11 junho 2026

Lentidão na contagem de votos no Peru testa os limites da democracia eleitoral

Há algo revelador no fato de o Peru ter realizado o segundo turno de sua eleição presidencial no domingo e, até hoje (quarta-feira 10), não saber quem é o candidato vitorioso. Não houve catástrofe natural, falha de segurança, nem crise diplomática que explique o silêncio das urnas. O que há é um sistema eleitoral que […]

Há algo revelador no fato de o Peru ter realizado o segundo turno de sua eleição presidencial no domingo e, até hoje (quarta-feira 10), não saber quem é o candidato vitorioso. Não houve catástrofe natural, falha de segurança, nem crise diplomática que explique o silêncio das urnas.

O que há é um sistema eleitoral que segue operando no século XX enquanto o mundo exige respostas em tempo real. A ausência de transmissão digital de resultados — falha identificada pela OEA e pelo Parlamento Europeu em seus relatórios preliminares desta semana — é um sintoma político: o de um Estado que não reforma o que não lhe convém reformar.

O vácuo informacional está sendo preenchido, como sempre, pela desconfiança. Com 96,6% das urnas apuradas e uma diferença de pouco mais de 20.000 votos entre Roberto Sánchez e Keiko Fujimori, cada hora sem resultado oficial alimenta a suspeita de quem está perdendo — e, nesta eleição, o medo de perder é igualmente intenso nos dois campos.

Quando o presidente da Ipsos Peru, Alfredo Torres, afirmou publicamente que “na maior parte dos cenários, ganha Fujimori”, simpatizantes de Sánchez foram às ruas gritar que o voto popular estava sendo roubado, e o partido Juntos por el Peru formalizou notificação à autoridade eleitoral por suposta infração.

A afirmação pode ter sido tecnicamente imprecisa, mas o efeito foi real: transformou uma projeção estatística em acusação política. Num ambiente onde a legitimidade das instituições já é frágil, não é preciso que haja fraude — basta que pareça possível.

O que torna este momento singular não é a rivalidade entre esquerda e direita, que o Peru conhece há décadas. É a geografia dessa divisão. Segundo os resultados oficiais da ONPE, Chumbivilcas, na região de Cusco, a 3.660 metros de altitude, com pobreza extrema acima de 54% em certas zonas, deu a Sánchez 94% dos votos. San Isidro, o distrito mais rico de Lima, deu a Fujimori 84%. Mil quilômetros e um abismo de expectativas separam esses dois resultados.

País é um ‘arquipélago conectado’ de interesses distintos

O Peru é, de certo modo, um “arquipélago conectado” — territórios com interesses e horizontes distintos que convivem sob um mesmo Estado sem que nenhum governo tenha conseguido, até hoje, traduzir essa heterogeneidade em representação política efetiva. Qualquer governo que ignore essa geometria estará administrando apenas a metade do país que o elegeu.

Para o Brasil e para a América do Sul, a lição peruana não é nova, mas está sendo reaprendida com urgência. O superciclo eleitoral de 2026 na região coincide com um momento em que a desconfiança nos processos eleitorais deixou de ser um fenômeno periférico para se tornar variável central da disputa política.

A demora na apuração é o tipo de fragilidade institucional que partidos e líderes com interesse em deslegitimar resultados exploram sistematicamente, independentemente do país. Como documenta Pippa Norris em Why Elections Fail, sistemas eleitorais que não garantem transparência procedimental em tempo útil corroem a confiança democrática mesmo quando os resultados são tecnicamente corretos. Esse é precisamente o risco que o Peru enfrenta agora.

A governabilidade do próximo presidente peruano, seja ele quem for, começará comprometida antes de qualquer posse. Se Sánchez vencer, enfrentará um Congresso dominado por Fuerza Popular, que já demonstrou vocação para derrubar governos que lhe desagradam — foram três presidentes destituídos em cinco anos com base na vaga figura da “incapacidade moral permanente”, figura que a literatura acadêmica identifica como sistematicamente instrumentalizado para fins políticos. Se Fujimori vencer, herdará a rejeição acumulada de três campanhas anteriores e de uma base antifujimorista que, como demonstrou esta semana, sabe se mobilizar rapidamente.

A crise eleitoral peruana de 2026 não é sobre Sánchez nem sobre Fujimori. É sobre o que acontece quando um sistema político não consegue produzir legitimidade suficiente para que qualquer resultado seja aceito como definitivo.

A ciência política denomina esse fenômeno “déficit de legitimidade procedimental” — e seus efeitos, como demonstra a literatura comparada sobre democracias fraturadas, não se limitam ao país que o padece: contaminam a percepção regional sobre a viabilidade da alternância democrática como mecanismo de resolução de conflitos. Nesse ponto, o Peru não é uma exceção latino-americana. É seu espelho mais nítido.


Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR – Universidad Internacional de La Rioja

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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