Guerra de tarifas – Brasil teria mais a perder que os Estados Unidos
Desde 22 de julho, boa parte dos produtos brasileiros que chegam aos Estados Unidos passou a pagar uma tarifa extra de 25%. A lista de exceções acabou maior do que muitos esperavam, com prazos de entrada em vigor bem definidos. Café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, aviões, couros, produtos de madeira e remédios ficaram […]

Desde 22 de julho, boa parte dos produtos brasileiros que chegam aos Estados Unidos passou a pagar uma tarifa extra de 25%. A lista de exceções acabou maior do que muitos esperavam, com prazos de entrada em vigor bem definidos. Café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, aviões, couros, produtos de madeira e remédios ficaram de fora, num episódio que ganhou ampla repercussão internacional.
Essa tarifa não nasceu do nada. Ela é o terceiro round de uma verdadeira “novela” jurídica. Depois que a Suprema Corte americana barrou tarifas anteriores, Washington recorreu a outra base legal, desta vez ligada ao trabalho forçado, tema muito sério e preocupante, e já exposto em diversos estudos sobre geoeconomia.
No caso que nos afeta, a tarifa média efetiva sobre o Brasil chegou perto de 19%, número que, de fato, circulou tanto na imprensa americana quanto em análises independentes que não hesitaram em chamar o episódio de “presente eleitoral” para Lula.
Amplo impacto
Na prática, o impacto alcança diversos setores e famílias. Madeira, móveis, calçados, máquinas, equipamentos elétricos, cerâmica e açúcar concentram muitos empregos. Estudos sobre a estrutura produtiva do país ajudam a entender por que esses setores são tão sensíveis a choques externos.
Diante do evidente risco, o vice-presidente Geraldo Alckmin resumiu o grande dilema diplomático brasileiro: aplicar o “olho por olho, dente por dente” (a lógica da reciprocidade) pode cegar ambos os lados. E é evidente que o Brasil teria muito mais a perder que os Estados Unidos.
Poucos dias depois, uma nova sobretaxa, incidindo agora sobre um campo convergente, o das supostas falhas no combate ao trabalho forçado, passou a valer para 60 países, incluindo o Brasil, com alíquotas variáveis segundo o país. O governo brasileiro reagiu de imediato – chamando a medida de arbitrária – e Lula da Silva prometeu uma enérgica resposta à imposição.
Quando as duas tarifas se somam, a conta chega a 37,5% sobre um mesmo produto, atingindo cerca de 16,5% de tudo que o Brasil vende aos Estados Unidos. No total, as duas medidas afetam algo em torno de 23% das exportações brasileiras, enquanto mais da metade do comércio bilateral segue livre de qualquer tarifa adicional.
Opção pela cautela diplomática
Diante disso, o governo brasileiro decidiu recorrer à Organização Mundial do Comércio, formalizando um pedido de consultas contra os Estados Unidos. Esse tipo de resposta institucional tem raízes profundas na tradição diplomática brasileira. Enquanto isso, a lei de reciprocidade, que permitiria tarifas equivalentes contra produtos norte-americanos, segue guardada, sem previsão de uso antes das eleições de outubro.
Lula reforçou essa postura num artigo recentemente publicado, chamando as tarifas de “erro estratégico”. O governo também ampliou um programa de crédito para empresas afetadas, combinação de diplomacia e apoio financeiro que alguns autores já analisam como parte integrante da nova geoeconomia.
No fundo, essa cautela reflete duas lógicas que se cruzam: uma geopolítica, sobre quem impõe regras, e outra geoeconômica, que usa tarifas e sistemas de pagamento como armas. Vale lembrar que os Estados Unidos já não são o principal comprador dos produtos brasileiros: essa posição pertence à China há anos.
Com relação ao último ponto – o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, alvo direto da irritação dos EUA – temos algo que comentar. Como se sabe, para o governo brasileiro, mexer nesse sistema está fora de cogitação. Tudo isso ocorre a poucos meses de uma eleição decisiva, e uma pesquisa amplamente divulgada mostrou que mais da metade dos brasileiros associa o tarifaço à visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington, episódio ligado ao processo que levou seu pai, Jair Bolsonaro, a uma condenação por tentativa de golpe de Estado.
Para os leitores curiosos, o quadro pode ser acompanhado tanto nas páginas oficiais do governo americano quanto nas atualizações do governo brasileiro. A lição que fica é simples: responder tarifa com tarifa pode encarecer preços em casa e isolar quem revida. Calcular o prejuízo real, proteger quem produz, defender ativos estratégicos como o sistema de pagamentos nacional e recorrer aos foros internacionais parece o caminho mais seguro. O teste será saber se essa cautela continua sendo estratégia, ou se vira silêncio diante da próxima pressão.
Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR – Universidad Internacional de La Rioja
This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional