Entre o gesto e o contexto- O encontro tardio do governo com a comunidade judaica
O encontro entre o governo federal e representantes da comunidade judaica brasileira sinaliza uma tentativa de reaproximação após anos de ruídos diplomáticos, controvérsias discursivas e percepção de respostas institucionais frágeis ao antissemitismo. Embora simbolicamente relevante, o gesto ocorre em contexto politicamente sensível e levanta dúvidas sobre sua consistência e continuidade, evidenciando o desafio de substituir gestos pontuais por canais permanentes de diálogo e políticas públicas previsíveis.

O recente encontro promovido pelo governo federal com representantes da comunidade judaica brasileira foi apresentado como um gesto de aproximação e diálogo. No entanto, quando observado à luz do histórico recente de relações entre o Executivo e esse segmento social, o movimento suscita mais questionamentos do que celebrações. A iniciativa, embora simbolicamente relevante, surge em um momento politicamente sensível e após anos marcados por distanciamento, ruídos diplomáticos e omissões diante de um cenário crescente de antissemitismo no país.
Nos últimos anos, o Brasil acompanhou, assim como diversas democracias ocidentais, um aumento significativo de manifestações antissemitas, tanto em ambientes digitais quanto em espaços públicos. Esse crescimento se insere em um contexto internacional mais amplo de radicalização política, normalização de discursos conspiratórios e erosão dos consensos mínimos sobre memória histórica e proteção de minorias. No entanto, embora o fenômeno tenha causas transnacionais, como a amplificação de discursos extremistas em redes sociais e a importação de narrativas polarizadas de outros contextos políticos (como o conflito Israel-Hamas), a forma como ele se manifesta em cada país depende fortemente da qualidade da resposta institucional doméstica.
‘A percepção predominante dentro de setores organizados da comunidade judaica foi a de uma resposta fragmentada, reativa e pouco estruturada’
No caso brasileiro, a percepção predominante dentro de setores organizados da comunidade judaica foi a de uma resposta fragmentada, reativa e pouco estruturada. Em vez da construção de uma política pública clara de enfrentamento ao antissemitismo, com diretrizes interministeriais, monitoramento sistemático, cooperação com entidades da sociedade civil e sinalizações diplomáticas consistentes, prevaleceram manifestações episódicas, muitas vezes condicionadas à repercussão midiática de casos específicos. Essa ausência de previsibilidade institucional é particularmente sensível em temas relacionados a crimes de ódio, nos quais a mensagem simbólica do Estado possui peso semelhante ao da resposta jurídica formal.
Além disso, o silêncio institucional em determinados episódios de grande repercussão pública contribuiu para consolidar a percepção de hierarquização implícita entre diferentes formas de discriminação. Ainda que não tenha havido, necessariamente, intenção deliberada de negligenciar o tema, a ausência de posicionamentos claros e imediatos em situações específicas foi interpretada por parte da comunidade como sinal de baixa prioridade política. Em contextos de aumento de tensões identitárias, a omissão comunicacional pode produzir efeitos semelhantes aos de posicionamentos explícitos, ao reforçar a sensação de vulnerabilidade simbólica de grupos minoritários.
‘Alguns episódios específicos contribuíram para consolidar a percepção de descalibragem discursiva e de descontinuidade institucional na relação entre o Estado brasileiro e o tema do antissemitismo’
Nos últimos anos, alguns episódios específicos contribuíram para consolidar a percepção de descalibragem discursiva e de descontinuidade institucional na relação entre o Estado brasileiro e o tema do antissemitismo. Entre eles, destacam-se declarações presidenciais que estabeleceram paralelos entre a ação militar israelense em Gaza e o Holocausto, comparações que geraram forte reação de organizações judaicas brasileiras e de instituições internacionais ligadas à memória da Shoá, além de repercussões diplomáticas diretas, incluindo o agravamento das relações bilaterais com Israel.
Em paralelo, a permanência do uso de enquadramentos retóricos como “genocídio” no contexto do conflito foi interpretada por parte da comunidade judaica como exemplo de linguagem politicamente legítima no debate internacional, mas sensível no plano simbólico doméstico, sobretudo quando associada a narrativas históricas que, ao longo do tempo, foram mobilizadas em contextos antissemitas.
