08 dezembro 2025

Réquiem para o Ocidente (?)

Polemizando… A volatilidade do cenário internacional contemporâneo faz com que nos debrucemos sobre o curso da história e perscrutemos qual é o papel que está reservado para o Brasil no paradigma que se conforma no momento em que os conflitos se multiplicam pelo mundo afora. Mesmo o nosso continente, até então alijado dos seus efeitos, […]

Foto: Ilustração criada por IA

Polemizando…

A volatilidade do cenário internacional contemporâneo faz com que nos debrucemos sobre o curso da história e perscrutemos qual é o papel que está reservado para o Brasil no paradigma que se conforma no momento em que os conflitos se multiplicam pelo mundo afora. Mesmo o nosso continente, até então alijado dos seus efeitos, vê-se envolvido na ameaça de invasão da Venezuela pelos americanos.

Como lidar com este novo tempo, no qual a nossa influência é por ora restrita, a não ser – eventualmente – no “imbroglio” venezuelano?

A história é sempre boa conselheira. Ela nos ensina que desde o final da Segunda Guerra o mundo westfaliano – das fronteiras – vem sofrendo profundas modificações e se desconstruindo pela mudança de paradigmas: aqueles definidos pela Paz de Vestfália, no século XVII, quando a Europa central ditava as regras do jogo, agora se veem desafiados pelas fronteiras econômicas que avançam cada vez mais e embaralham o jogo mundialmente.

Cito sempre o exemplo da minha geração (nasci no final da Grande Guerra, em 1945). Desde então, ela conviveu com cinco hegemonias (no prazo de 80anos…):

  • 1) a queda do Império Britânico, que dominara o cenário internacional desde o espraiamento do colonialismo europeu, no final do século XVII;
  • 2) a hegemonia compartilhada a partir de então entre os Estados Unidos e a União Soviética, sob a ameaça do holocausto nuclear;
  • 3) a supremacia absoluta americana após a queda da URSS, em 1991;
  • 4) no início deste século, a reemergência da China – que fora a principal potência econômica mundial durante séculos -, em tandem com os Estados Unidos; e
  • 5) finalmente as hegemonias compartilhadas entre EUA, RPC e a Índia (?), o país mais populoso do planeta, já a 5ª maior economia e a passos largos para tornar-se a 3ª até o final deste século, segundo as previsões.

Ou seja, de toda esta análise, uma “certeza” se delineia, para mim, na “bola de cristal” da história: a cartografia do poder se desloca para a Ásia, onde estão as economias mais dinâmicas do planeta.

A este propósito, a falência das potências ocidentais que poderiam propor ações efetivas para sustar os dois dos eventos mais atrozes da atualidade – a Guerra da Ucrânia e o conflito Israel/Palestina – demonstra o quão impotente é o Ocidente no papel que avoca de “gendarme” do planeta.

O professor Oliver Stuenkel, da FGV, lembra que “depois de séculos exercendo um papel central na ordem internacional e projetando poder para além de suas fronteiras, a Europa encontra-se na defensiva, tentando administrar e conter o peso de China, Estados Unidos e Rússia dentro e ao redor de seu território”.

Ainda segundo ele, “este novo cenário, em que atores de fora disputam influência no continente; a dificuldade europeia de responder à altura à invasão russa à Ucrânia, à concorrência tecnológica chinesa e às tarifas dos EUA são reflexo de sua atual fragilidade e divisão interna”.

‘O propósito dos russos de reconfigurar o território da Ucrânia com base na ancestralidade histórica abre portas para o questionamento do paradigma vestfaliano para uma grande quantidade de países que sofreram durante séculos o jugo colonial’

A respeito, o propósito dos russos de reconfigurar o território da Ucrânia com base na ancestralidade histórica abre portas para o questionamento do paradigma vestfaliano para uma grande quantidade de países que sofreram durante séculos o jugo colonial. Como exemplo, a partição da Palestina, em 1947, seguindo parâmetros impostos pelas potências europeias abriram um capítulo nefasto na Hhstória da região, com consequências que vão muito além dos aspectos político-territoriais propriamente ditos e se espraiam para a esfera da fé.

A Partição igualmente desastrada do Império Britânico no Subcontinente indiano, em 1947, criou um antagonismo entre a Índia e o Paquistão que não encontrará desfecho no curto – e até médio – prazo, alimentando o terrorismo.

Os Estados Unidos, de sua parte, veem-se governados por um presidente errático, com veleidades “superlativas” – tipo MAGA- e xenófobas, diante da realidade de que sua população é crescentemente miscigenada e cada vez menos “WASP”.

Nesta “bagunça” planetária onde ficamos nós?

‘Temos “credenciais” inquestionáveis, tanto nas Américas quanto mundialmente, em setores-chaves para o planeta’

Temos “credenciais” inquestionáveis, tanto nas Américas quanto mundialmente, em setores-chaves para o planeta. Desnecessário relembrar o que sabemos todos: a riqueza do nosso meio-ambiente (que nos torna responsáveis pela sua preservação); a heterogeneidade da nossa fauna (idem…); a importância do nosso universo agrícola; o caráter da nossa população (sim. Quem viveu fora do Brasil entenderá o que estou afirmando), e por aí vamos.

Neste universo polimorfo, onde nos encaixamos? Somos o povo mais miscigenado do planeta, segundo os especialistas: correm vários tipos de sangue nas nossas veias; temos uma cultura ampla e generosa, fruto da(s) nossa(s) ancestralidade(s) e da nossa criatividade; e temos um caráter pacífico (apesar da violência urbana).

E fica a pergunta que não quer se calar: somos “Ocidente”?

Geograficamente, não resta dúvida. Mas nos reconhecemos numa civilização ocidental definida? Onde ficam as raízes africanas de grande parte da nossa população? Onde cabem os nossos indígenas (oops, povos originários)? Onde se inserem os descendentes de japoneses e demais asiáticos que fazem o progresso do Paraná, e além? E os descendentes de libaneses, que são mais numerosos no nosso solo que no próprio Líbano? E sobretudo, onde repousa a nossa cultura que é a súmula de tudo isto?

Por isto é que retorno ao que sempre digo: num universo tão plural temos que assumir o que somos: no melhor e mais nobre sentido: “raça impura” – nosso apanágio – e gênese de uma civilização interplanetária: nem Ocidente e nem Oriente, ou de qualquer outra geografia: simplesmente BRASILEIROS!

Not to be continued…

Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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