19 junho 2026

Investimento e produção de empresas brasileiras no Paraguai

A Lei de Maquila criada em 2007, que prevê baixos impostos para empresas estrangeiras que se instalem no Paraguai, tem sido utilizada de maneira por empresas brasileiras, afetadas pelos crescentes custos de produção, em especial pela alta taxa de juros, pelos impostos e pelo alto custo da energia. Além da Lei de Maquila, o Paraguai […]

Foto: Governo do Paraguai

A Lei de Maquila criada em 2007, que prevê baixos impostos para empresas estrangeiras que se instalem no Paraguai, tem sido utilizada de maneira por empresas brasileiras, afetadas pelos crescentes custos de produção, em especial pela alta taxa de juros, pelos impostos e pelo alto custo da energia. Além da Lei de Maquila, o Paraguai aprovou legislação regulando Zonas Francas que também atraem investimentos externos pelas vantagens tributárias.

Essa política consistente de atração de investimentos está na base do crescimento sustentado paraguaio e pelas condições mais favoráveis no tocante aos custos de produção muito mais favoráveis, quando comparados com os do Brasil. 

Segundo a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai as empresas se beneficiam de custos competitivos (salários e carga tributária menores do que no Brasil), energia abundante (matriz limpa e custos mais baixos), incentivos fiscais (maquila e zonas francas), tipo de câmbio (guarani apreciado torna mais barata a expansão em dólares), diferencial de taxas (TPM 5,5% contra Selic de 14,25% – custo financeiro), acesso regional (plataforma para Mercosul, União Europeia, Singapura, Canadá).

‘Segundo dados do Ministério da Indústria paraguaio, foram aprovados 362 programas para empresas brasileiras se transferiram para o país vizinho sob o regime de maquilas’

Segundo dados do Ministério da Indústria paraguaio, foram aprovados 362 programas para empresas brasileiras se transferiram para o país vizinho sob o regime de maquilas. As maquiladoras – empresas brasileiras instaladas no Paraguai – gozam de um regime muito favorável com impostos e encargos trabalhistas em média de 12% comparado com cerca de 80% no Brasil. 

As empresas pagam só 1% sobre o valor agregado, ou seja, sobre aquilo que foi adicionado em cada etapa da produção ou comercialização de um produto ou serviço. Maquiladoras têm ainda isenção de imposto de renda sobre o pagamento de dividendos, na compra de máquinas e na importação de matéria-prima. 

Outro aspecto em que o sistema paraguaio é muito mais favorável às empresas do que no Brasil é o custo da mão de obra.  Apesar de o salário-mínimo ser maior do que o do Brasil, outros custos (férias, inexistência de FGTS, regime de trabalho) são muito menores no Paraguai. A aprovação da escala 6×1 deverá acarretar nova onde de transferência de empresas brasileiras para o Paraguai.

‘As zonas francas oferecem incentivos que atraem investimentos em turismo, mercado financeiro e indústria’

As zonas francas oferecem incentivos que atraem investimentos em turismo, mercado financeiro e indústria. Na última década, grandes empresas brasileiras iniciaram ou retomaram a produção no Paraguai, como a Lupo, Estrela, M.Dias Branco, Riachuelo.

Segundo dados publicados pelo Poder 360, em ampla matéria sobre a industrialização do Paraguai e as razões para o crescimento do país, grandes empresas brasileiras e multinacionais transferiram parte de sua produção para o Paraguai. 

Mais de US$ 182 milhões (perto de R$ 1 bilhão) foram investidos no Paraguai por 6 empresas de origem brasileira de 2025 a 2026: JBS: US$ 70 milhões; Karsten: US$ 40 milhões; Lupo: US$ 30 milhões; Kidy: US$ 30 milhões; Efisa: US$ 9 milhões; Fiasul: US$ 3 milhões.  

‘Multinacionais com grandes operações no Brasil transferiram parte da produção para o Paraguai’

Multinacionais com grandes operações no Brasil transferiram parte da produção para o Paraguai. É o caso da japonesa Yazaki, a sul-coreana TNT Auto Parts e a alemã Kromberg & Schubert. A suíça Nestlé tem forte operação no Brasil e decidiu mudar para o Paraguai sua área de suporte administrativo. 

A Câmara de Comércio Brasil-Paraguai informa que a exportações das maquiladoras em 2025 foi de U$ 371 millhões (crescimento de 28% em relação ao ano anterior dos quais 64% exportado para o Brasil, sendo mais dinâmicos os setores de auto pecas, produtos alimentícios confecções e têxteis, eletrônicos, plásticos).

Para se ter uma ideia do impacto sobre o Brasil dessa movimentação de empresas para o Paraguai, a exportação das 10 maiores maquiladoras subiu a US$ 1,3 bilhão em 2025, segundo informações oficiais do país vizinho. Como membro do Mercosul, os produtos exportados para o Brasil não têm tarifas, o que representa um duplo ganho para as empresas que se instalarem no Paraguai: custo de produção muito mais reduzido e zero de tarifa para ingressar no Brasil.

O número de empresas brasileiras que está se transferindo para o Paraguai deve ser provavelmente maior do que o anunciado pela instituição paraguaia. A principal razão é a sobrevivência delas em muitos estados, não só nos principais estados industrializados. Pará e Santa Catarina também tiveram empresas emigradas no todo ou em parte para o Paraguai. 

‘Em paralelo ao crescimento industrial do Paraguai, o capital brasileiro está também presente no agronegócio’

Em paralelo ao crescimento industrial do Paraguai, o capital brasileiro está também presente no agronegócio. Com a participação de brasileiros trabalhando no agronegócio paraguaio, o país se tornou grande produtor de soja, trigo, milho e outros produtos agrícolas, exportados para o Brasil, como o trigo, que reforçam a política de crescimento da economia paraguaia.

O custo reduzido da energia despertou o interesse dos EUA. 

Segundo declarações de Marco Rubio, os EUA examinam comprar a energia gerada por Itaipu não consumida pelo Paraguai e hoje vendida ao Brasil para dois data centers de empresas norte-americanas, com investimentos de quase US$ 80 bilhões. 

Caso esses empreendimentos se materializem em competição com projetos brasileiros de data centers, o Brasil não poderá continuar a comprar o excedente de energia do Paraguai. Sem poder utilizar toda a energia hoje vendida ao Brasil, poderá haver a necessidade de ampliação da geração do conjunto Yaciretá-Itaipu para o país vizinho a fim de evitar uma crise energética, dado o alto consumo dos data centers.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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