15 dezembro 2023

Rubens Barbosa: Polarização na versão brasileira

Apesar do discurso de união nacional de Lula ao ser eleito, viu-se ao longo do ano um aumento da intransigência e da radicalização política no Partido dos Trabalhadores, no governo, no Congresso, no Judiciário, na oposição e nas redes sociais. Para embaixador, o “nós e eles” está se transformando em uma arma tupiniquim de polarização interna com preocupantes características

Apesar do discurso de união nacional de Lula ao ser eleito, viu-se ao longo do ano um aumento da intransigência e da radicalização política no Partido dos Trabalhadores, no governo, no Congresso, no Judiciário, na oposição e nas redes sociais. Para embaixador, o “nós e eles” está se transformando em uma arma tupiniquim de polarização interna com preocupantes características

Ato de abertura da Conferência do PT com participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: PT)

Por Rubens Barbosa*

O PT foi um dos precursores da tendência global de polarização doméstica da política. Todos se lembram do famoso “nós e eles” de mais de duas décadas de vida. A polarização interna no Brasil se acentuou no governo Bolsonaro e parece estar instalada definitivamente na política brasileira, como ficou registrado na última eleição.

Lula, no discurso em que agradeceu pelos resultados da eleição, fez um gesto ao afirmar que sua vitória não era a vitória do PT, mas a vitória da democracia pelo apoio de forças do centro e que seu governo seria de união nacional. “Não existem dois Brasis” e “há necessidade de unir o país”, afirmou o então presidente eleito. O lema do governo petista é União e Reconstrução. Depois de um ano de governo, está sendo lançada campanha publicitária oficial sobre a união de todos no Brasil. 

O lema do governo petista é União e Reconstrução. Na prática, contudo, a situação é bem diferente

Na prática, contudo, a situação é bem diferente. Ao longo de 2023, o que se viu foi um aumento da intransigência e da radicalização política no Partido dos Trabalhadores, no governo, no Congresso, no Judiciário, na oposição e nas redes sociais. A violência, em alta em todo o país, também aumentou na polarização política.

O mais recente exemplo da escalada da polarização ocorreu na Conferência do PT, na semana passada. Um grupo influente do partido saiu em defesa da tática de polarização. “A história do PT é de luta, polarização e enfrentamento”. “Está faltando uma plataforma clara de governo para dizermos, Lula estamos contidos, mas… ou estamos contidos para tal e tal”. “Temos de ser assim, temos de criticar o governo”. “Tem que tensionar, tem que polarizar”. 

‘A tática da polarização está instaurada na política brasileira e dentro do único partido organizado que existe no Brasil’

A tática da polarização está instaurada na política brasileira e dentro do único partido organizado que existe no Brasil. O fogo amigo da presidente do PT contra o ministro da Fazenda, Fernando Haddad no tocante à contenção de gastos para equilibrar a economia é o exemplo mais recente. 

Em reunião com governadores no Palácio do Planalto, Lula informou que no dia 8 de janeiro haverá um ato público “para lembrar o povo que se tentou um golpe e que ele foi debelado pela democracia neste país”.

‘Apesar do discurso público de seu governo tentar passar a ideia de união, na realidade o problema é que Lula continua a praticar a tática da polarização respaldando e respaldado pelo PT’

Apesar do discurso público de seu governo tentar passar a ideia de união, na realidade o problema é que Lula continua a praticar a tática da polarização respaldando e respaldado pelo PT, como se vê no parcelamento da máquina pública, na questão das restrições ao gasto público e nos embates nas redes sociais entre petistas e bolsonaristas. A estratégia petista de polarização, divulgada na conferência de domingo passado, é a que deve prevalecer nas próximas eleições municipais em 2024 e presidenciais em 2026, contra o bolsonarismo, como uma questão de sobrevivência política.

O risco dessa postura é o de a sociedade brasileira caminhar na direção da radicalização como já ocorre nos EUA, e em alguns países europeus, onde a polarização transbordou para todas as áreas, não só da política, da economia, mas também das universidades, com crescente e letal violência.

O “nós e eles”, que nasceu de forma inocente, dividindo petistas e peessedebistas, está se transformando em uma arma tupiniquim de polarização interna com preocupantes características de atos radicais, pouco frequentes, até aqui, na sociedade brasileira. 


*Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, DC., é diplomata, presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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