O Conselho da Paz de Donald Trump – Sinuca de bico
A criação de um órgão paralelo submetido à vontade pessoal de Trump parece menos uma tentativa genuína de promoção da paz e mais um esforço deliberado para esvaziar instâncias cujo poder os (ainda) superpoderosos EUA precisam dividir e negociar com as outras nações

Como estamos acompanhando, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou no último dia 22, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, sua proposta de criação do chamado “Conselho da Paz” para administrar o processo de pacificação da faixa de Gaza.
Esta proposta prevê que Trump lidere pessoalmente, e de forma vitalícia – ou seja, até mesmo quando estiver fora do poder nos EUA – o organismo. Para ele, este é o elemento-chave da fase II de um plano que elaborou para pôr fim à guerra civil na região.
‘Estamos diante de mais um gesto de hostilidade de Trump para com o sistema multilateral construído após a Segunda Guerra’
Conforme consta, este conselho poderia atuar em outros conflitos ao redor do mundo, em concorrência com a ONU. Ao que tudo indica, estamos diante de mais um gesto de hostilidade de Trump para com o sistema multilateral construído após a Segunda Guerra, cujo principal pilar é a ONU, sobretudo o seu Conselho de Segurança (CSNU). Sabemos que o desprezo do presidente dos EUA pela organização, e em particular pelo CSNU, é notório.
Neste contexto, a criação de um órgão paralelo submetido à sua vontade pessoal parece menos uma tentativa genuína de promoção da paz – na Faixa de Gaza ou em qualquer outro lugar do planeta – e mais um esforço deliberado para esvaziar instâncias cujo poder os (ainda) superpoderosos EUA precisam dividir e negociar com as outras nações.
A criação do Conselho da Paz acontece logo após o anúncio da criação de um comitê palestino tecnocrático composto por 15 membros que se encarregaria de administrar a Faixa de Gaza no pós-guerra. Este comitê de especialistas operaria sob a supervisão do Conselho da Paz presidido por Trump.
Sua visão de uma “nova Gaza” é transformar em três anos o território devastado num luxuoso complexo de arranha-céus à beira-mar. Aliás, este é um antigo “sonho” seu… Conforme ele teria dito: “…olhe esta localização à beira-mar; olhe para esta bela propriedade. o que isso poderia significar para tanta gente…vamos ter muito sucesso em Gaza…. Vai ser algo grandioso…”, concluiu, deixando claro seus interesses imobiliários. Aliás, entre os principais mentores da iniciativa estão figuras com claro envolvimento na questão, como, sintomaticamente, seu próprio genro, Jared Kushner.
‘As ideias vocalizadas por Trump revelam mais improviso do que estratégia’
Segundo os analistas, as ideias vocalizadas por Trump revelam mais improviso do que estratégia. Cabe relembrar que o projeto – que, segundo consta, não foi coordenado com Israel – exclui do núcleo decisório os principais envolvidos na questão, ou seja, os palestinos que habitam a região há milênios, e concentra o poder decisório num “forasteiro”, que teria poder sobre o seu destino. Cabe relembrar que estamos falando de Estados e não de propriedades privadas.
Desta forma, o Conselho da Paz já nasce viciado. Não há regras claras de funcionamento, não há processo transparente de tomada de decisões e nem delimitação de competências.
Neste espírito, para “legitimar” a proposta, foram convidados vários chefes de Estado e de governo para integrar o Conselho. Para participar de forma permanente é requerido o aporte de recursos no valor de US$ 1 bilhão, que ficariam sob o controle direto de Trump. A justificativa é que tais valores servirão para financiar o projeto de reconstrução da faixa de Gaza. Ou seja, trata-se de um empreendimento imobiliário financiado pelos países, em última instância. Vinte e três deles – entre os quais Argentina, Paraguai, Albânia, Bulgária, Catar, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia e Paquistão – já se manifestaram positivamente, enquanto cinco – Noruega, Suécia, Eslovênia, França e Espanha – já declinaram. Outros tantos ainda estão considerando os “prós e o contras”.
‘Com que legitimidade uma minoria de países poderia decidir sobre o futuro de toda a humanidade?’
É o nosso caso. o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – ou seja o Brasil – também foi convidado para integrar o organismo. É aí que está a sinuca de bico. O alegado objetivo inicial do Conselho é reerguer a Faixa de Gaza, mas não se sabe muito mais além disto, sobretudo sobre o seu verdadeiro escopo. Ademais, ele carece de legitimidade internacional, pois foi concebido para operar sob o controle absoluto de um único líder – uma pessoa física – Donald Trump, como vimos. Seriam, neste caso, dois órgãos a cuidar da paz mundial, o Conselho Permanente da ONU e o Conselho de Trump, compartilhando interesses e visões distintas das questões e litígios internacionais? E com que legitimidade uma minoria de países poderia decidir sobre o futuro de toda a humanidade?
Isto posto, o Palácio do Planalto tampouco pode se dar ao luxo de simplesmente dizer “não” à Casa Branca, sobretudo neste momento de “enlevo” entre Lula e Trump, que nos tem beneficiado. Logo, além de habilidade, Lula precisará ter cautela para se desvencilhar desta “armadilha política” (a propósito, o convite foi dirigido a ele de forma pessoal, assim como aos outros lideres).
‘Sabiamente, estamos postergando a nossa resposta, enquanto o nosso presidente conversa com alguns de seus pares para calcular os aspectos políticos e jurídicos envolvidos na questão antes de nos manifestarmos’
Sabiamente, estamos postergando a nossa resposta, enquanto o nosso presidente conversa com alguns de seus pares para calcular os aspectos políticos e jurídicos envolvidos na questão antes de nos manifestarmos. Corretamente, a meu ver, pois levando em consideração todos os fatores positivos e negativos da questão, qualquer conclusão agora seria açodada.
Estamos num momento de transição de hegemonias no cenário mundial, e os nossos reais aliados, como a China e a Índia, ainda não se manifestaram; e, pelo visto, os países da Europa Central tampouco têm demonstrado entusiasmo. Neste cenário, o Itamaraty afirmou que “não há pressa em responder ao convite, e que a decisão do governo brasileiro será divulgada dentro em breve, uma vez que as avaliações ainda precisam ser concluídas”. Parafraseando o provérbio árabe, pode até ser que “os cães ladrem e a caravana passe”.
To be continued…
Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.
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