Três crises simultâneas de uma diplomacia historicamente competente
Numa visão mais ampla, a sucessão de atritos com o governo americano e o ato de hostilidade de Trump estão ancorados na disputa entre EUA e China pela hegemonia do poder mundial

O Brasil vive um momento singular de sua história. Nossa diplomacia enfrenta três crises diplomáticas simultâneas – com o segundo e o terceiro mais importante parceiro comercial (EUA e Argentina) e com um vizinho estratégico (Paraguai).
As causas imediatas desse fenômeno são diversas, embora guardem uma relação entre si. A crise com os EUA tem uma dimensão global (a guerra tarifária de Trump) e regional (hostilidade do Secretário de Estado Marco Rúbio a países refratários ao alinhamento automático com Washington). Com a Argentina, os problemas resultaram da ultrajante ofensa de Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). No caso do Paraguai, a crise é coisa nossa – um deslize grave na retórica de Lula.
No passado, o Brasil soube combinar firmeza com serenidade no enfrentamento de conjunturas semelhantes. Seremos capazes de preservar esse patrimônio? Nossas ações diplomáticas recentes apontam nessa direção? Este artigo analisa a crise com os EUA.
A crise alimentada pelos EUA
A crise com os EUA – ligada à guerra tarifária de Trump – se agravou com a aplicação ao Brasil das mais elevadas tarifas do globo. O pretexto era o processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O Brasil sofreu então medidas duríssimas com base na Lei Magnitsky.
O impasse criado foi contornado graças ao encontro de Trump e Lula na Assembleia Geral da ONU, e à química positiva entre os dois mandatários. Aventou-se então a possibilidade de o Brasil ser fonte de fornecimento de terras raras para os EUA. As conversas não prosperaram, diante da negativa brasileira de dar tratamento preferencial aos EUA. As divergências voltaram, tendo Trump recebido o Senador Flávio Bolsonaro e baixado um segundo tarifaço contra o Brasil.
Esse novo tarifaço foi a maneira de driblar a decisão da Suprema Corte de anular as tarifas anteriores de Trump. A nova alegação era a prática de trabalho forçado, embora esse não guarde qualquer relação com déficits comerciais norte-americanos. Aspecto curioso é que a China, muito associada a trabalho forçado, foi poupada, obviamente pelo controle de terras raras e minerais críticos. Isso levou o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz a interpretar a medida como mais um episódio de Trump Always Chickens Out (TACO).
‘Anúncio do novo embaixador sem o necessário agrément do governo brasileiro demonstra o desprezo do governo norte-americano – que age por impulso e ideologia – pelos ritos diplomáticos’
Os EUA estão sem embaixador no Brasil há mais de um ano e meio (início do segundo governo Trump). Não é uma anomalia, porque para as 195 embaixadas norte-americanas, Trump só designou embaixadores para 71. O novo embaixador indicado para o Brasil – Daniel Perez – muito ligado ao secretário de Estado Marco Rubio, teve seu nome anunciado publicamente e submetido ao Senado, sem o necessário agrément do governo brasileiro. Isso demonstra o desprezo do governo norte-americano – que age por impulso e ideologia – pelos ritos diplomáticos.
O lado brasileiro da crise
A concessão de agrément a embaixadores é processo que pode levar algumas semanas ou alguns meses, sem que isso constitua um agravante nas relações diplomáticas. Assim, a demora brasileira não foi o motivo da crise. O erro nosso foi antecipar que Daniel Perez só seria aprovado após as eleições presidenciais. A concessão de agrément – um ato da diplomacia – não deve ficar subordinada ao calendário eleitoral.
Equívoco maior, em março de 2026, foi revogar o visto para Darren Beattie, conselheiro do Departamento de Estado. Responsável pelos assuntos do Brasil, ele pretendia visitar o ex-presidente Bolsonaro, em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Vale lembrar que o próprio Lula visitou Cristina Kirchner, em 2025, quando cumpria prisão domiciliar após condenação judicial. Equívoco adicional foi negar visto para delegação norte-americana, com o argumento de que o propósito da visita era contestar o sistema eleitoral brasileiro. Na verdade, missões estrangeiras destinadas a examinar o processo eleitoral são normais, embora, nesse caso, o propósito era o de endossar alegações de fraude – infundadas – por parte da oposição bolsonarista.
