22 abril 2026

It’s the bomb, stupid

Entre a escalada militar liderada por Donald Trump, o impasse sobre o programa nuclear iraniano e as rivalidades históricas do Oriente Médio, expõem-se os limites de soluções baseadas na força e os riscos de uma desestabilização global, em meio às contradições estratégicas de atores como J. D. Vance e Benjamin Netanyahu

Foto: Departamento de Guerra dos EUA

Como estamos acompanhando, após horas de negociações na reunião patrocinada pelo Paquistão, em Islamabad, americanos e iranianos não chegaram a um acordo de cessar-fogo na guerra que travam entre si desde que os americanos atacaram o Irã, no dia 28/02, e romperam as negociações que estavam ocorrendo entre eles.

O vice-presidente J.D. Vance, que liderou a delegação dos EUA, retornou aos EUA declarando que os iranianos não aceitaram os termos dos americanos. Esta sessão de diálogo foi o encontro presencial de mais alto nível entre autoridades americanas e iranianas desde 1978, quando os aiatolás assumiram o poder em Teerã.

‘Para quem iniciou a guerra convicto de uma vitória imediata, trata-se de um resultado pífio, e certamente degradante para o ego de Donald Trump’

Ora, para quem iniciou a guerra convicto de uma vitória imediata, trata-se de um resultado pífio, e certamente degradante para o ego de Donald Trump. Afinal, esta luta entre Golias e Davi não foi como na Venezuela. Estaria se repetindo o episódio bíblico? De acréscimo, ainda não se cumpriu a sua ameaça de que “uma civilização inteira morrerá no Irã caso o regime não atenda ao ultimato, que envolve a reabertura do Estreito de Ormuz”.

Ipso facto, teve início às 11h de 13/04, o bloqueio anunciado por Donald Trump. O Comando Central dos EUA disse que este bloqueio se aplica a embarcações de quaisquer bandeiras com destino ao Irã, ou saindo do país.

“Efetivamente, de imediato, a Marinha dos Estados Unidos, a melhor do mundo, começará o processo de bloqueio de quaisquer navios tentando entrar ou sair do Estreito de Ormuz”, escreveu Trump na sua rede social.

‘O ponto de inflexão das negociações foi, segundo Vance, o programa nuclear iraniano’

O ponto de inflexão das negociações foi, segundo Vance, o programa nuclear iraniano. Como afirmou na saída da reunião frustrada, “… fato é que precisamos ter um compromisso afirmativo de que eles não buscarão uma arma nuclear e não buscarão as ferramentas que lhes permitiriam obter rapidamente uma arma nuclear”.

Segundo Trump, “há apenas uma coisa que importa: o Irã não está disposto a abrir mão de suas ambições nucleares”, escreveu. “Todos esses pontos acordados não importam se comparados a permitir que o poder nuclear fique nas mãos de pessoas tão voláteis, difíceis e imprevisíveis”

Ele voltou a afirmar a posição que mantém desde o início: “o Irã jamais terá uma arma nuclear!”

O aliado primeiro-ministro de Israel, Benyamin Netanyahu, que instigou todo o processo, declarou apoio ao bloqueio naval dos Estados Unidos, como sabemos. Durante reunião do seu governo, ele disse que “o Irã violou as normas das negociações no Paquistão”, no que concluiu que “nós apoiamos, é claro, a postura firme e estamos em constante coordenação com os Estados Unidos”.

‘Nesta guerra de retóricas, é preciso separar o “joio” das ideias preconcebidas e dogmáticas, do “trigo” das realidades’

Nesta guerra de retóricas, é preciso separar o “joio” das ideias preconcebidas e dogmáticas, do “trigo” das realidades. O buraco, a meu ver, é muito mais embaixo. Por isto, arrisco-me a contextualizar alguns temas envolvidos, ainda que correndo o risco de provocar reações contraditórias dos amigos mais empenhados. Mas muito é fruto da minha vivência em seis países muçulmanos.

