25 janeiro 2023

Fernanda Nanci Gonçalves: Novos tempos na América do Sul?       

Contexto da volta de governos da esquerda na América Latina é diferente da primeira “onda rosa” da região, com desafios econômicos, políticos e sociais. Para professora de relações internacionais, entretanto, nota-se uma sintonia dos governantes na intenção de reconstruir uma política regional integrada e cooperativa, o que deve gerar iniciativas para a reconstrução de instituições, de alianças e acordos, com destaque para a questão ambiental

Contexto da volta de governos da esquerda na América Latina é diferente da primeira “onda rosa” da região, com desafios econômicos, políticos e sociais. Para professora de relações internacionais, entretanto, nota-se uma sintonia dos governantes na intenção de reconstruir uma política regional integrada e cooperativa, o que deve gerar iniciativas para a reconstrução de instituições, de alianças e acordos, com destaque para a questão ambiental

Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Alberto Fernández, durante reunião em Buenos Aires (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Fernanda Nanci Gonçalves*

No início do século XXI, cunhou-se o termo “onda rosa” para se referir à eleição de lideranças de centro-esquerda nos países sul-americanos, período marcado por iniciativas diversas de cooperação regional e por diferentes matizes ideológicas da esquerda progressista que estava no poder, desde um espectro mais intenso –como o bolivarianismo defendido por países como Venezuela, Bolívia e Equador– a outros menos –como o neodesenvolvimentismo defendido pelo Brasil.

Como uma onda, a emergência de governos de centro-esquerda enfraqueceu a partir de 2015, dando origem à ascensão de governos de cunho neoliberal na região, marcando o que se convencionou conceituar como “onda azul”, “onda conservadora” ou “ascensão da direita” na América do Sul. Após alguns anos, contudo, observa-se a reemergência de uma “onda rosa”, alicerçada na esperança de uma mudança profunda nas estruturas políticas, econômicas e sociais que se expressou por meio do voto popular na urnas nos últimos anos.

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Essa esperança foi depositada nos governos atuais da Argentina (2019), Bolívia (2020), Peru (2021), Chile (2022), Colômbia (2022) e Brasil (2022) e tem repercutido em importantes mudanças retóricas dos governos da sub-região, que passaram a defender abertamente a retomada de uma maior e mais profunda cooperação. Ademais, nota-se a defesa de agendas que estavam em segundo plano nos últimos anos, como de mudança climática, combate à fome e políticas sociais.

Enquanto a aproximação ideológica das lideranças progressistas sul-americanas (“nova” e “velha” esquerda) repercute na intenção de promover uma região mais integrada do ponto de vista político e econômico, os desafios que se impõem não são simples de contornar. Assim, mesmo que existam expectativas de uma retomada do protagonismo da América do Sul no cenário internacional, a região está diante de uma realidade completamente distinta daquela dos anos 2000 e a “onda rosa” tem novos contornos e lideranças, que enfrentam a nível doméstico e externo uma série de pressões.

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A esse respeito, a América do Sul não experimenta o “boom”das commodities dos anos 2000, a pandemia de Covid-19 aprofundou desigualdades econômicas e sociais com efeitos nefastos nas diferentes sociedades sul-americanas, o desemprego está em níveis elevados em diversos países, a inflação corrói o poder de compra, manifestações populares em prol de demandas sociais ocorrem com mais frequência, forças de extrema-direita desestabilizam a política nacional e a sub-região, além de que os governos enfrentam os mais complexos desafios na elaboração e gestão de políticas públicas na área de saúde, educação, direitos trabalhistas, meio ambiente, direitos humanos, entre outras.

Certamente, não são tempos fáceis na América do Sul e, em que pese as propostas de transformações políticas das novas lideranças, no curto e médio prazo elas precisam se preocupar com a sua capacidade de governar e com a construção de alianças que garantam a estabilidade política e institucional necessária à consecução de seus programas.

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Por exemplo, ao ascender à presidência em 2022, Gabriel Boric no Chile tinha a nova Constituição nacional como um de seus pilares, porém as mudanças na constituição foram rejeitadas em plebiscito popular por ampla margem. No Peru, os desafios da ascensão da centro-esquerda são visíveis com a atual instabilidade política que assola o país desde dezembro de 2022 após a destituição de Pedro Castillo da Presidência, com protestos violentos que já somam mais de 50 mortos e discussões sobre a convocação de novas eleições se tornando tema central da vida política peruana.

Situação complexa também vivenciou o Brasil após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, quando em 8 de janeiro manifestações violentas, antidemocráticas e golpistas ocorreram na capital federal contra o resultado das eleições presidenciais, resultando na destruição de patrimônio público e em um atentado à democracia brasileira.

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O desafio da governabilidade, portanto, se impõe com urgência, sendo o primeiro passo necessário das gestões da centro-esquerda, que precisarão investir para dar um novo contorno às relações entre o Estado e a sociedade.

Mesmo diante dos desafios, nota-se uma sintonia dos representantes da esquerda no que tange à intenção da reconstrução de uma política regional integrada e cooperativa, retirando a América do Sul da inércia observada nos últimos anos onde houve predomínio da “onda conservadora”. Os discursos de posse de Boric, no Chile, e de Gustavo Petro, na Colômbia, em 2022, apresentavam a união da América do Sul como um elemento central. Não foi diferente nos discursos do presidente Lula no Planalto e no Congresso em 1º de janeiro deste ano, quando de forma explícita argumentou que o protagonismo brasileiro “se concretizará pela retomada da integração sul-americana, a partir do Mercosul, da revitalização da Unasul e demais instâncias de articulação soberana da região”.

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Assim, a expectativa é que em paralelo à busca doméstica deste governos por garantir governabilidade e estabilidade, as lideranças de centro-esquerda que emergiram na repaginada “onda rosa” sul-americana invistam ao longo deste ano em iniciativas diversas de cooperação, que perpassam desde a reconstrução de instituições regionais a construção de alianças em fóruns internacionais e acordos de cooperação em temas diversos, com destaque para meio ambiente e mudança climática, tema caro a países da região amazônica como Colômbia e Brasil. Novos tempos virão.


*Fernanda Nanci Gonçalves é colunista da Interesse Nacional. É professora e coordenadora do curso de relações internacionais do Unilasalle-RJ, pesquisadora do NEAAPE (Iesp-Uerj) e colaboradora do OPSA (Iesp-Uerj).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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