23 julho 2024

Extremismo e consumerismo político-partidário: Alerta de polarização

Em vários países, como os Estados Unidos, o Brasil, a Alemanha e a Itália, a identificação partidária tornou-se cada vez mais alinhada com as políticas de identidade em todos os lugares onde os partidos políticos se tornaram cada vez mais ideologicamente homogêneos

Manifestantes a favor e contra o impeachment de Dilma Rousseff em imagem símbolo da polarização no Brasil (Foto: Agência Brasil)

Consumir além de bens e serviços, sim, consumir ideias que apoiam melhorias locais, geram mudanças nacionais ou que apontam imprescindíveis parcerias internacionais. Isso mesmo, abordamos o extremismo partidário e seu consumo na “nossa política de cada dia” como cidadão no nosso bairro, cidade, estado e no Brasil. Sendo assim, fundamenta-se em uma lógica interdisciplinar e transdisciplinar, atravessando pela psicologia política permeando as influências no comportamento do consumidor, no papel de um cidadão-eleitor.

Esse consumo como terreno do exercício político (Borges, 2021) possibilita aproximar-se à dimensão de seus direitos e deveres respaldadas pela ordem jurídica, precisamente garantidos pelo Estado. Embora o campo da psicologia política se concentre predominantemente na orientação política (ou seja, conteúdo ideológico), este texto propõe que o extremismo político (ou seja, força ideológica) à esquerda e à direita também importa para uma série de variáveis importantes (van Prooijen & Krouwel, 2022), relacionando-se com o processo de tomada de decisão de consumo – neste caso, a escolha político-partidária. 

Em vários países, como os Estados Unidos, o Brasil, a Alemanha e a Itália, a identificação partidária tornou-se cada vez mais alinhada com as políticas de identidade em todos os lugares onde os partidos políticos se tornaram cada vez mais ideologicamente homogêneos. Este é especialmente o caso nos Estados Unidos, onde hoje a filiação partidária política ou a tendência eleitoral de uma pessoa podem ser previstas com base em apenas alguns indicadores culturais, econômicos, geográficos, sociais e demográficos com elevada certeza (Klein, 2020).

‘O termo consumerismo refere-se ao oposto do consumismo, ou seja, o consumo ilimitado de artigos supérfluos, de atitude desenfreada e ação irresponsável; prioriza-se aspectos de um consumo consciente’

O termo consumerismo refere-se ao oposto do consumismo, ou seja, o consumo ilimitado de artigos supérfluos, de atitude desenfreada e ação irresponsável. Prioriza-se aspectos de um consumo consciente, sustentável e responsável o qual extrapola o simples ato de consumir, usufruir ou comprar, mas também repensa suas implicações na vida do consumidor e no ambiente no qual faz parte (Camfield & Piceti, 2016), localmente ou não.

Na dialética do consumerismo, entende-se que nesse processo decisório, há a presença das manifestações justificadas, prioridades compensadas e soluções elucidadas no processo da tomada de decisão motivado pela orientação política, cujo conteúdo ideológico identifica-se com variáveis demográficas, sociais, culturais, geográficas, psicográficas ou comportamentais. Por exemplo, a faixa etária interacionada com o estilo de vida e a localização da moradia influencia preferências, desejos e valores. Somado às influências pessoais, situacionais e psicológicas — respectivamente, sua classe social e seu grupo de referências aspiracionais ou dissociativos; o ambiente físico e seu humor na hora do voto; e sua motivação e sua memória sobre o partido ou o candidato e, seguramente, sua própria autoimagem. 

Ao mesmo tempo, à medida que os partidos políticos se têm tornado cada vez mais ideologicamente homogêneos, tem havido uma explosão de meios de comunicação personalizados, especialmente meios de comunicação social, que fornecem “câmaras de eco” para os cidadãos, o que levou a níveis crescentes de polarização. 

