18 março 2026

Multipolaridade, Autonomia e Cooperação em Tempos de Cólera

Entre o luto das potências ocidentais e o otimismo do Sul Global, a transição para um mundo multipolar revela mais pluralidade do que declínio: a autonomia ganha força com o não-alinhamento ativo, e a cooperação se reinventa, indicando que o multilateralismo não acabou, apenas se transformou em um cenário mais fragmentado e pragmático.

Foto: Ilustração criada com IA

Vivemos uma espécie de conjuntura crítica que por vezes se parece mais a um novo “mal-estar da civilização”, ou até mesmo a um filme de mal gosto. 

Policrise, Nova Guerra Fria, Fim do Multilateralismo. Os termos pouco animadores abundam, mas a verdade é que há muitas maneiras de pensar e viver as mudanças no cenário internacional. 

Da perplexidade à paralisia passando pelo senso de agência e o empreendedorismo político-normativo. Olhar para o lado é se deparar tanto com pessimistas, céticos, ansiosos, temerosos, como com otimistas, aventureiros e reformistas. 

De um lado, a conversa nos corredores de muitas capitais europeias e para os que frequentam os centros globais da Ordem Liberal (Nova Iorque, Genebra, Bonn, Viena, Davos) a sensação é de desespero. Há quem faça uso do debate de Antonio Gramsci sobre “interregnum” para se referir a períodos “mórbidos” de transição e suas incertezas e instabilidades. Já outros preferem a metáfora dos “5 estágios do luto” (negação, raiva, barganha/negociação, depressão e aceitação) para descrever o estado de ânimo de muitos no mundo político e acadêmico.

De outro, em outros cantos do mundo (e não por acaso, sobretudo no Sul Global) há quem celebre o fim da hegemonia americana, a hora e a vez do mundo Pós-Ocidental e a ruína de sistemas percebidos como injustos e/ou ineficientes (como as Instituições de Bretton Woods ou o sistema de Ajuda ao Desenvolvimento). 

‘Entre o luto e o regozijo, analistas internacionais tentam dar sentido ao que desfila diante dos olhos, e em rápida e assustadora velocidade’

Entre o luto e o regozijo, analistas internacionais tentam dar sentido ao que desfila diante dos olhos, e em rápida e assustadora velocidade. Em Tempos de Cólera, de mitos e narrativas simplistas, três conceitos de Relações Internacionais são especialmente úteis para pensar o lugar de países como o Brasil um mundo em transformação: multipolaridade, autonomia, cooperação.

Multipolaridade

Engana-se quem acha que o mundo pós-Ocidental, ou a multipolaridade, é algo recente ou então um sintoma de um mundo doente e decadente. 

A multipolaridade não emerge nem tampouco pode ser reduzida ao ataque ou retirada populista-nacionalista de norte-americanos e europeus das instituições multilaterais do pós-1945.  

‘Adotando uma perspectiva de mais longo-prazo, percebe-se que a  “retração do Ocidente” é sobretudo a aceleração de um processo em curso há cerca de duas décadas’

Adotando uma perspectiva de mais longo-prazo, percebe-se que a  “retração do Ocidente” é sobretudo a aceleração de um processo em curso há cerca de duas décadas, e sobretudo desde a Crise Financeira de 2008. Um processo que, longe de ser unilateral, é sobretudo relacional. 

Se hoje o centro do capitalismo e da ordem internacional se revolta contra ou se retira de seus próprios construtos multilaterais, há décadas que forças do chamado Sul Global buscam expandir seu poder relativo nestes mesmos espaços, bem como criar outros espaços complementares. Nesse sentido, a narrativa que a multipolaridade é necessariamente “ruim” (ou instável) é uma narrativa centrada na perspectiva daqueles que perdem poder ou espaço cativo em um mundo historicamente dominado pelos Estados Unidos e seus aliados. No entanto, tampouco é prudente afirmar que um mundo multipolar é necessariamente “bom” (ou estável). 