‘A decisão brasileira de deixar a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto representou ruptura com um padrão histórico da política externa nacional’
No plano institucional, a decisão brasileira de deixar a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto representou ruptura com um padrão histórico da política externa nacional, tradicionalmente orientado pela permanência e pela tentativa de reforma interna de organismos multilaterais, mesmo diante de críticas. Somam-se a isso movimentos diplomáticos, como o apoio a iniciativas jurídicas internacionais contra Israel, que, embora possam ser enquadrados dentro da tradição brasileira de defesa do direito internacional e do multilateralismo jurídico, reforçaram a percepção de reposicionamento político do país no conflito.
No campo diplomático, outros elementos reforçaram a percepção de assimetria no tratamento político e simbólico do tema. Desde o agravamento da crise diplomática com Israel, o Brasil permanece sem embaixador residente em Tel Aviv, situação que se manteve mesmo após períodos de redução das hostilidades e o anúncio de cessar-fogo. Paralelamente, o governo brasileiro também não concedeu, até o momento, o agrément para a nomeação de um novo embaixador israelense em Brasília, prolongando uma anormalidade diplomática pouco compatível com o padrão histórico brasileiro de manutenção de canais formais de interlocução, mesmo em contextos de divergência política.
‘Observadores apontam diferenças de tom e frequência em notas oficiais do Itamaraty ao condenar atos de violência contra judeus, em comparação com comunicados relacionados a episódios envolvendo palestinos ou populações árabes’
No plano comunicacional, observadores apontam diferenças de tom e frequência em notas oficiais do Itamaraty ao condenar atos de violência contra judeus, em comparação com comunicados relacionados a episódios envolvendo palestinos ou populações árabes, percepção que, ainda que sujeita a interpretações políticas distintas, contribuiu para o sentimento de tratamento desigual no plano simbólico. Soma-se a isso a dimensão performativa da política externa e doméstica: o presidente da República recepcionou pessoalmente brasileiros de origem palestina evacuados de Gaza, gesto de forte valor humanitário e político, mas que não teve paralelo em iniciativas equivalentes direcionadas a brasileiros-israelenses afetados pelo conflito.
Em política internacional contemporânea, esses gestos possuem peso que ultrapassa o protocolo, pois são interpretados como sinais de prioridade moral e política do Estado. Isoladamente, cada uma dessas decisões pode ser justificada dentro de lógicas específicas de política externa ou de gestão de crise humanitária; em conjunto, porém, contribuíram para consolidar a percepção, em setores da comunidade judaica brasileira, de distanciamento institucional e simbólico em relação ao governo federal.
‘O encontro recente é interpretado por parte dos observadores menos como continuidade de uma política de Estado consolidada e mais como uma inflexão conjuntural’
Diante desse histórico, o encontro recente é interpretado por parte dos observadores menos como continuidade de uma política de Estado consolidada e mais como uma inflexão conjuntural. Isso não invalida, em si, a importância do gesto, diálogos institucionais são sempre necessários, mas levanta dúvidas sobre sua sustentabilidade no tempo. Em política pública, especialmente em temas sensíveis relacionados a minorias, a consistência ao longo dos anos costuma ser percebida como indicador mais relevante de compromisso do que gestos pontuais de aproximação.
Há ainda um elemento adicional que não pode ser ignorado: o contexto eleitoral. Embora a comunidade judaica brasileira seja numericamente pequena e incapaz de determinar resultados eleitorais de maneira direta, sua relevância simbólica e sua inserção em debates públicos de maior alcance tornam qualquer movimento de aproximação politicamente significativo. O fato de essa abertura ocorrer em ano eleitoral inevitavelmente levanta suspeitas sobre suas motivações, ainda que não se possa afirmar, de maneira categórica, que se trate de mera estratégia de imagem. Em política, gestos raramente são neutros, e o momento em que ocorrem importa tanto quanto o conteúdo.
