Os resultados da reunião de cúpula do Brics
China, Índia e Rússia disputaram uma posição mais ativa de liderança do bloco, sem nenhum deles se destacar. O Brasil, diferente do que ocorreu em 2025, perdeu protagonismo no âmbito do Brics em 2026.

A reunião de cúpula do Brics, integrado por dez países, realizada em Nova Délhi, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, terminou com uma declaração conjunta de 45 páginas e 140 parágrafos, evitando temas sensíveis para conseguir consenso nas suas formulações.
Os líderes da Índia, China, Rússia, Irã, entre outros, estiveram presentes. O Brasil, único país cujo presidente não compareceu, foi representado pelo Ministro Mauro Vieira, visto que o presidente Lula preferiu ficar no Brasil cuidando da eleição presidencial e dando prioridade ao discurso nas Nações Unidas.
‘A reunião mostrou, em diversas partes, uma crítica ao unilateralismo (protecionismo e sanções) das medidas tomada pelo governo norte-americano na área política, econômica e comercial’
Pode-se dizer que a reunião mostrou, em diversas partes, uma crítica ao unilateralismo (protecionismo e sanções) das medidas tomada pelo governo norte-americano na área política, econômica e comercial, sem citar nem o país, nem o presidente Trump. Em temas geopolíticos mais divisivos — especialmente Oriente Médio e Ucrânia — adotou uma linguagem cuidadosa para preservar o consenso entre os 10 membros (líderes do Irã e dos Emirados Árabes Unidos estavam presentes, além de Putin).
O resultado mais concreto foi a consolidação de uma agenda de cooperação econômica, pagamentos em moedas locais, tecnologia e reforma da governança internacional.
Principais aspectos da Declaração de Nova Delhi
- Multilateralismo: os 11 países reafirmaram defesa do multilateralismo, reforma das instituições internacionais (ONU e OMC) e maior representação dos países emergentes no FMI e em outras estruturas de governança global.
- Critica ao unilateralismo trumpista com referências ao tarifaço, às ameaças a Cuba e a imposição de sanções.
- Oriente Médio: o BRICS manifestou preocupação com a escalada do conflito e pediu contenção e solução diplomática. O texto evitou atribuir responsabilidade direta a qualquer membro pelo conflito.
- Pagamentos entre os países: houve avanço nas discussões sobre pagamentos transfronteiriços, uso de moedas nacionais e interoperabilidade de sistemas de pagamento. Não houve acordo para criar uma moeda única do BRICS.
- Integração econômica: os países avançaram na chamada Estratégia de Parceria Econômica do BRICS 2030, além de iniciativas para investimentos, seguros, logística, transporte e cadeias de suprimentos.
- Tecnologia e IA: a agenda passou a dar mais peso à cooperação tecnológica, incluindo propostas relacionadas a inteligência artificial e inovação.
Um dos tópicos mais relevantes discutidos na cúpula foi a questão da moeda comum do Brics, apoiada pela Rússia e pelo Irã. A declaração de Nova Délhi não tratou da criação de uma moeda única ou uma moeda de reserva do bloco.
Por influência da Índia, a prioridade passou a ser construir mecanismos que permitam negociar sem precisar converter tudo para dólares. Os países concordaram em continuar estudando e promovendo liquidação de comércio e investimentos usando as moedas locais — real, yuan, rúpia, rublo etc. A própria declaração diz que não existe uma solução única aplicável a todos os países. Isso reduz a necessidade de dólar nas transações, mas não significa que o dólar deixe de ser usado.
O Brics Payment Task Force continua trabalhando na interoperabilidade dos sistemas de pagamentos dos países. A ideia é facilitar pagamentos internacionais diretamente entre os sistemas nacionais. Isso é particularmente interessante porque, por exemplo, Índia e Brasil já possuem sistemas nacionais muito fortes, UPI e Pix, respectivamente, e existe discussão sobre conectá-los a outros sistemas.
Também houve discussão sobre aumentar a interoperabilidade de tecnologias financeiras e de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). A questão é criar infraestrutura de pagamentos mais integrada, e não simplesmente lançar uma nova moeda Brics. Outro ponto relevante foi ampliar o financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento, inclusive em moedas locais, e diversificar suas fontes de financiamento. Isso pode diminuir a necessidade de recorrer ao dólar em determinados projetos.
‘Brics quer avançar nos mecanismos de pagamentos internacionais e no uso das moedas locais, mas respeitando as prioridades nacionais e reconhecendo que não existe uma solução única’
A própria declaração oficial é bastante clara: o Brics quer avançar nos mecanismos de pagamentos internacionais e no uso das moedas locais, mas respeitando as prioridades nacionais e reconhecendo que não existe uma solução única. Assim, a reunião de Nova Délhi não lançou a discutiu a “moeda do Brics”.
O que avançou foi algo talvez mais concreto: criar condições para que Brasil, China, Índia, Rússia e os demais membros possam comerciar, investir e fazer pagamentos entre si usando cada vez mais suas próprias moedas e sistemas financeiros, reduzindo a necessidade de passar pelo dólar.
China, Índia e Rússia disputaram uma posição mais ativa de liderança do bloco, sem nenhum deles se destacar. O Brasil, diferente do que ocorreu em 2025, perdeu protagonismo no âmbito do Brics em 2026.
A próxima reunião do BRICS será realizada no China, em 2027
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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