Vietnã – O mercado que o Brasil ainda não descobriu
A inserção internacional do Brasil será tanto mais sólida quanto maior for sua capacidade de diversificar parcerias, antecipar tendências e ocupar novos espaços em uma Ásia cada vez mais plural. Por muito tempo, a estratégia brasileira para a Ásia foi praticamente sinônimo de China. Essa escolha foi compreensível diante da dimensão econômica e da crescente […]

A inserção internacional do Brasil será tanto mais sólida quanto maior for sua capacidade de diversificar parcerias, antecipar tendências e ocupar novos espaços em uma Ásia cada vez mais plural.
Por muito tempo, a estratégia brasileira para a Ásia foi praticamente sinônimo de China. Essa escolha foi compreensível diante da dimensão econômica e da crescente importância chinesa para o comércio exterior brasileiro. Mas a transformação da economia internacional exige que o Brasil amplie seu horizonte estratégico e desenvolva uma visão mais abrangente sobre uma Ásia cada vez mais diversa e integrada.
A fragmentação das cadeias globais de produção, o avanço do friendshoring – estratégia de concentrar investimentos e cadeias produtivas em países considerados parceiros confiáveis –, a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China e a busca das empresas por maior diversificação geográfica estão redesenhando a economia mundial.
Nesse novo cenário, países capazes de oferecer estabilidade, competitividade e integração internacional passaram a ocupar posições centrais nas estratégias globais de investimento.
É nesse contexto que emerge o Vietnã.
‘A Ásia do século XXI deixou de ser apenas a China’
Nas últimas três décadas, a China consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil, alterando profundamente o perfil das exportações brasileiras. Essa relação continuará sendo fundamental. Entretanto, a Ásia do século XXI deixou de ser apenas a China.
O continente tornou-se um mosaico de economias altamente dinâmicas, integradas por cadeias produtivas sofisticadas e por uma crescente interdependência econômica. Índia, Indonésia, Malásia, Singapura, Filipinas e, sobretudo, o Vietnã despontam como novos polos de crescimento, inovação e produção industrial.
Talvez a principal lacuna da estratégia brasileira para a Ásia não seja a ausência de relações com esses mercados, mas a inexistência de uma estratégia mais abrangente para a região.
Poucos países simbolizam melhor essa oportunidade do que o Vietnã.
‘O país deixou para trás a imagem de uma economia periférica para tornar-se uma das economias mais dinâmicas da Ásia’
Com mais de 102 milhões de habitantes, idade média de 31 anos, elevada taxa de alfabetização e uma força de trabalho de aproximadamente 57 milhões de pessoas, o país deixou para trás a imagem de uma economia periférica para tornar-se uma das economias mais dinâmicas da Ásia.
Esse desempenho resulta da combinação entre estabilidade política, planejamento de longo prazo, abertura econômica e forte integração internacional. O Vietnã participa da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), mantém 17 acordos de livre comércio e possui acesso preferencial a mercados como União Europeia, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Canadá.
Mais do que um mercado consumidor relevante, o país tornou-se uma plataforma global de produção.
A reorganização das cadeias internacionais de suprimentos, acelerada pela pandemia e pelas tensões entre Estados Unidos e China, fez do Vietnã um dos maiores beneficiários da estratégia conhecida como China Plus One. Grandes multinacionais como LG, Toyota, Foxconn, Samsung, Apple, Honda, Hyundai, Unilever, Nike, Lego, Adidas, Intel e Nestlé passaram a distribuir suas operações entre diferentes países asiáticos, reduzindo riscos e aumentando a resiliência de suas cadeias produtivas.
“O mundo está reorganizando suas cadeias produtivas, e o Vietnã virou o novo centro dessa reorganização. Quem chegar primeiro sai na frente.”
Como sintetiza o presidente da Brazil Vietnam Chamber, Victor Key, “O mundo está reorganizando suas cadeias produtivas, e o Vietnã virou o novo centro dessa reorganização. Quem chegar primeiro sai na frente.”