‘Em democracias contemporâneas, a relação entre Estado e minorias organizadas raramente se constrói a partir de eventos pontuais’
O encontro recente, portanto, não pode ser analisado isoladamente. Ele se insere em uma sequência de ações, declarações e omissões que, ao longo dos últimos anos, moldaram gradualmente a percepção de setores da comunidade judaica sobre o grau de abertura institucional do governo ao diálogo estruturado. Em democracias contemporâneas, a relação entre Estado e minorias organizadas raramente se constrói a partir de eventos pontuais; ela depende da existência de canais estáveis de interlocução, capazes de transformar demandas simbólicas e materiais em agendas de política pública contínuas. A ausência desse tipo de arquitetura institucional tende a produzir ciclos de aproximação episódica e distanciamento prolongado, dificultando a construção de confiança política de longo prazo.
Nesse contexto, o eventual deslocamento político de parcelas da comunidade judaica, quando observado, deve ser compreendido menos como resultado de alinhamentos ideológicos automáticos e mais como expressão de dinâmicas clássicas de política de reconhecimento. Minorias historicamente marcadas por experiências de vulnerabilidade tendem a valorizar, de maneira particularmente intensa, sinais consistentes de escuta institucional, proteção simbólica e previsibilidade estatal. Quando esses elementos são percebidos como frágeis ou intermitentes, abre-se espaço para que atores políticos concorrentes ocupem esse vazio, oferecendo não necessariamente maior convergência programática, mas maior disponibilidade para interlocução direta e reconhecimento identitário.
‘É fundamental evitar leituras reducionistas que tratem a comunidade judaica brasileira como bloco político homogêneo’
Ao mesmo tempo, é fundamental evitar leituras reducionistas que tratem a comunidade judaica brasileira como bloco político homogêneo. O judaísmo brasileiro é marcado por profunda diversidade interna, religiosa, étnica, geracional, socioeconômica e ideológica, que se traduz em comportamentos políticos plurais. Há diferenças relevantes entre correntes religiosas, entre gerações, entre segmentos mais vinculados a pautas comunitárias e aqueles mais integrados a agendas políticas nacionais amplas. Além disso, como ocorre em outros grupos minoritários altamente escolarizados e urbanizados, a distribuição de preferências políticas tende a acompanhar clivagens estruturais da sociedade brasileira, e não apenas pautas identitárias específicas.
Essa pluralidade interna, contudo, não elimina a existência de sensibilidades coletivas em torno de temas específicos, especialmente aqueles relacionados à segurança simbólica, à memória histórica e ao combate ao antissemitismo. Em contextos de aumento de polarização política e de circulação ampliada de discursos extremistas, a percepção de alinhamento, ou desalinhamento, do Estado em relação a esses temas tende a adquirir peso político desproporcional ao tamanho demográfico da comunidade. Isso ocorre porque minorias com alto grau de capital social e institucional costumam exercer influência política indireta por meio de redes acadêmicas, empresariais, culturais e midiáticas, ampliando o alcance de suas percepções para além de sua dimensão numérica.
‘A ausência histórica recente de canais permanentes de diálogo institucional não apenas dificultou a construção de confiança de longo prazo, como também aumentou a volatilidade da relação entre governo e setores organizados da comunidade’
Nesse sentido, a ausência histórica recente de canais permanentes de diálogo institucional não apenas dificultou a construção de confiança de longo prazo, como também aumentou a volatilidade da relação entre governo e setores organizados da comunidade. Relações baseadas em contatos episódicos tendem a ser mais vulneráveis a choques políticos, crises internacionais e ruídos discursivos. Já relações institucionalizadas, com agendas regulares, fóruns formais e interlocutores reconhecidos, tendem a absorver tensões conjunturais sem ruptura estrutural.
O desafio que emerge, portanto, não é apenas reconstruir pontes, mas estabelecer mecanismos duradouros de interlocução que reduzam a dependência de gestos simbólicos pontuais. Em democracias plurais, o reconhecimento político sustentável raramente é produzido por encontros isolados; ele se constrói por meio da previsibilidade institucional, da representatividade dos interlocutores e da coerência entre discurso público, política externa e ação doméstica. Sem esses elementos, iniciativas de aproximação tendem a ser interpretadas menos como reorientação estratégica e mais como resposta circunstancial a contextos políticos específicos.
Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
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