‘Os partidos políticos e os meios de comunicação social são incentivados a apelar aos elementos mais extremistas do seu grupo, o que agrava ainda mais a polarização’

A polarização aqui pode ser entendida como um processo em que as atitudes e afiliações políticas se tornam mais extremas e ideologicamente distintas, levando a uma divisão significativa entre grupos (Klein, 2020). Posteriormente, os partidos políticos e os meios de comunicação social são incentivados a apelar aos elementos mais extremistas do seu grupo, o que agrava ainda mais a polarização. Todavia, percebe-se que esses grupos extremistas nem sempre são tão homogêneos assim, haja visto filiações e preferências relacionadas com grupos religiosos no Brasil. 

Mais do que uma sociedade de consumo, somos uma civilização do consumo (Campbell; 2001; 2004), em que a prática da cidadania do ser político perpassa pelas motivações partidárias e atitudes ideológicas em busca de uma vida melhor. “Melhor” nos seus mais variados significados linguísticos e diversidades contextuais: individualmente ou coletivamente. 

No entanto, há evidências de que os eleitores são cada vez mais movidos mais pela polarização negativa do que pela polarização positiva, ou seja, são levados a participar politicamente mais pelo desejo de ver o seu oponente perder do que por ver o seu candidato ou qualquer questão política específica ter sucesso (Klein, 2020). 

‘A civilização do consumo assume, depois, um processo decisório de querer e desejar, algo intrínseco ao ser humano, ao individualismo’

Enquanto as características da sociedade do consumo eram baseadas na ausência de reflexão e de perspectiva sobre si mesma (Baudrillard, 2001), a civilização do consumo assume, depois, um processo decisório de querer e desejar, algo intrínseco ao ser humano, ao individualismo. 

Pensamento próprio propenso às extremidades da ação. As agendas políticas percebidas como extremistas geralmente incluem aquelas da política de extrema esquerda ou direita, provendo “assuntos indigestos” entre os alvoroços no consumo partidário, apelos estereotipados e os escândalos políticos tanto nas campanhas políticas ou debates públicos na imprensa – ocasiões inegáveis, também, influenciáveis na tomada de decisão do eleitor.

Tais situações conflitantes, entre o consumidores cidadão-eleitor ou mesmo, entre os políticos e candidatos, atribui-se o rótulo de “extremista” acrítico – com o conceito de extremismo político a partir das duas principais noções concorrentes na literatura, ou seja, populismo e radicalismo. 

Embora ambos apresentem vários significados, resumidamente, enquanto populismo não significa dizer o que as pessoas querem ouvir, a direita radical não é necessariamente extrema (Guimarães, 2023). Ainda, o populismo defende que a política deve ser a expressão do “povo” em prol do nacionalismo econômico, enquanto o radicalismo denota a inflexibilidade ou fanatismo nas ideias e atitudes para reformas profundas e imediatas na organização social.

‘Toda definição de extremismo de esquerda e de direita deve, em essência, ter dois componentes: um que descreva as pré-condições necessárias para ser considerado extremista e outro que o classifique como de esquerda ou de direita’

Toda definição de extremismo de esquerda e de direita deve, em essência, ter dois componentes: um que descreva as pré-condições necessárias para ser considerado extremista e outro que o classifique como de esquerda ou de direita. Em geral, há um amplo consenso sobre o que é extremismo de direita, enquanto extremismo de esquerda é muito mais difícil de definir por ser resumido em marxismo e anarquismo (Jungkunz, 2022). A saber, doutrinas extremistas são sistemas de crenças que mediam valores com uma reivindicação de verdade (Backes, 2007). 

Portanto, crenças politicamente extremas estão associadas ao excesso de confiança na correção das próprias crenças e no próprio conhecimento sobre o mundo; também, uma maior suscetibilidade a crenças que não são apoiadas pela ciência ou pela razão e sim, pela intolerância aos sistemas de crenças competidoras ou grupos percebidos como ideologicamente diferentes. Precisamente, contrário ao processo na tomada de decisão de consumo embasado e inteligente, com parcimônia e bom senso. Sem vieses inconscientes, discriminatórios ou prejudiciais.