A observação resume uma transformação estrutural da economia internacional. O Vietnã não cresce porque substitui a China, mas porque passou a integrar uma nova arquitetura produtiva asiática, na qual diferentes países desempenham funções complementares dentro das cadeias globais de valor.
Essa dinâmica também redefine o papel da ASEAN.
Com uma população superior a 680 milhões de habitantes e uma das economias regionais mais dinâmicas do mundo, a ASEAN consolidou-se como um dos principais centros de produção, consumo e investimentos internacionais. Mais do que um bloco econômico, tornou-se um espaço estratégico onde convergem interesses comerciais e geopolíticos da China, dos Estados Unidos, do Japão, da Coreia do Sul, da Índia e da União Europeia.
Nesse ambiente, o Vietnã ocupa posição singular.
Sua localização estratégica, sua capacidade industrial e sua ampla rede de acordos comerciais fazem do país uma das principais portas de entrada para empresas interessadas em acessar todo o mercado do Sudeste Asiático.
‘Mais do que uma oportunidade comercial, a aproximação entre Brasil e Vietnã deve ser compreendida sob a ótica do novo protagonismo do Sul Global’
Mais do que uma oportunidade comercial, a aproximação entre Brasil e Vietnã deve ser compreendida sob a ótica do novo protagonismo do Sul Global. Durante décadas, essa expressão foi utilizada predominantemente para identificar países em desenvolvimento que compartilhavam pautas comuns nos fóruns multilaterais. Hoje, porém, o conceito adquiriu nova dimensão econômica. Brasil, Índia, Indonésia, Vietnã e outras economias emergentes passaram a ocupar posições estratégicas nas cadeias globais de produção, na segurança alimentar, na transição energética e na atração de investimentos.
A cooperação entre esses países deixa de representar apenas uma agenda diplomática para tornar-se um instrumento concreto de desenvolvimento, inovação e diversificação econômica.
Fortalecer os laços entre Brasil e Vietnã significa aproximar duas economias relevantes do Sul Global que compartilham desafios semelhantes, mas, sobretudo, oportunidades complementares para ampliar sua inserção internacional em um mundo cada vez mais multipolar.
‘Diversificar parcerias exige também ampliar o conhecimento sobre diferentes culturas, modelos de desenvolvimento e formas de construir confiança’
Essa nova configuração internacional traz consigo um desafio que vai além da economia e da diplomacia. Diversificar parcerias exige também ampliar o conhecimento sobre diferentes culturas, modelos de desenvolvimento e formas de construir confiança. Em um ambiente internacional cada vez mais complexo, compreender como diferentes sociedades negociam, cooperam e estabelecem relações torna-se um ativo estratégico para fortalecer a inserção internacional do Brasil.
Nesse contexto, essa agenda adquire enorme relevância estratégica.
O Vietnã já é o maior parceiro comercial brasileiro na ASEAN. Em 2025, o comércio bilateral alcançou aproximadamente US$ 7,7 bilhões, e ambos os governos estabeleceram a meta de elevar esse fluxo para US$ 15 bilhões até 2030.
Os números, entretanto, revelam apenas parte do potencial dessa relação.
As exportações brasileiras permanecem concentradas em commodities agrícolas e minerais, enquanto as importações refletem o elevado grau de industrialização vietnamita, composto por eletrônicos, máquinas, equipamentos, calçados e outros bens manufaturados.
Existe espaço para uma parceria muito mais sofisticada.
O Brasil possui vantagens competitivas em agroindústria, bioenergia, etanol, tecnologia agrícola, energias renováveis, serviços, educação, saúde e economia criativa — setores nos quais a demanda vietnamita cresce de forma consistente.
‘Mais importante ainda é compreender o Vietnã como uma plataforma regional.’
Mais importante ainda é compreender o Vietnã como uma plataforma regional.