Essa sucessão de atritos entre os dois governos culminou com a atitude hostil – sem precedente em 200 anos de relacionamento Brasil-EUA – de revogar o visto de nossa embaixadora em Washington, Maria Luiza Viotti.
A resposta brasileira – naturalmente a cargo do Itamaraty – foi elaborada pela Secretaria de Comunicação da Presidência, em mais uma demonstração de subordinação da diplomacia à narrativa política. Apesar disso, a resposta brasileira foi dura, mas correta, ao afirmar que as duas justificativas norte-americanas são “falsas”.
Uma interpretação da atual da crise. A história ensina?
Numa visão mais ampla, a sucessão de atritos e o ato de hostilidade estão ancorados na disputa entre EUA e China pela hegemonia do poder mundial.
Um corolário dessa rivalidade é a tendência geopolítica da divisão do mundo em esferas de influência, com a América Latina sob a égide dos EUA. O resgate, por Trump, da Doutrina Monroe de 1823 – Donroe Doctrine – é a ponta do iceberg.
A Lei de Segurança Nacional dos EUA sugere o alinhamento automático. “A escolha que todos os países da região devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres.” Longe desse dogmatismo, nossa política externa sempre se pautou pelos paradigmas da autonomia e do desenvolvimento, o que assegurou distanciamento em relação ao jogo de poder das superpotências. Esse padrão precisa ser preservado na atual crise com os EUA. Nesse sentido, o telefonema de Lula a Xi Jinping, em 26 de julho, e a manifestação pública do governo chinês contra a ingerência externa no Brasil, em nada contribui para a distensionar a crise com os EUA.
‘O Brasil é a grande força de resistência ao expansionismo político-ideológico norte-americano na América do Sul’
Numa visão mais focalizada, o Brasil é a grande força de resistência ao expansionismo político-ideológico norte-americano na América do Sul. Nossa missão ficou mais difícil diante da onda conservadora. Desde janeiro de 2025, regimes de direita venceram todas as eleições presidenciais na região e hoje prevalecem em sete países – Chile, Paraguai, Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela e Colômbia. O resultado é o isolamento político inédito do Brasil no continente.
O Brasil enfrenta hoje um dos momentos mais delicados na relação com os EUA. Mas já vivemos episódios de muita tensão: a espionagem norte-americana no governo Dilma Rousseff; a crise entre Geisel e Carter a respeito da política de direitos humanos.
Três fenômenos potencializam a crise atual: a Donroe Doctrine em um mundo regido por esferas de influência; o isolamento regional do Brasil, cercado por regimes ultraconservadores; e uma conjuntura em que a política externa tem desdobramentos de grande peso sobre o quadro doméstico.
Antagonizar o gigante do norte produz conhecidos dividendos, o que coloca a retórica da soberania em patamar acima do discurso pragmático do interesse nacional.
‘A condução da crise atual revela não só relativo eclipse institucional da política externa, mas perigosa tendência de sobrevalorizar a soberania, o nacionalismo e o antiamericanismo’
Outro fenômeno que agrava essa tendência é a redução da dimensão institucional de nossa política externa. É natural certa margem de divergência entre a Presidência da República – mais preocupada com os dividendos domésticos de curto prazo – e o Itamaraty – mais voltado para preservar, no longo prazo, o interesse nacional e a credibilidade externa. Entretanto, a condução da crise atual revela não só relativo eclipse institucional da política externa, mas perigosa tendência de sobrevalorizar a soberania, o nacionalismo e o antiamericanismo.
Em contraste com esse padrão recente, nossa história diplomática soube combinar firmeza e serenidade. O importante é encapsular a crise, e não estimular a metástase.
Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.
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