10 janeiro 2023

iii-Brasil: Ataques a Brasília prejudicam a imagem do país na imprensa internacional

Primeira semana do ano é marcada pela grande visibilidade dos ataques golpistas em Brasília, que pioram a reputação internacional do país e reforçam a percepção instável sobre as fragilidades democráticas após onda de otimismo causada pela eleição de Lula

Primeira semana do ano é marcada pela grande visibilidade dos ataques golpistas em Brasília, que pioram a reputação internacional do país e reforçam a percepção instável sobre as fragilidades democráticas após onda de otimismo causada pela eleição de Lula

Por Daniel Buarque e Fabiana Mariutti*

iii-Brasil – e 2 a 8 de janeiro de 2023

Visibilidade: 131 reportagens em 7 veículos analisados

Classificação das notícias:

42% Neutras

32% Negativas

26% Positivas

Os ataques violentos e golpistas à sede dos três poderes da República em Brasília, no domingo (dia 8), interromperam uma onda de projeção positiva da imagem internacional do Brasil iniciada desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais do ano passado. Ameaças à democracia e atos agressivos têm tido ampla exposição na imprensa internacional, revelando ao mundo uma situação problemática da política brasileira. 

No total, foram registrados na semana 131 textos com menção ao Brasil nos sete veículos analisados. Esta foi a quarta semana com maior volume de publicações sobre o país desde o início do levantamento do Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil), em abril de 2022. Apesar da grande visibilidade dos atos antidemocráticos, a maior parte dos textos sobre o país na última semana tinha tom neutro (42%). Além disso, o período desta semana registrou ainda 32% de menções negativas e 26% de textos com tom positivo.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/entenda-como-funciona-o-indice-de-interesse-internacional-monitoramento-de-noticias-sobre-o-brasil-no-exterior/

Imagens da destruição em Brasília estamparam a capa do jornal americano The New York Times, por exemplo, que publicou somente no domingo sete matérias de tom negativo sobre o ataque golpista às instituições da República brasileira. Para o NYT, o caso se assemelha a uma versão brasileira da insurreição registrada em Washington, DC dois anos antes. O jornal americano também publicou um perfil do ex-presidente, criticando Bolsonaro por atacar as normas políticas após sua eleição em 2018 e por ter uma postura autoritária e antidemocrática.

O impacto do ataque a Brasília no relatório semanal sobre a imagem do Brasil não foi pior por uma questão temporal. O levantamento apresentado desta semana considera apenas as notícias publicadas até o domingo, e portanto não houve tempo hábil suficiente para as edições da Europa e Ásia publicarem todas as suas reportagens sobre o caso. Ao longo desta segunda-feira (9), publicações internacionais continuam acompanhando de perto o desenrolar dos atos preocupantes de domingo, o que deve manter a imagem negativa do país nos próximos relatórios.

No total, os sete veículos analisados pelo iii-Brasil publicaram até o fim do domingo 36 matérias sobre os ataques em Brasília, o equivalente a 27% de todas as reportagens coletadas pelo levantamento durante a semana. Após o fim do dia e até o meio dia de segunda-feira (9), os mesmos sete veículos já haviam publicado outras 42 reportagens sobre o caso – essas devem ser coletadas e analisadas no índice da próxima semana.

O jornal britânico The Guardian, por exemplo, publicou no domingo apenas duas reportagens sobre a invasão dos Três Poderes. Essas duas foram contabilizadas aqui como negativas. Mas na manhã de segunda-feira (9), o jornal já havia publicado outras oito reportagens críticas sobre a destruição em Brasília. O mesmo ocorreu com o francês Le Monde, que publicou apenas um texto no domingo e outras sete reportagens sobre o ataque na manhã de segunda-feira, incluindo um editorial crítico às ameaças à democracia no país. Com o fuso horário bem mais adiantado, o China Daily não teve tempo hábil de publicar nenhum texto no domingo sobre as invasões, mas teve quatro publicados na manhã de segunda.

De forma similar, no argentino Clarín, seis textos abordam o ataque à democracia no Brasil são publicados no domingo e oito na segunda-feira. Um deles comenta sobre a invasão (semelhante) com a ocorrida no Capitólio nos Estados Unidos, quando o Trump perdeu as eleiçoes presidenciais. Outro texto prioriza o silêncio de Bolsonaro perante os atos desumanos com estragos imensuráveis à sociedade brasileira. 

Já o espanhol El País, conseguiu divulgar dez textos no domingo e cinco hoje até meio dia da segunda-feira (dia 09). Cenas de terror das imagens juntos aos textos demonstram a gravidade dos atos antidemocráticos e reforçam sobre a união de presidentes internacionais quanto ao repúdio do ataque de extremistas de direita. O jornal português o Público conta com dez notícias publicadas no domingo dez também na segunda-feira, em que imagens mostram golpistas invadindo espaços públicos na capital nacional. Outro texto afirma que são Bolsonaristas desorientados em ação golpista.  Na contramão, no início da semana,vários textos –  congratulando Lula e apoiando suas iniciativas na política ambiental –  prevalecem na linha editorial diária das notícias comunicadas em Portugal. 

Além dos ataques a Brasília, a semana incluiu ainda uma continuação de reportagens sobre a morte de Pelé e a posse de Lula, temas que foram responsáveis pelo aumento da visibilidade do país na virada do ano. 

A publicação de muitas reportagens sobre o enterro de Pelé. Ao contrário das homenagens prestadas pela imprensa internacional na morte do “rei”, esses textos tiveram tom muito mais factual e neutro, descrevendo o funeral e as últimas homenagens na cidade de Santos.

Apesar da visibilidade negativa por conta dos ataques em Brasília, a imagem do Brasil teve um dos seus melhores momentos no China Daily. Por conta da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, o jornal chinês publicou várias reportagens sobre a possível retomada de laços positivos entre a China e o Brasil, superando as tensões registradas durante o governo de Bolsonaro. No total, o jornal chinês publicou 11 reportagens com destaque para o Brasil, sendo sete com tom positivo. 

Retrospectiva 

Desde o início de abril de 2022, o iii-Brasil coletou e analisou em média 69 reportagens por semana com menções de destaque ao país nos sete veículos de imprensa analisados. 

Ao longo do levantamento das últimas 40 semanas, o iii-Brasil registrou em média 50% de reportagens de tom neutro, 35% de menções com tom negativo e 15% de textos positivos sobre o país. 

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*Daniel Buarque é editor-executivo do Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).

Fabiana Mariutti atua como pesquisadora, professora universitária, e consultora; obteve pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração e bacharel em Comunicação Social. Estuda a imagem, reputação e marca Brasil desde 2010. Autora dos livros: “Country Reputation: The Case of Brazil in the United Kingdom: Four Stakeholders’ Perspectives on Brazil’s Brand Image(2017) e Country Brand Identity: Communication of the Brazil Brand in the United States of America (2013).


O Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil) é uma análise da imagem do país realizada a partir de um levantamento sistemático de dados sobre notícias que mencionam o Brasil a cada semana em sete publicações internacionais, selecionadas como representativas da imprensa internacional por serem reconhecidas internacionalmente como “newspapers of record”. São elas: The Guardian (Reino Unido), The New York Times (Estados Unidos), El País (Espanha), Le Monde (França), Clarín (Argentina), Público (Portugal) e China Daily (China).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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