04 janeiro 2023

Pelé: uma superestrela global e ícone cultural que colocou a paixão no coração do futebol

Pelé não era apenas um grande jogador e um embaixador maravilhoso do esporte favorito do mundo; ele era um ícone cultural. Para o professor de esportes e economia geopolítica, ele continua sendo o rosto de uma pureza no futebol que existia muito antes do dinheiro e da geopolítica global se infiltrarem no jogo

Pelé não era apenas um grande jogador e um embaixador maravilhoso do esporte favorito do mundo; ele era um ícone cultural. Para o professor de esportes e economia geopolítica, ele continua sendo o rosto de uma pureza no futebol que existia muito antes do dinheiro e da geopolítica global se infiltrarem no jogo

Pelé durante jogo na Suécia em 1960 (CC)

Por Simon Chadwick*

Pelé, a primeira superestrela global do futebol, morreu aos 82 anos. Para muitos torcedores, o brasileiro será lembrado como o melhor que já jogou.

Para outros, vai além: ele era o símbolo do futebol jogado com paixão, gosto e um sorriso. Na verdade, ele ajudou a forjar uma imagem do esporte, que ainda hoje muitas pessoas desejam.

Pelé não era apenas um grande jogador e um embaixador maravilhoso do esporte favorito do mundo; ele era um ícone cultural. Na verdade, ele continua sendo o rosto de uma pureza no futebol que existia muito antes do dinheiro e da geopolítica global se infiltrarem no jogo.

É uma prova de sua lenda que todos, desde o inglês vencedor da Copa do Mundo de 1966, Sir Bobby Charlton, e o atual astro francês Kylian Mbappé, até Luiz Inácio Lula da Silva – o presidente do Brasil – e o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fizeram homenagens a ele.

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Primeiros tempos no Santos

Pelé nasceu Edson Arantes do Nascimento no estado de São Paulo, Brasil, em 1940. Sua infância foi a mesma de muitos jogadores de futebol que o precederam e de inúmeros que o seguiram e se inspiraram nele: nascido na pobreza, introduzido no jogo por um membro da família, posteriormente obcecado por um esporte que o ensinou sobre a vida e lhe deu oportunidades.

O futebol juvenil surgiu primeiro, em 1953, quando assinou pelo clube local, o Bauru. Mas foi seu primeiro clube profissional, o Santos, que impulsionou Pelé rumo ao estrelato. Tendo se mudado para lá em 1956, ele jogou 636 partidas e marcou 618 gols antes de sair em 1974. Não apenas o coração do time, Pelé também era fiel a um único clube.

Muito antes dos feitos das estrelas modernas Cristiano Ronaldo ou Erling Haaland, Pelé abriu uma trilha de gols que o marcou como sendo significativamente diferente dos outros jogadores ao seu redor. Da mesma forma, mostrou níveis de habilidade que ainda hoje fazem com que alguns observadores do esporte coloquem o brasileiro à frente de outros candidatos ao título de Maior de Todos os Tempos: Lionel Messi e Diego Maradona.

Um ano depois de assinar pelo Santos, Pelé fez sua estreia pelo Brasil, três meses antes de completar 17 anos. Ele marcou naquele jogo contra a Argentina e, 65 anos depois, continua sendo o artilheiro mais jovem da seleção brasileira.

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Um ano depois, em 1958, esse jovem jogador ajudou sua seleção a vencer a Copa do Mundo na Suécia. Então novamente em 1962, na Copa do Mundo no Chile, e mais uma vez no torneio de 1970 no México.

No final das contas, Pelé jogou 92 vezes pelo Brasil, marcando 77 gols. Em comparação, o inglês Harry Kane marcou 53 vezes em 80 partidas. Além das conquistas da seleção, pelo clube Pelé conquistou seis títulos do campeonato brasileiro e dois campeonatos sul-americanos.

Os anos americanos

Mais tarde, em 1975, ele saiu da semi-aposentadoria para jogar pelo New York Cosmos na North American Soccer League. Pelé estava na casa dos 30 anos, mas ainda conseguiu marcar 37 gols em 64 partidas. Alguns acreditam que foi sua breve passagem pelos Estados Unidos que deu início ao interesse do país pelo futebol.

Após sua aposentadoria, Pelé foi venerado, adorado e permaneceu influente. Ele se tornou o Jogador do Século XX da FIFA, prêmio que dividiu com Maradona. Em 2014, ele recebeu o primeiro Prêmio de Honra da Bola de Ouro da FIFA, e até Nelson Mandela falou sobre seu respeito pelo brasileiro ao lhe entregar o prêmio Laureus Lifetime Achievement Award, em 2000.

O talento de Pelé nunca esteve em dúvida. Ainda assim, foi fortuito que ele jogasse em uma época em que o futebol emergia das sombras lançadas pelo conflito global, quando o mundo precisava de símbolos de esperança e heróis esportivos.

‘Foi fortuito que ele jogasse em uma época em que o futebol emergia das sombras, e o mundo precisava de símbolos de esperança e heróis esportivos’

O brasileiro soube cumprir esse propósito, embora o tenha feito em um período em que a televisão – primeiro em preto e branco, depois em cores – levava o futebol direto para a sala das pessoas. Na época, Pelé era Messi, Ronaldo e Mbappé reunidos em um – consumíveis globalmente por essa nova tecnologia.

Inevitavelmente, ao longo de sua vida, Pelé encontrou problemas: suas atividades comerciais foram às vezes atoladas em polêmicas; em um momento ele foi rotulado como um antagonista de esquerda do governo brasileiro, depois foi descrito como sendo muito conservador em suas opiniões sobre a ditadura. Ele teve vários filhos – alguns fruto de casos amorosos – e um deles, um filho, Edinho, foi preso por lavagem de dinheiro obtido com tráfico de drogas.

No entanto, a memória permanente é de um homem que jogou futebol de uma forma que muitos de nós – tanto amadores quanto profissionais – aspiramos. Pelé não era apenas habilidoso, ele também trouxe grande alegria para inúmeras pessoas em todo o mundo, ao longo de décadas. Nenhum de nós, mesmo aqueles com um mínimo de interesse por futebol, jamais o esquecerá.


*Simon Chadwick é professor de esportes e economia geopolítica na SKEMA Business School


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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