‘Para além das narrativas simplistas, ainda não vivemos o suficiente para afirmar que o mundo multipolar é, ou será, necessariamente mais justo e próspero’

A verdade é que, para além das narrativas simplistas, incluindo as perspectivas mais otimistas acerca dos efeitos “democratizantes” ou “decentralizadores de poder” (bastante frequentes na retórica diplomática de potências emergentes como o Brasil, diga-se de passagem), ainda não vivemos o suficiente para afirmar que o mundo multipolar é, ou será, necessariamente mais justo e próspero. O que sim sabemos é que vivemos em um mundo diferente, um mundo mais plural, onde um número maior de atores têm voz e influencia na arena global.

Autonomia 

Veio do Primeiro-Ministro canadense, no Fórum de Econômico Mundial em Davos deste ano, uma das mais eloquentes (e irônicas) defesa da autonomia nas Relações Internacionais. Falando para uma plateia pouco habituada a este tipo de discurso, Mark Carney reconheceu em Davos um mundo – ou melhor, o seu mundo – em ruínas e repetiu o que já era o óbvio para muitos ao redor do globo: a atual ordem internacional, desigual e hierárquica, é injusta e hipócrita

A ironia é que várias das ideias-chave usadas por Carney são frequentes em discursos e análises que brotam na América Latina, Ásia e África há décadas. 

‘Carney fez em Davos uma interessante defesa do não-alinhamento ativo, uma estratégia já é debatida e praticada na América do Sul há anos’

Tendo ou não lido os teóricos da Dependência e da Escola Latino-Americana de Relações Internacionais, também conhecida como Escola da Autonomia, Carney fez em Davos uma interessante defesa do não-alinhamento ativo, uma estratégia já é debatida e praticada na América do Sul há anos. 

O fato que o governo canadense se sente hoje cada vez mais identificado com o pleito de muitos no Sul Global é sintomático, e talvez promissor para pensarmos novas alianças em um mundo em transformação.  

Cooperação 

Ao afirmar o óbvio, e constatar que o rei está realmente nu, não se trata aqui de negar o efeito desestabilizador e as incertezas de um mundo em rápida transformação. Se o multilateralismo é mesmo uma espécie de “arma dos fracos”, o desafio no atual contexto passa a ser o de  identificar as partes deste multilateralismo que precisam ser preservadas, as que podem ser reformadas e as que devem ser abandonas. 

Entre os que trabalham para o fim das instituições multilaterais e os que se lamentam, há aqueles que redobram suas apostas: a Índia com o The AI Impact Summit, a Colômbia e os Países Baixos com a Conferência paralela ao Acordo de Paris para eliminação dos combustíveis fósseis, o Brasil com a Aliança Global contra a Fome e a tarefa de liderar dois Mapas do Caminho para acelerar a descarbonização mundial ou entã a África do Sul com seus incansáveis esforços para manter o Tribunal Penal Internacional ativo no contexto da Guerra de Gaza. Há também Gana, Barbados, China, África do Sul e Reino Unido com esforços como o Bridgetown Initiative, o Accra Reset, o Belt and Road Initiative, o Global Development Initiative e o Global Partnerships Conference para repensar o Desenvolvimento Internacional, partindo das experiências de países do Sul e forjando novos tipos de parcerias e coalizões. 

‘O mundo não parou.  O multilateralismo não parou’

O mundo não parou.  O multilateralismo não parou. Sim, viveremos tempos de maior pluralismo e fragmentação. Sim, nem todas os protagonistas atuais são democracias liberais e há alianças pouco usuais e até mesmo desconfortáveis. 

Há também muita promessa, muita performance e muita necessidade de projetar-se, ocupando espaços temporariamente vazios ou esvaziados. No entanto, o panorama parece cada vez mais claro e quem decreta o fim da cooperação internacional talvez esteja precisando levantar a cabeça e olhar para os lados.  

Em Tempos de Cólera talvez o mais prudente seja deixar de lado o medo, o cinismo e a hipocrisia excessivos e apostar na cooperação possível, aquela que pragmaticamente busca avançar ação coletiva em um mundo complexo e interdependente. 

Laura Trajber Waisbich é cientista política e diretora-adjunta de programas no Instituto Igarapé. É afiliada ao Skoll Centre, na Said Business School da Universidade de Oxford e foi diretora do Programa de Estudos Brasileiros e professora de estudos latino-americanos na mesma universidade.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Cadastre-se para receber nossa Newsletter