Eduardo Gradilone – A encruzilhada iraniana: Entre a pressão militar e o colapso da ordem internacional
O embaixador Eduardo Gradilone, com base em sua experiência diplomática em Teerã, oferece uma análise profunda sobre as forças geopolíticas e as fragilidades internas que sustentam este conflito
O Oriente Médio atravessa atualmente um dos períodos de maior instabilidade de sua história recente, marcado por uma transição crítica de ataques “pontuais” para ofensivas militares massivas lideradas pelos Estados Unidos contra o Irã.
Este cenário de “guerra aberta” reflete o esgotamento das vias diplomáticas tradicionais e a ascensão de uma dinâmica onde a “lei do mais forte” prevalece sobre o direito internacional.
O embaixador Eduardo Gradilone, com base em sua experiência diplomática em Teerã, oferece uma análise profunda sobre as forças geopolíticas e as fragilidades internas que sustentam este conflito.
O papel de Israel e a estratégia americana
Segundo o embaixador, a proeminência das ações militares americanas é, em grande parte, alimentada pela pressão estratégica de Israel. O objetivo israelense transcende a mera contenção do programa nuclear; busca-se o desmantelamento completo da capacidade de mísseis iraniana e a interrupção do apoio a grupos como o Hezbollah e o Hamas. Gradilone argumenta que as negociações nucleares foram utilizadas como um instrumento de pressão para forçar concessões em áreas de soberania que o Irã considera vitais para sua defesa.
A disparidade de poder é evidente: embora o Irã seja uma potência média com poder bélico considerável, ele não possui tecnologia ou sofisticação para enfrentar um confronto direto e prolongado contra a combinação de forças dos EUA e de Israel. Nesse contexto, os ataques funcionam como um “efeito demonstração” da superioridade tecnológica ocidental, utilizando inteligência artificial e armamentos sincronizados para dissuadir outras potências aliadas ao Irã.
Complexidade interna e o fracasso da liberalização
Internamente, o Irã vive um momento de extrema vulnerabilidade. As sanções econômicas drásticas levaram setores tradicionalmente conservadores, como os comerciantes do Bazar, a protestar contra o governo. Contudo, a estrutura do regime é de uma complexidade que torna a “mudança de regime”, desejada por figuras como Donald Trump, uma tarefa hercúlea. O sistema iraniano é dual: de um lado, o governo institucional e de outro, a estrutura liderada pelo Líder Supremo e a Guarda Revolucionária, que controla cerca de 70% da economia e possui legitimidade religiosa superior às Forças Armadas convencionais.
Houve uma janela de oportunidade com a eleição do presidente Masoud Pezeshkian, visto como um moderado disposto a flexibilizar normas sociais e buscar o fim das sanções. Entretanto, o embaixador observa que sempre que o Irã acena com a moderação, alas radicais internas ou ações externas, como o assassinato do líder do Hamas em Teerã durante a posse presidencial, sabotam o processo. Tais eventos forçam os moderados a adotarem uma retórica radical para manter a sobrevivência política, eliminando as chances de um convívio pacífico.
Consequências globais e o interesse brasileiro
As implicações deste conflito são sistêmicas. O possível fechamento do Estreito de Ormuz por tempo prolongado ameaça o fornecimento global de petróleo, impactando diretamente potências como China e Rússia. Além disso, a erosão do direito internacional está reativando o debate sobre a proliferação nuclear. Países vulneráveis passam a ver a bomba atômica como a única garantia real de soberania diante da falência das instituições globais.
Para o Brasil, o cenário é de preocupação pragmática. Com uma relação de mais de 120 anos e bilhões de dólares em exportações agropecuárias anuais, a instabilidade no Irã ameaça diretamente os interesses comerciais brasileiros, fora consequências relacionadas a outros países. O governo brasileiro tem mantido uma postura ponderada, repudiando tanto as agressões estrangeiras quanto as retaliações violentas, defendendo a volta à normalidade em uma região que parece cada vez mais distante da paz. Em suma, a visão de Gradilone não é otimista: sem uma alternativa política interna organizada e com o predomínio da força bruta externa, o Irã caminha para um cenário de isolamento e desespero.
Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.
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