14 julho 2023

Uma moeda do BRICS não deve substituir o dólar tão cedo – mas significa um desafio crescente à ordem econômica estabelecida

O grupo idealiza a criação de uma moeda comum visando diminuir sua dependência ao dólar. Para professora, há ainda muitos obstáculos a serem ultrapassados, apesar de a iniciativa já representar um possível início de uma nova ordem econômica

O grupo idealiza a criação de uma moeda comum visando diminuir sua dependência ao dólar. Para professora, há ainda muitos obstáculos a serem ultrapassados, apesar de a iniciativa já representar um possível início de uma nova ordem econômica

Por Mihaela Papa*

Uma nova moeda poderia vir a desafiar o domínio do dólar? Talvez, mas esse pode não ser o objetivo principal.

Em agosto de 2023, a África do Sul receberá os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – um grupo de nações conhecidas pelo acrônimo BRICS. Entre os itens da agenda está a criação de uma nova moeda conjunta do BRICS.

Como uma acadêmica que estuda os países do BRICS há mais de uma década, certamente entendo por que a discussão sobre uma moeda do BRICS está ganhando força. A cúpula do BRICS ocorre no momento em que os países ao redor do mundo estão enfrentando um cenário geopolítico em transformação que desafia o domínio tradicional do Ocidente. E, enquanto os países do BRICS buscam reduzir sua dependência do dólar há mais de uma década, as sanções ocidentais contra a Rússia após a invasão da Ucrânia aceleraram esse processo.

Ao mesmo tempo, o aumento das taxas de juros e a recente crise do teto da dívida nos EUA aumentaram a preocupação de outros países a respeito de suas dívidas denominadas em dólares e do fim do dólar, caso a principal economia do mundo venha a entrar em default.

‘Uma nova moeda do BRICS enfrenta grandes obstáculos antes de se tornar uma realidade.’

Dito isso, uma nova moeda do BRICS enfrenta grandes obstáculos antes de se tornar uma realidade. Mas o que as discussões monetárias mostram é que os países do BRICS estão buscando descobrir e desenvolver novas ideias sobre como agitar as relações internacionais e coordenar efetivamente políticas em torno dessas ideias.

Momento de desdolarização?

Com 88% das transações internacionais realizadas em dólares americanos e o dólar respondendo por 58% das reservas cambiais globais, o domínio mundial do dólar é indiscutível. No entanto, a desdolarização – ou a redução da dependência de uma economia do dólar americano para o comércio e as finanças internacionais – tem se acelerado após a invasão russa na Ucrânia.

‘Os países do BRICS têm buscado uma ampla gama de iniciativas para diminuir sua dependência do dólar.’

Os países do BRICS têm buscado uma ampla gama de iniciativas para diminuir sua dependência do dólar. No último ano, a Rússia, a China e o Brasil passaram a usar mais moedas que não sejam o dólar em suas transações internacionais. O Iraque, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão explorando ativamente alternativas ao dólar. E os bancos centrais têm procurado transferir mais de suas reservas monetárias do dólar para o ouro.

Todas as nações do BRICS têm criticado o domínio do dólar por diferentes motivos. As autoridades russas têm defendido a desdolarização para aliviar a dor das sanções. Devido às sanções, os bancos russos não puderam usar o SWIFT, o sistema global de mensagens que permite transações bancárias. E o Ocidente congelou as reservas de US$330 bilhões da Rússia no ano passado.

‘Lula é um defensor de longa data do BRICS que anteriormente buscava reduzir a dependência e a vulnerabilidade do Brasil em relação ao dólar.’

Enquanto isso, a eleição de 2022 no Brasil reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva como presidente. Lula é um defensor de longa data do BRICS que anteriormente buscava reduzir a dependência e a vulnerabilidade do Brasil em relação ao dólar. Ele reenergizou o compromisso do grupo com a desdolarização e falou sobre a criação de uma nova moeda semelhante ao euro.

O governo chinês também expôs claramente suas preocupações com o domínio do dólar, rotulando-o como “a principal fonte de instabilidade e incerteza na economia mundial”. Pequim culpou diretamente o aumento da taxa de juros do Fed por causar turbulência no mercado financeiro internacional e desvalorização substancial de outras moedas. Juntamente com outros países do BRICS, a China também criticou o uso de sanções como uma arma geopolítica.

O apelo da desdolarização e de uma possível moeda do BRICS seria mitigar esses problemas. Os especialistas nos EUA estão profundamente divididos quanto às suas perspectivas. A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, acredita que o dólar permanecerá dominante, pois a maioria dos países não tem outra alternativa. No entanto, um ex-economista da Casa Branca acredita que há uma maneira de uma moeda do BRICS acabar com o domínio do dólar.

Ambições monetárias 

Embora as conversas sobre uma moeda do BRICS tenham ganhado força, há poucas informações sobre os vários modelos que estão sendo considerados.

