NOVO! Programa INTERESSE NACIONAL na Rádio MYNEWSVIPFM - 90.9 às sextas-feiras, 8h30 da manhã. Clique aqui para saber mais ou acesse a rádio aqui.

14 agosto 2026

Manifesto dos clubes militares em 2026

Apesar das resistências em alguns setores minoritários, as Forças Armadas dão sinais evidentes de que viraram a página da história do Brasil

Atos golpistas de 8 de janeiro. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No dia 3 de agosto, foi dada publicidade a uma manifestação pública de natureza política dos presidentes dos três clubes militares sobre os riscos que a nação corre. 

“A leniência com a corrupção, a tolerância com o crime e o descaso com a gestão da coisa pública contribuíram para levar o país a um cenário de crescente falência moral, institucional e econômica”. “Em um momento de elevada sensibilidade da economia mundial, a opção por criar ruídos diplomáticos desnecessários, adotar críticas personalistas, antecipar o debate eleitoral e promover desalinhamentos políticos com importantes países, acabou comprometendo relações bilaterais construídas ao longo de mais de dois séculos de cooperação”. “Nesse momento decisivo da vida nacional, parece pouco provável que soluções consistentes surjam em um ambiente político marcado por sucessivas crises, Por isso, conscientes de suas responsabilidades, de seu papel histórico e de sua tradição, os Clubes Naval, Militar e da Aeronáutica conclamam os brasileiros a refletirem sobre os grandes desafios do país com discernimento, lucidez, conhecimento e espírito público”. “Refletindo o inconformismo com a situação interna do país com a estagnação, o atraso, a corrupção, o crime, proclamam a necessidade de uma reação cívica capaz de reverter a situação em que o Brasil se encontra”.

Depois de 14 intervenções militares na política brasileira, desde a deposição do imperador Pedro II em 1889, até o golpe de estado de 1964, pela primeira vez, os articuladores e líderes desses movimentos contrários à democracia, em 2022, foram indiciados, julgados e condenados. 

‘A prisão de militares de alta patente marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil’

A anistia, sempre concedida a todos os participantes das insurreições anteriores, pela primeira vez, não foi aplicada, pelo menos, até aqui. A prisão de militares de alta patente, inclusive de um ex-presidente, ministro da Defesa e comandantes das forças singulares, marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil. 

Foram 27 militares que participaram de uma tentativa de golpe, de acordo com a decisão do STF, todos tornados réus e condenados. Como consequência das prisões, o STM julgará se todos os oficiais e o presidente perderão seus postos e patentes por serem considerados indignos do oficialato ou com ele incompatível. O resultado é incerto e poderá tornar-se controvertido.

A reação da instituição militar sobre o julgamento mostra que houve uma mudança significativa no comportamento das Forças Armadas, comprovado pela atuação fora da política (com poucas exceções individuais) desde 1985, apesar das tentativas de atraí-las para o cenário político no governo anterior. 

E agora, depois do julgamento e do início do cumprimento das penas, não se ouviu, nem se leu qualquer manifestação contra a condenação e as penas impostas aos que tentaram desafiar a democracia e as regras do jogo democrático. Há 41 anos, desde 1985 até hoje, nunca houve um período tão longo na história brasileira, sem uma intervenção dos militares na vida política nacional.

‘A menção no manifesto à necessidade de uma reação cívica para reverter a situação atual deixa implícita a motivação intervencionista desse grupo de militares, saudosistas de um tempo que não voltará mais’

A menção no manifesto de 3 de agosto à necessidade de uma reação cívica para reverter a situação atual deixa implícita a motivação intervencionista desse grupo de militares, saudosistas de um tempo que não voltará mais. Os militares da reserva, acompanhados por uma minoria da ativa, insatisfeita com os rumos dos países, ainda sonham com a possibilidade de uma quebra das regras constitucionais e com uma possível intervenção militar na vida política nacional.

Depois de mais de 130 anos de periódicas interferências dos militares na vida política nacional, seria de surpreender se ainda não houvesse grupos de resistência, em seus amplos quadros, a essa nova postura dos militares que se mantém a distância dos acontecimentos políticos. O saudosismo de uma época que ficou para trás, presente no manifesto dos três Clubes militares, deve ser entendido como natural e compreensível. A reação da opinião pública desta vez, contudo, foi limitada, com pouca ou nenhuma repercussão na mídia e na sociedade civil. Seu efeito político foi praticamente nulo.

A sociedade brasileira acompanhou, nos últimos 41 anos, o papel crescentemente profissional das Forças Armadas, sem qualquer pronunciamento ou manifestação que colocasse em risco a normal relação entre civis e militares ou a estabilidade política do país. As Forças Armadas, como instituição, mudaram, como mudou o Brasil e mudou o mundo. 

Apesar das resistências em alguns setores minoritários, as Forças Armadas dão sinais evidentes de que viraram a página da história do Brasil. 

O passado é passado, como dizia o bardo britânico.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Tags:

Editorial 🞌