13 maio 2026

EUA e Israel contra o Irã  – Uma guerra de escolha sem estratégia

No estágio atual do conflito, os EUA são os grandes perdedores, embora não seja o Irã um claro vencedor

Foto: Casa Branca

Trump tem pressa para terminar a guerra. O Irã prefere continuar

Trump iniciou em 28 de fevereiro uma guerra de escolha, sem estratégia e com apoio de Israel. 

O Irã não é uma ameaça à segurança dos EUA, mas a opção de iniciar o conflito está ligada a um conjunto de circunstâncias recentes, tais como: o êxito do sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela; a hegemonia israelense no Oriente Médio; o enfraquecimento militar do Irã e de seus proxies; o ataque israelense-norte-americano contra as instalações nucleares iranianas, com represália quase nula de Teerã; e o assassinato do Líder Supremo iraniano por Israel. 

Embora sem alcançar qualquer dos objetivos inicialmente  contemplados, Trump demonstra visível desejo e inquietação para terminar o conflito. Em contraste, Teerã, aspira aumentar o desgaste de Washington, para negociar em melhores bases. Nesse ambiente, o senhor da guerra é o tempo, e esse favorece o Irã. 

As exigências maximalistas de Trump no início do conflito, bem como suas ameaças retóricas foram abandonadas e substituídas pela pressão econômica, com o fechamento dos portos iranianos ao comércio internacional. As atuais condições norte-americanas para a negociação – inaceitáveis para Teerã – são a reabertura do Estreito de Ormuz e a neutralização do programa nuclear. O Irã, por sua vez, exige o término dos ataques israelenses ao Hezbollah no Sul do Líbano, o fim do bloqueio aos portos iranianos e o levantamento das sanções internacionais impostas ao país.  

‘A guerra impõe alto custo político, econômico e geopolítico aos EUA, ao mesmo tempo que provoca forte abalo no arsenal militar, na infraestrutura e na economia iraniana’

Apesar dessas divergências polarizadas, há espaço para negociação.  A guerra impõe alto custo político, econômico e geopolítico aos EUA, ao mesmo tempo que provoca forte abalo no arsenal militar, na infraestrutura e na economia iraniana. Como poderá evoluir o atual impasse? Que consequências terá a guerra para EUA e Irã?  

O tempo contra Trump: aprovação em declínio, gasolina em alta, divisões no MAGA, eleições próximas.

A guerra é a inimiga número um de Trump. Terminada hoje, a vitória do Irã seria evidente, e o custo político para os EUA, demasiado alto – declínio na influência e no prestígio internacional, além de perda da maioria republicana na Câmara de Representantes, em novembro próximo.  

Resultados de pesquisas recentes da Reuters/Ipsos soam alarmantes para Trump. Apenas 27% dos americanos apoiam a guerra. Antes do conflito, o índice de aprovação de Trump era perto de 47%, e hoje baixou para 36%. A rejeição ao presidente alcançou 62%, e o preço do galão de gasolina subiu de US$2,90, em janeiro, para US$4,10 hoje.

Esses dados revelam que Trump precisa terminar um conflito que já se prolongou demais. Mas, para isso é necessário contar com algum trunfo que simbolize a vitória na guerra e justifique um acordo de paz, embora precário. Essa circunstância explica o abandono das demandas maximalistas iniciais e sua substituição por robusta pressão econômica, por meio do bloqueio naval aos portos iranianos. A esperança é flexibilizar Teerã em relação às duas principais exigências norte-americanas – a reabertura do estreito de Ormuz e a neutralização do programa nuclear.

‘Trump prioriza o fim da guerra, mas enfrenta a oposição dos dois lados –   Irã e Israel’

Trump prioriza o fim da guerra, mas enfrenta a oposição dos dois lados –   Irã e Israel. É quase consensual a visão de que Netanyahu procura ampliar o conflito- à semelhança do que fez na guerra entre Israel e o Hamas –  e por isso volta a atacar o Hezbollah no Sul do Líbano. 

A sobrevivência política de Netanyahu depende do prolongamento da guerra. Mas a ansiedade de Trump em terminar o conflito acirra as divergências entre os interesses de Washington e de Tel Aviv. Israel busca a derrocada do regime e a destruição do programa nuclear. Diferentemente, os EUA – incapazes de alcançar os objetivos maximalistas iniciais – restringem as ambições e demandam a reabertura do Estreito de Ormuz e a neutralização do programa nuclear. 