Senão vejamos:

1. Tomemos o mapa da região e anotemos quais são os países da vizinhança do Irã que detêm armas nucleares, declaradas – ou não – no Tratado de Não-Proliferação Nuclear/TNP:

1) a ÍNDIA, desde 1974; 2) o Paquistão, desde 2025: Índia e Paquistão detêm o 6º e 7º maiores arsenais do mundo, respectivamente; 3) a Rússia possui o maior arsenal nuclear do planeta, com cerca de 5.580 ogivas, superando os Estados Unidos, segundo dados da Federação de Cientistas Americanos; 4) a CHINA, está expandindo rapidamente seu estoque nuclear, com estimativas atuais superiores a 500-600 ogivas ativas, posicionando-se como uma das potências nucleares de crescimento mais rápido; 5) ISRAEL: estima-se que o pais possua cerca de 90 ogivas nucleares, mantendo uma política de “ambiguidade nuclear”, em que não confirma e nem nega oficialmente seu arsenal. Desenvolvido entre as décadas de 1950 e 1960, este programa inclui mísseis, submarinos e aeronaves capazes de lançar tais armas, sendo o único país do Oriente Médio com tal capacidade; e 6) um pouco mais distante, a COREIA DO NORTE persegue desobstruída sua política nuclear!

‘A região tem, a meu ver, tudo, menos a estabilidade necessária para o país abdicar inteiramente da sua política nuclear nos padrões que exigem os americanos’

Ou seja, será que os iranianos podem abdicar do direito de se defender neste universo tão instável, sobretudo com Israel vizinho tão militante? A região tem, a meu ver, tudo, menos a estabilidade necessária para o país abdicar inteiramente da sua política nuclear nos padrões que exigem os americanos!

Recordemos, a propósito, que os iranianos haviam firmado, em 2015, com o governo Obama um acordo que tinha como objetivo reduzir a capacidade nuclear do Irã e evitar a produção da bomba atômica; em troca, países que impunham sanções econômicas suspenderiam as restrições financeiras e comerciais. Donald Trump denunciou o acordo no seu primeiro mandato e voltou a criticá-lo agora;

2. A rivalidade ancestral xiita X sunita:

Este cisma, que perdura desde a morte do profeta Maomé, quando se definiu a sua sucessão político-religiosa, é fundamental para se entender o jogo de poder intraconfessional: muito do que aconteceu ao longo da história no mundo islâmico, e que escapa a uma avaliação criteriosa dos que não compartilham da fé muçulmana, tem a ver com esta rivalidade.

Na corrente sunita, que coloca a liderança do poder nas mãos da comunidade, está a maioria absoluta dos países islâmicos (85% a 90% da população). Os xiitas (cerca de 10-20% dos muçulmanos), por sua vez, defendem que a liderança legítima de Maomé deveria ter permanecido na sua família: o poder reside, portanto, nas mãos dos aiatolás. Eles são absoluta minoria; porém, geograficamente se concentram no Irã (90/95%), Iraque (55%/60%), Bahrein e Azerbaijão.

Ora, se pesquisarmos quais são os países islâmicos que prestam apoio aos americanos nesta guerra, verificaremos que são todos sunitas! Ou seja, a questão intraconfessional é – sim – definitória!

Em resumo, será que os xiitas iranianos poderiam contar, em última instância, com seus irmãos de fé, que lhes são historicamente hostis, malgrado a retórica da irmandade em Allah? É o que estamos vendo agora.

‘Até as manifestações que eram cada vez mais intensas contra o regime dos aiatolás cederam espaço para a “resistência patriótica”‘

Resultado: até as manifestações que eram cada vez mais intensas contra o regime dos aiatolás cederam espaço para a “resistência patriótica”, em que mesmo as mulheres, principais alvos do regime, foram às ruas com os seus véus e bandeiras com imagens dos seus líderes religiosos. Tal é o poder do espírito de Nação, sobretudo em se tratando de uma das civilizações mais antigas do planeta.

Em suma, em um ambiente regional tão complexo há muito mais a analisar. Todas estas questões escapam, a meu ver, da visão simplista e autocentrada que os líderes americanos contemporâneos têm das múltiplas realidades político-civilizacionais do planeta e lhes levam a reduzir o que é complexo e a buscar impor pelo poderio militar e econômico valores que não são compatíveis com os de outras sociedades.

As tragédias que decorrem desta miltância obscurantista matam indivíduos e dizimam populações que nada têm a ver com este dogmatismo, sobretudo neste momento em que outras hegemonias – China, Índia, Rússia – despontam no horizonte.

Pronto, falei. Politicamente incorreto?

TRÁGICO!!!

Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Tags:

EUA 🞌 Geopolítica 🞌 Guerra 🞌 Irã 🞌

Cadastre-se para receber nossa Newsletter