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03 julho 2026

O fim dos diplomatas

Sem um governo que proponha um novo caminho, pensando em um projeto para o país, dificilmente será restabelecido o papel do Itamaraty como o principal formulador e executor da diplomacia.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A influência partidária e ideológica na política externa chegou ao seu limite máximo no final do governo do PT.

Estava previsto para 2 de julho o lançamento oficial pelo governo do primeiro conselho permanente para a participação da sociedade civil na política externa, o Conselho Nacional de Política Externa (Conpeb). O anúncio foi feito pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, durante a Segunda Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na Universidade Federal do ABC, em junho.

Para dar uma ideia da partidarização e ideologização da política externa, transcrevo, sem comentários, o pronunciamento da Presidência da República.

“Agora, mais do que nunca, mesmo pela postura de entreguismo e traição à pátria dos bolsonaristas, esse tema da soberania nacional e da política externa está sendo debatido pelo povo. Não é mais tema só de colóquios ou da conferência de política externa. É um tema que cada vez mais está sendo debatido no boteco, nos pontos de ônibus, nos movimentos sociais. É um tema decisivo para a disputa que o Brasil vai ter este ano. Por isso, tenho o prazer de retomar essa proposta. Ou seja, criar um espaço para que a sociedade civil, a partir de suas distintas manifestações, possa participar do debate de política externa no Brasil. Junto ao ministro Mauro Vieira, no Itamaraty, vamos ter a honra de ter a primeira reunião do Conpeb. Este será um marco na inclusão e democratização da política externa brasileira.”

A Secretaria-Geral da Presidência da República deu mais detalhes da iniciativa.

“Será um colegiado de caráter consultivo e permanente. As reuniões serão realizadas semestralmente, com a possibilidade de criação de até seis sub-colegiados. As deliberações vão ser adotadas por consenso e o financiamento será público, garantindo acesso a todas e todos. Vão integrar o Conpeb representantes do Ministério das Relações Exteriores, da Secretaria-Geral da Presidência e da Assessoria Especial da Presidência da República, além de, eventualmente, outras autoridades convidadas.”

“Da sociedade, teremos a participação de 23 setores: centros de pesquisa em relações internacionais (RI) de caráter privado, centros de pesquisa em RI de caráter público, redes de professores e pesquisadores em RI, representações de estudantes. Outra cadeira será do setor empresarial de indústria, o de comércio e serviços, de comércio exterior, de ciência, tecnologia e inovação.”

“Entidades dedicadas à integração regional ou a outros fóruns regionais, comunidades brasileiras no exterior, os cerca de 5 milhões de brasileiros que vivem fora do país. O setor sindical de trabalhadores, movimentos sociais urbanos, movimentos sociais rurais, entidades de promoção de segurança alimentar e nutricional, de defesa de direitos humanos, da democracia, do meio ambiente, de promoção da igualdade de gênero, racial, entidades de defesa de equidade e inclusão, representação de povos indígenas, de advogados e de jornalistas” também estarão representados”.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), elogiou a inclusão da sociedade civil no debate sobre nossa política externa e disse “esperar que estes possam ajudar a formular a inserção internacional do Brasil. Ressaltou a necessidade de aproximar decisões diplomáticas das necessidades reais do povo brasileiro, para opinar sobre temas como as situações de Cuba, Venezuela e Palestina, por exemplo, e acordos comerciais/tecnológicos, como o Acordo UE-Mercosul.”

A decisão do PT, caso efetivada, ampliaria a tendência de esvaziamento do Itamaraty.

Felizmente, prevaleceu o bom senso e a iniciativa ideológica foi adiada. Essa é mais uma razão para a sociedade brasileira sair da polarização ideológica e partidária que tanto prejuízo está causando ao país.

Sem um governo que proponha um novo caminho, pensando em um projeto para o país, dificilmente será restabelecido o papel do Itamaraty como o principal formulador e executor da diplomacia.

Política externa deve ser política de Estado e não de governo de turno.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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