O caminho mais ambicioso seria algo semelhante ao euro, a moeda única adotada por 11 estados-membros da União Europeia em 1999. Entretanto, a negociação de uma moeda única seria difícil devido às assimetrias de poder econômico e à dinâmica política complexa do BRICS. E para que uma nova moeda funcione, o BRICS precisaria concordar com um mecanismo de taxa de câmbio, ter sistemas de pagamento eficientes e um mercado financeiro bem regulamentado, estável e líquido. Para alcançar o status de moeda global, os BRICS precisariam de um forte histórico de gestão conjunta de câmbio para convencer os outros de que a nova moeda é confiável.

‘Uma versão do euro para o BRICS é improvável por enquanto’

Uma versão do euro para o BRICS é improvável por enquanto; nenhum dos países envolvidos demonstra qualquer desejo de descontinuar sua moeda local. Ao invés disso, o objetivo aparenta ser o de criar um sistema de pagamento integrado eficiente para transações internacionais como primeira etapa e, em seguida, introduzir uma nova moeda.

Já existem blocos de construção para isso. Em 2010, o Mecanismo de Cooperação Interbancária do BRICS foi lançado para facilitar os pagamentos internacionais entre os bancos do BRICS com as moedas locais. As nações do BRICS têm desenvolvido o BRICS pay – um sistema de pagamento para transações entre o BRICS sem a necessidade de converter a moeda local em dólares. Além disso, tem-se falado em uma criptomoeda do BRICS e em alinhar estrategicamente o desenvolvimento dos CBDCs (Central Bank Digital Currencies) para promover a interoperabilidade de moedas e a integração econômica. Como muitos países manifestaram interesse em participar do BRICS, é provável que o grupo amplie sua agenda de desdolarização.

Da visão do BRICS à realidade 

Certamente, algumas das iniciativas passadas mais ambiciosas do grupo visando estabelecer grandes projetos do BRICS paralelas a infraestruturas não ocidentais fracassaram. Grandes ideias como a do desenvolvimento de uma agência de classificação de crédito do BRICS e a da criação de um cabo submarino do BRICS nunca se concretizaram.

‘Os esforços de desdolarização têm enfrentado dificuldades tanto em nível multilateral quanto bilateral.’

Além disso, os esforços de desdolarização têm enfrentado dificuldades tanto em nível multilateral quanto bilateral. Em 2014, quando os países do BRICS lançaram o Novo Banco de Desenvolvimento, seu acordo fundador definiu que suas operações poderiam fornecer financiamento na moeda local do país em que a operação fosse realizada. Ainda assim, em 2023, o banco continua fortemente dependente do dólar para sua sobrevivência. O financiamento em moeda local representa cerca de 22% da carteira do banco, embora sua nova presidente espera aumentar esse percentual para 30% até 2026.

Existem desafios semelhantes nos esforços bilaterais de desdolarização. A Rússia e a Índia buscaram desenvolver um mecanismo de comércio em moedas locais, o que permitiria que os importadores indianos pagassem pelo petróleo e carvão baratos da Rússia em rúpias. Contudo, as negociações foram suspensas depois que Moscou desistiu da ideia de acumular rúpias.

Apesar de existirem barreiras para a desdolarização, a determinação do BRICS em agir não deve ser descartada – o grupo é conhecido por ter desafiado as expectativas no passado.

Apesar das muitas diferenças entre os cinco países, o bloco conseguiu desenvolver políticas conjuntas e sobreviver a grandes crises, como os confrontos fronteiriços entre a China e a Índia em 2020-21 e a guerra na Ucrânia. O BRICS aprofundou sua cooperação, investiu em novas instituições financeiras e vem ampliando continuamente a gama de questões políticas que aborda.

Atualmente, ele possui uma enorme rede de mecanismos interligados que conectam autoridades governamentais, empresas, acadêmicos, think tanks e outras partes interessadas em todos os países. Mesmo que não haja nenhum movimento quanto à moeda conjunta, há várias questões sobre as quais os ministros das finanças do BRICS, bem como os banqueiros centrais, se coordenam regularmente, e o potencial para o desenvolvimento de novas colaborações financeiras é particularmente forte.

‘Uma nova ordem econômica global não surgirá de uma nova moeda do BRICS ou da desdolarização que ocorrerá da noite para o dia.’

Sem dúvida, a conversa sobre uma nova moeda do BRICS, por si só, é um importante indicador do desejo de muitas nações de se diversificarem em relação ao dólar. No entanto, acredito que o foco na moeda do BRICS corre o risco de não enxergar a floresta por trás das árvores. Uma nova ordem econômica global não surgirá de uma nova moeda do BRICS ou da desdolarização que ocorrerá da noite para o dia. Mas ela pode emergir potencialmente do compromisso do BRICS de coordenar suas políticas e inovar – algo que essa iniciativa da moeda representa.


*Mihaela Papa é professora de desenvolvimento sustentável e governança global na Fletcher School, Tufts University.


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.

Tradução de Letícia Miranda


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Editor-executivo do portal Interesse Nacional. Jornalista e doutor em Relações Internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Mestre pelo KCL e autor dos livros Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities (Palgrave Macmillan), Brazil, um país do presente (Alameda Editorial), O Brazil é um país sério? (Pioneira) e O Brasil voltou? (Pioneira)

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