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10 julho 2026

Novo tarifaço dos EUA contra produtos brasileiros

É importante entender corretamente o que está ocorrendo. Não se trata de medida política contra o Brasil, mas a reafirmação da nova política comercial protecionista dos EUA com o objetivo de reduzir o desequilíbrio na balança comercial e arrecadar recursos financeiros com a receita das tarifas. O Brasil será atingido mesmo que mantenha nos últimos anos déficit na balança comercial com os EUA

Foto: Casa Branca

A investigação iniciada pelos EUA no contexto da seção 301 da Lei de Comércio, em julho do ano passado e retomada agora, com o acréscimo de investigação adicional sobre comércio ilegal de trabalho escravo teve novas audiências públicas nos dias 6 e 7 e seus resultados deverão ser anunciados até quarta-feira, 15 de julho.

As tarifas que serão impostas a mais de 70 países substituirão o tarifaço anunciado em abril passado com base na Lei de Emergência Econômica norte-americana, julgada ilegal pela Suprema Corte de Washington.

Trata-se de um jogo de cartas marcadas. Não haverá surpresa com o anúncio de novas tarifas de até 37,5% (25% + 12,5%) para os mais de 70 países que não têm acordo comercial com os EUA.

‘Os argumentos apresentados pelo setor privado, pelo governo e por outros não terão nenhum efeito prático’

Não houve, nem está havendo negociação entre os governos que serão afetados pelas medidas de Trump e o governo norte-americano. Houve é certo conversas em nível técnico entre o Ministério da Indústria e o Itamaraty e o Departamento de Comércio e o USTR. Mas os argumentos apresentados pelo setor privado, pelo governo e por outros não terão nenhum efeito prático, como sabe o Itamaraty que não apresentou verbalmente novos argumentos e se fez representar pela embaixada em Washington apenas como observador, para acompanhar a fala de Flávio Bolsonaro, narrativa para fins de consumo interno.

A apresentação do senador afirmando que “agora seria o pior momento para a imposição das tarifas”, deixa implícito seu apoio a elas e introduz um elemento de política interna na investigação. O pronunciamento foi feito mais como narrativa eleitoral.

Apesar da atuação conjunta de entidades brasileiras e parceiros norte-americanos defendendo a concessão de exclusões tarifárias (café, mel, açúcar, calçados, madeira máquinas, energia, rochas ornamentais, papel e siderurgia), os produtos brasileiros exportados para os EUA deverão receber tarifas altas em substituição aos 40% que entram em vigência sob o regime anterior. É possível que nos na atuação conjunta do setor privado com seus parceiros norte-americanos possa haver alguns produtos incluídos nas exceções ou com tarifas mais baixas para não prejudicar os interesses das empresas dos EUA.

‘Não se trata de medida política contra o Brasil, mas a reafirmação da nova política comercial protecionista dos EUA com o objetivo de reduzir o desequilíbrio na balança comercial’

É importante entender corretamente o que está ocorrendo. Não se trata de medida política contra o Brasil, mas a reafirmação da nova política comercial protecionista dos EUA com o objetivo de reduzir o desequilíbrio na balança comercial e arrecadar recursos financeiros com a receita das tarifas. O Brasil será atingido mesmo que mantenha nos últimos anos déficit na balança comercial com os EUA.

Com esse novo tarifaço, do ponto de vista macroeconômico não haverá efeito maior porque o intercâmbio comercial bilateral está abaixo de 10%, contra 50% com a Ásia. O ônus recairá no setor privado com algumas áreas muito afetadas, como o de peças e autopeças, que não poderão reorientar suas exportações para outros países. 

A diversificação de nossos mercados deverá ser estimulada e, nesse sentido, foi correta a decisão do Mercosul de dar prioridade à negociação de acordos comerciais com países asiáticos, como o Japão, o Vietnã e a Coréia do Sul.

Por outro lado, a exemplo do que estão fazendo todos os países, como especialmente a Índia, a Turquia, a Indonésia, a reação não pode ser ideológica ou radical com medidas retaliatórias contra produtos norte-americanos. 

‘A falta de um canal de comunicação azeitado entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca tem acrescentado à politização e à ideologização do relacionamento diplomático’

A falta de um canal de comunicação azeitado entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, e entre o Itamaraty e o Departamento de Estado, tem acrescentado à politização e à ideologização do relacionamento diplomático (como a afirmação de que os EUA poderiam atacar militarmente o Brasil para combater organizações consideradas terroristas) dificultam conversas políticas que poderiam levar à convergência de interesses entre os dois países.

Uma reação desse tipo poderá agravar ainda mais as tensas relações entre Brasília e Washington em função de posições divergentes no tocante a classificação de organizações criminosas como terroristas, a questão dos minérios estratégicos, a regulamentação das Big Techs, o pix e as acusações contra o ministro Alexandre de Moraes nos tribunais norte-americanos.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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