O axioma guerra externa e coesão interna – A resiliência iraniana

O primeiro efeito da guerra de EUA e Israel contra o Irã foi comprovar o conhecido axioma – guerra externa produz coesão interna. As gigantescas manifestações populares, que ameaçavam o regime teocrático-militar iraniano antes do conflito, passaram a um plano secundário e a população se uniu contra o inimigo externo. União temporária, que não elimina a ampla contestação latente ao regime. Outra verdade militar se comprovou no Irã – bombardeios aéreos não derrubam autocracias. 

Israel consolidou sua hegemonia no Oriente Médio na guerra contra o Hamas, responsável por substancial perda militar para o Hamas , o Hezbollah, as milícias iraquianas e sírias. A resposta tímida de Teerã a esse avanço consolidou a percepção de supremacia israelense e de inferioridade iraniana.

‘A tímida resposta iraniana no passado criou a percepção de grande fragilidade militar do Irã, agravada pelas gigantescas manifestações populares contra o regime’

Apesar disso, até então, nem Israel havia atacado diretamente o Irã nem vice-versa. Entretanto, com a aliança carnal Trump-Netanyahu, essa autocontenção mútua se rompeu e resultou, em junho de 2025, na chamada “Guerra dos Doze Dias”, e no ataque israelense-norte-americano às instalações nucleares do país. A tímida resposta iraniana criou a percepção de grande fragilidade militar do Irã, agravada pelas gigantescas manifestações populares contra o regime. 

Diante desse quadro, Netanyahu convenceu Trump de que era preciso aproveitar essa conjuntura de fragilidade para iniciar uma guerra aberta contra o país, não mais com o objetivo limitado de neutralizar o programa nuclear, mas com o propósito mais amplo de mudança do regime. 

Ao contrário do passado, Teerã reagiu com violência – ataques de mísseis e drones a Israel e, de forma inesperada a instalações petrolíferas das monarquias do golfo, aliadas dos EUA, como Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã, além de ameaças às plantas de dessalinização nesses países. Além dessas investidas, Teerã assumiu a mais radical escalada na guerra – fechou o Estreito de Ormuz, responsável por 20% do fluxo internacional de petróleo. 

A reabertura do Estreito exigiria a presença de tropas terrestres norte-americanas, em situação de extrema vulnerabilidade e com elevadas baixas humanas. Em lugar disso, os Estados Unidos optaram por bloquear os portos iranianos e, assim, tentar asfixiar a economia do país. Mas esses resultados não são de curto prazo, ao contrário dos imensos prejuízos globais, derivados do fechamento de Ormuz. Essas circunstâncias estimularam a busca da cessação das hostilidades, de forma a minimizar as elevadas perdas globais. Em consequência, com o apoio da China, o Paquistão sediou reuniões entre as duas partes em conflito, que produziram o atual cessar fogo por tempo indeterminado. 

‘Trump precisa obter alguma concessão iraniana, que possa vender internamente como vitória e, assim, reduzir o desgaste político-eleitoral’

A evolução do estágio atual de cessar-fogo para etapa de negociação de  acordo dependerá do jogo de forças entre EUA e Irã. Trump precisa obter alguma concessão iraniana, que possa vender internamente como vitória e, assim, reduzir o desgaste político-eleitoral. 

O Irã se mantém inflexível e prefere prolongar o conflito, para elevar os prejuízos econômicos e políticos norte-americanos e, dessa forma, ganhar poder de barganha na mesa de negociação. O trade off atual é entre bloqueio dos portos iranianos versus controle do Estreito de Ormuz. Apesar dessa rigidez bipolar, o espaço para negociação existe, e resulta das elevadas perdas materiais de ambos os atores com o prolongamento do conflito.

Conclusão

No estágio atual do conflito, os EUA são os grandes perdedores, embora não seja o Irã um claro vencedor.  Após mais de um mês de intensos bombardeios, Trump não atingiu qualquer de seus objetivos: mudar o regime; eliminar o programa nuclear; neutralizar os mísseis de longo alcance; e inviabilizar os proxies. 

No âmbito do Oriente Médio, a guerra se revelou, para os EUA, um ônus sem bônus. Os ataques iranianos às instalações petrolíferas das monarquias do Golfo evidenciaram a enorme fragilidade desses países, razão pela qual eram fortes opositores da guerra. Essa alimentou as divergências entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, magnificada com a recente saída desses últimos da Opep.

Os tradicionais aliados europeus- com as economias abaladas pela disparada do preço do petróleo para o patamar de US$ 100 o barril –  defendem a contenção das hostilidades, ao contrário dos EUA, que até há pouco insistia nos bombardeios aéreos.  

