29 maio 2026

O avanço da Doutrina Monroe na América Latina

A nova estratégia de segurança dos Estados Unidos coloca a América Latina no centro das prioridades de Washington, combinando pressão econômica, diplomática e tecnológica para conter a influência chinesa, combater o crime organizado e ampliar sua influência regional, em um cenário no qual os governos latino-americanos têm reagido sobretudo por meio da negociação e da acomodação

Foto: Casa Branca

A Lei de Segurança Nacional dos EUA, editada em novembro de 2024, pelo governo Trump, inovou em relação às leis anteriores ao colocar a América Latina como principal prioridade de Washington. A ideia central é reafirmar a primazia estratégica norte-americana na América Latina, especialmente diante da influência crescente da China e de redes transnacionais do crime organizado. A defesa do território dos EUA e a contenção da China são os principais objetivos definidos na Lei de Segurança Nacional. 

O governo de Washington está implementando sua política agressiva em relação a América Latina, em paralelo à atuação externa do governo Trump visando a ruptura da ordem internacional, em ações que coloque sempre os EUA em primeiro lugar. A mudança reverte a aliança com a Europa, substituída pela boa vontade em relação à Rússia (em especial na guerra da Ucrânia), com forte presença militar no Oriente Médio, na guerra contra o Irã e na definição de um relacionamento estável com a China, com competição, sem confrontação (viagem de Trump a Pequim). 

‘A ideia de Washington é controlar os países latino-americanos’

A ideia de Washington é controlar os países latino-americanos. Essa política foi aplicada em relação ao Panamá, ao Equador, à Venezuela, ao Paraguai, à Argentina e agora ameaça intervir em Cuba.

O controle sobre as áreas de interesse dos EUA é exercido por pressão econômica, controle tecnológico, cooperação judicial, sanções e influência diplomática e não implica em intervenção militar e mudança de regime no sentido antigo dos golpes de Estado com o apoio de Washington. 

As áreas de interesse de Washington são a questão da imigração, o combate ao crime organizado e a busca de recursos estratégicos. 

‘Medidas concretas estão sendo tomadas para restringir o número de imigrantes ‘

Medidas concretas estão sendo tomadas para restringir o número de imigrantes da América central, México e sul-americanos, para controlar o petróleo na Venezuela, para ter acesso aos minérios estratégicos, com a criação de Grupo de apoio aos EUA (convidado, o Brasil não respondeu). Também na criação da coalizão Escudo das Américas contra o crime organizado, com a participação de governos da América Central e do Sul (Argentina, El Salvador, Costa Rica, Dominicana, Guiana e Bolívia), sem a participação do Brasil, Colômbia e México. 

Outras medidas estão sendo tomadas para aproveitar a energia barata no Paraguai para a instalação de data centers e na questão de segurança, para ampliar o controle dos palestinos na região da tríplice fronteira e buscar o alinhamento automático da Argentina. 

A contenção da crescente presença da China na América Latina e impedir que potências não hemisféricas controlem ativos estratégicos (portos, mineração, energia, telecomunicações e infraestrutura digital) podem ser notadas no Panamá ao forçar a saída de empresa chinesa que comandava a operação do Canal do Panamá. 

No Chile pelo cancelamento da cooperação científica com a China em gigantesco telescópio no deserto de Atacama. Na Argentina, pelo cancelamento da cooperação com a China para uma base de acompanhamento espacial em Ushuaia, a cooperação marítima para fiscalização do Atlântico Sul. Brasil, México, Peru e Argentina são mencionados por suas relações com a China.

‘O governo de Washington procurou influir também em eleições em países da América Central’

O governo de Washington procurou influir também em eleições em países da América Central, como Honduras, no Chile, na Colômbia, na Argentina e, tudo indica, poderão influir na eleição presidencial no Brasil, como evidenciado com o recebimento de Flávio Bolsonaro na Casa Branca e no Departamento de Estado.

Na quinta-feira (28), o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que o governo americano pretende classificar as organizações criminosas CV e PCC, do Brasil, como grupos terroristas. A medida vai contra o que vinha sendo defendido pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva e mostra alinhamento aos interesses defendidos por Flávio Bolsonaro durante viagem aos EUA.

Em recente entrevista, Jeffrey Sachs recomendou que os países da região deveriam estar mais integrados e responder aos EUA que eles não estão a serviço de Washington. Nas atuais circunstâncias, nenhum país da América Latina responderá nessa linha a Trump. 

O máximo que se pode esperar dos países latino-americanos neste momento em relação às ações de Washington é reagir como México e Brasil estão fazendo: negociar sem contestar.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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