a internacionalização da Amazônia e a criação de bases militares de países de fora da região em países vizinhos, ambas possibilidades presentes na evolução futura da posição da Colômbia. Sem falar na perspectiva de aumento das tensões em nossa fronteira pela presença da China e da Rússia na Venezuela. 

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O vácuo de soberania existente em partes da Amazônia e a ausência de uma política externa proativa na América do Sul, inclusive pela necessidade, nesse caso, de invocação do Tratado de Cooperação Amazônica, abrem caminho para que iniciativas como a anunciada pelo presidente colombiano preencham o vazio deixado pela omissão voluntária da maior nação do subcontinente. 

Como parte da inserção soberana no cenário global, é urgente restabelecer a prioridade para o entorno geográfico, com uma nova atitude em relação à Amazônia. Sem isso, crescem os riscos de o Brasil ter de lidar com desdobramentos estratégicos imprevisíveis no seu entorno, determinados por atores estrangeiros e potencialmente contrários aos interesses nacionais.


*Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres, é diplomata, presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional.

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Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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