Ainda mais extremo: Os extremistas comumente afirmam a verdade absoluta de sua ideologia. Por fim, o extremismo político na maioria dos casos é um problema para as sociedades democráticas e bem-estar das nações, seja de direita ou de esquerda. 

Desde a votação do Brexit e a eleição de Donald Trump em 2016, tem havido uma onda de candidatos populistas que venceram as eleições, como Jair Bolsonaro no Brasil em 2018, Boris Johnson no Reino Unido em 2019, Giorgia Meloni na Itália em 2022, Javier Milei na Argentina em 2023, entre outros. Algumas delas foram rejeitadas desde então, como a derrota de Trump em 2020, a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022 e a recente grande derrota do partido conservador nas eleições parlamentares do Reino Unido. 

Houve também vitórias eleitorais notáveis para os partidos de extrema-direita em toda a Europa e nas recentes eleições parlamentares da UE, que foi parcialmente derrotada a nível nacional nas recentes eleições em França por uma aliança de partidos políticos de centro e de esquerda. Algumas dessas derrotas eleitorais levaram à violência política, como no caso das tentativas fracassadas de golpe de apoiadores de Trump em 6 de janeiro de 2021 e de Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023, as primeiras levaram à morte de 5 pessoas (incluindo um policial).

‘No cerne problemático em todos estes casos está o zelo com que os apoiantes, em ambos os extremos, apresentam os seus oponentes como ameaças existenciais ao sistema político’

No cerne problemático em todos estes casos está o zelo com que os apoiantes, em ambos os extremos, apresentam os seus oponentes como ameaças existenciais ao sistema político, e a normalização dessa demonização que leva à normalização de comportamentos extremos que, se nem sempre, são violadores de regras. certamente a violação de normas que mina ainda mais a confiança no próprio sistema democrático. Há um fervor crescente pela pureza entre as fileiras dos apoiantes dos partidos políticos e, num ecossistema mediático hiperpolarizado, os membros mais extremistas dos partidos políticos são aqueles que ganham plataformas maiores que procuram vitórias artificiais em questões de guerra cultural, em vez de compromisso e progresso. nas questões mais urgentes, como as alterações climáticas, os sistemas de saúde e de pensões, a educação, a guerra e a paz.


Referências:

Backes, U. (2007). Meaning and forms of political extremism in past and present. Central European Political Studies Review, 4(4), 242–262.

Borges, F. M. (2021). Consumidores Indignados: Ativismo, Práticas Cidadãs e Consumerismo nas Redes Sociais. International Journal of Business and Marketing6(2), 22-31.

Camfield, C. E. R., & Piceti, P. (2016). Consumerism, sustainability, and consumer behaviour: A systematic literature review. Brazilian Journal of Marketing, Opinion, and Media Research, 85-100.

Campbell, C. (2001). A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rocco.

Guimarães, M. J. (2023). Populismo, direita radical, extrema-direita – o que são? E onde está o Chega? O Público.

Jungkunz, S. (2022). What Is Political Extremism? In: The Nature and Origins of Political Extremism In Germany and Beyond. New Perspectives in German Political Studies. Palgrave Macmillan.

Klein, E. (2020). Why We’re Polarized. Avid Reader Press.

van Prooijen, J; W; & Krouwel, A. P. (2022). Political Extremism. In: Osborne, D., & Sibley, C. G. (Eds.). The Cambridge handbook of political psychology.  Cambridge University Press. 


*John James Loomis é pesquisador de pós-doutorado na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP). Sua pesquisa analisa a sustentabilidade de cadeias globais de valor ancoradas na Amazônia.

Fabiana Gondim Mariutti atua como pesquisadora, professora universitária e consultora; obteve pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração e bacharel em Comunicação Social. Estuda a imagem, reputação e marca Brasil desde 2010. Interesse nas áreas de Place Branding e Public Diplomacy. Nomeada Place Brand Expert pelo The Place Brand Observer, na Suíça. Autora do recente artigo: “When place brand and place logo matches: VRIO applied to Place Branding”, de dois livros e sete capítulos de livros

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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