O distanciamento desses países em relação aos EUA se acentuou, ao negarem autorização para aeronaves americanas destinadas ao conflito sobrevoarem seus espaços aéreos, e ao recusarem participar de iniciativas destinadas à abertura do Estreito de Ormuz. Assim, União Europeia e EUA são hoje amigos distantes.

‘No plano global, os grandes beneficiários da guerra são China e Rússia –  principais rivais dos EUA’

No plano global, os grandes beneficiários da guerra são China e Rússia –  principais rivais dos EUA. A guerra teve o ônus de colocar os EUA na condição semelhante à da Rússia, de potência invasora. Enquanto o bônus do conflito para a Rússia foi sobretudo econômico, com o salto nas receitas petrolíferas, para a China os benefícios foram mais amplos e com significado geopolítico. Os EUA perdem a condição histórica de grande protetor dos países do Golfo, enquanto a China passa a ser vista como a potência estabilizadora. O foco excessivo no Oriente Médio também afastou os EUA da Ásia. No âmbito do Sul Global, a aliança com Israel e a postura belicista dos EUA nada acrescenta a sua influência, já declinante, na África.

Em contraste com esses efeitos negativos para os EUA, a guerra projetou o status geopolítico do Irã. A resposta inicial do país aos ataques aéreos consistiu no lançamento de mísseis sobre o território israelense, que foram interceptados em mais de 90% pelo domo de ferro.  Entretanto, a represália seguinte – atacar instalações petrolíferas nas monarquias do Golfo – teve forte efeito dissuasório. Esses tradicionais aliados de Washington se sentiram desprotegidos, o que levou Trump a pressionar Israel para reduzir os bombardeios ao território iraniano. 

‘Do ponto de vista geopolítico, o atual estágio do conflito revela um Irã fortalecido, com capacidade de dissuasão muito superior à que detinha antes da guerra’

A ação seguinte do regime foi o ponto de inflexão decisivo na guerra – o controle do Estreito de Ormuz – que elevou o Irã da condição de potência regional para o status de ator com influência global, capaz de alterar os rumos do mercado mundial de energia. Assim, do ponto de vista geopolítico, o atual estágio do conflito revela um Irã fortalecido, com capacidade de dissuasão muito superior à que detinha antes da guerra. 

No plano militar, o Irã se encontra mais enfraquecido, com a Marinha praticamente dizimada e com estoque de mísseis de longo alcance reduzido. Apesar disso, o arsenal disponível, inclusive de drones, ainda assegura capacidade de resposta e de ataque, como demonstrado nas investidas nos vizinhos do Golfo. 

O programa nuclear, juntamente com o controle do Estreito de Ormuz, é a pedra de toque para eventual desfecho da guerra. Os 401 quilos de urânio enriquecido a mais de 60% estocados no subsolo são um ativo importante nas futuras negociações de um acordo. As exigências determinadas por Trump para o fim do conflito e a suspensão das sanções incluem medidas consideradas maximalistas por Teerã, tais como: o desmantelamento das instalações de Natanz, Isfahan e Fordow; o enriquecimento a níveis entre 3% e 5%; e a transferência de estoques para fora do Irã. 

‘A trajetória recente do programa nuclear iraniano revela o grande equívoco de Trump em seu primeiro mandato, ao retirar os EUA do Acordo de 2015, construído por Obama e as potências nucleares’

A trajetória recente do programa nuclear iraniano revela o grande equívoco de Trump em seu primeiro mandato, ao retirar os EUA do Acordo de 2015, construído por Obama e as potências nucleares. Essa decisão estimulou o Irã – livre do monitoramento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – a enriquecer urânio a mais de 60%, o que o aproximou da capacidade plena de desenvolver o artefato nuclear, e serviu para legitimar investidas militares de Israel e EUA.  

O destino do programa nuclear continua sendo séria ameaça à nova ordem internacional em gestação, agravada pelo ataque norte-americano-israelense de junho de 2025.  

Finalmente, uma avaliação global dos efeitos da guerra até o momento revela contraditória assimetria de resultados. Os EUA, promotor da guerra, colhem os resultados mais adversos do conflito, tanto na política e na economia doméstica, como na geopolítica. 

Como senhor da guerra, Trump vive um paradoxo gigante. Beneficia os grandes rivais estratégicos  – Rússia, China e Irã – e penaliza os históricos aliados – países da União Europeia e monarquias do Golfo. Além desse grande equívoco, talvez a mais grave aberração de Trump tenha sido transformar o Irã – uma potência regional – em ator global com decisivo papel no mercado mundial de energia. A súbita projeção de poder adquirida pelo Irã, em consequência da guerra de escolha contra o país, será referencial relevante na configuração da nova ordem internacional em gestação.  

Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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