Empresas brasileiras que hoje enxergam o mercado vietnamita apenas como destino de exportações podem utilizá-lo como porta de entrada para uma região integrada de mais de 680 milhões de consumidores, inserida nas cadeias globais de produção e caracterizada por uma classe média em rápida expansão.
Essa mudança exige também uma revisão da estratégia brasileira para a Ásia. Essa revisão, entretanto, não depende apenas da ampliação de mercados ou da diversificação de parceiros comerciais. Ela exige investimentos em conhecimento, formação de pessoas e desenvolvimento de competências capazes de sustentar relações internacionais de longo prazo. Compreender diferentes culturas de negócios, construir relações de confiança e preparar profissionais para atuar em ambientes multiculturais passa a ser parte da própria estratégia de inserção internacional do Brasil.
Durante décadas, a agenda asiática concentrou-se quase exclusivamente na China. Mais recentemente, a Índia passou a ganhar espaço em razão de seu dinamismo demográfico, tecnológico e econômico. Ambos continuarão sendo parceiros estratégicos.
Mas limitar a estratégia asiática brasileira a esses dois gigantes significa ignorar uma transformação silenciosa que ocorre no restante do continente.
A nova Ásia é multipolar.
‘Países como Vietnã, Indonésia e Malásia deixaram de ser mercados periféricos para ocupar posição central na economia internacional’
Ela é formada por economias complementares, altamente conectadas e inseridas em cadeias globais de valor cada vez mais sofisticadas. Nesse cenário, países como Vietnã, Indonésia e Malásia deixaram de ser mercados periféricos para ocupar posição central na economia internacional.
O crescente interesse demonstrado por empresários brasileiros em iniciativas como o Brasil – Vietnã Business Dinner, ocorrido no último dia 1 de julho, confirma que essa percepção começa a ganhar espaço também no setor privado. O desafio, agora, é transformar esse interesse em uma estratégia permanente de aproximação econômica, institucional e empresarial.
Nesse contexto, a provocação feita por Victor Key ganha significado ainda maior: “Todo mundo fala da China. Nós estamos falando do próximo capítulo, e ele se chama Vietnã.”
Não se trata de substituir parceiros tradicionais. Trata-se de compreender que a inserção internacional do Brasil será tanto mais sólida quanto maior for sua capacidade de diversificar parcerias, antecipar tendências e ocupar novos espaços em uma Ásia cada vez mais plural.
‘O futuro da economia internacional será moldado pela capacidade de articulação entre economias emergentes que souberem transformar complementaridades em parcerias estratégicas’
O futuro da economia internacional não será definido exclusivamente pelas grandes potências tradicionais. Ele será moldado, cada vez mais, pela capacidade de articulação entre economias emergentes que souberem transformar complementaridades em parcerias estratégicas.
Nesse cenário, Brasil e Vietnã representam mais do que dois mercados em expansão: representam a oportunidade de um Sul Global mais integrado, inovador e protagonista.
Descobrir o Vietnã, portanto, não é apenas ampliar uma agenda comercial.
É compreender que o Brasil precisa ocupar, desde já, o lugar que lhe cabe na nova arquitetura econômica internacional.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing, com experiência na promoção de negócios, relações institucionais e articulação empresarial internacional. Estudante de Relações Internacionais, atua na promoção de relações bilaterais e comerciais entre o Brasil e mercados estratégicos, com ênfase na África, nas Américas, no Mercosul e, mais recentemente, na Ásia, tendo participado da organização do Networking Empresarial Brasil–Indonésia e, mais recentemente Brasil–Vietnã. Maria Helena Magalhães Sarmento Afonso é diretora da Brazil Vietnam Chamber, professora de pós-graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie e palestrante. Especialista em Inteligência Cultural, liderança e comunicação, atua no fortalecimento das relações entre Brasil e Vietnã, na educação executiva e na preparação de profissionais e organizações para ambientes internacionais e multiculturais.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional