Número 74

Ano 19 / Jul - Set 26

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Desenvolvimento industrial requer política de minerais críticos e estratégicos

A transição energética, a eletrificação dos transportes e o avanço das tecnologias digitais e de defesa ampliaram a centralidade dos minerais críticos e estratégicos na economia internacional. Esse movimento desloca parte relevante da disputa industrial para cadeias minerais de alta tecnologia e abre espaço para uma estratégia brasileira apoiada em condições geológicas, energéticas e produtivas relevantes. Reservas minerais expressivas e demanda externa em expansão reforçam essa oportunidade. Aproveitá-la exige estruturar cadeias industriais domésticas capazes de gerar valor aos minerais produzidos no País. O sucesso dessa estratégia nacional depende da coordenação entre setor público, iniciativa privada, instituições de ciência, tecnologia e formação profissional, bancos de fomento e agentes capazes de financiar projetos de longo prazo.

A análise técnica do território brasileiro revela um potencial geológico que posiciona o país entre os líderes mundiais do setor. O estudo ”Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil: Um Passaporte para o Futuro”, do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), mostra a relevância das reservas nacionais em minerais decisivos para a transição energética e para aplicações industriais de alta tecnologia. O documento aponta a segunda maior reserva mundial de terras raras e destaca a posição brasileira em nióbio, grafita, manganês e níquel. A mineração consolidou-se como um pilar da estabilidade macroeconômica, respondendo por 55% do saldo da balança comercial brasileira em 2025. As projeções do setor indicam investimentos da ordem de US$ 76,9 bilhões até 2030, reforçando a atividade como vetor industrial.

A gestão desses recursos exige a diferenciação técnica entre o caráter estratégico e a criticidade mineral. Os minerais estratégicos são aqueles essenciais para a defesa ou para setores tecnológicos em que o Brasil possui vantagem comparativa, enquanto os críticos se caracterizam pelo risco de interrupção do suprimento. O potássio e o fosfato exemplificam a criticidade interna, visto que o Brasil depende de importações para suprir cerca de 80% do seu consumo de fertilizantes. A relevância econômica do agronegócio torna o fornecimento desses insumos uma questão estratégica. O cloreto de potássio, o qual o país importa mais de 95%, é um nutriente vital para a produtividade agrícola brasileira. A redução dessa dependência externa é um objetivo central do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2050), que busca elevar a produção interna para 3,8 milhões de toneladas até 2030.

Geopolítica, powershoring e segurança de suprimento

A concentração do processamento de minerais críticos em poucas regiões geográficas, sobretudo na Ásia, gera riscos para cadeias produtivas de economias que buscam diversificar fornecedores e reduzir dependências estratégicas. O atual arranjo geopolítico estimula a formação de parcerias estratégicas, como a Mineral Security Partnership (MSP), iniciativa voltada à diversificação do suprimento mineral. Nesse contexto, o conceito de powershoring ganha relevância, por associar atração industrial à oferta abundante de energia limpa e barata. A matriz elétrica brasileira, com mais de 90% de fontes renováveis, confere ao setor mineral potencial para reduzir a pegada de carbono da transformação mineral. Essa vantagem pode tornar a economia brasileira uma alternativa concreta para indústrias que buscam descarbonizar sua produção sem perder competitividade de custo. A segurança de suprimento exige que a indústria doméstica tenha acesso previsível e competitivo aos insumos, o que depende tanto de acordos de fornecimento de longo prazo quanto de capacidade produtiva instalada no próprio território.

A construção de um marco regulatório para o setor mineral avançou no Congresso Nacional com a aprovação do Projeto de Lei 2780/2024 pela Câmara dos Deputados, após discussões técnicas e políticas que antecederam a tramitação da matéria no Senado Federal. A aprovação por ampla maioria na Câmara, com o apoio do governo e da oposição, indica que o tema ganhou status de prioridade nacional, independentemente do ciclo eleitoral. No Senado Federal, o empenho em ampliar o debate resultou em audiências públicas sucessivas realizadas em maio de 2026. O IBRAM e outros atores, como a Agência Nacional de Mineração, participaram desses fóruns de discussão em torno dos projetos de lei 4443/2025 e 2780/2024, que tratam da Política Nacional e da criação do Conselho Nacional de Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.

O IBRAM ressalta a importância de que o texto final preserve a atratividade para o investimento e evite mecanismos de intervenção sem critérios objetivos. O texto aprovado pela Câmara contém dispositivos que geram preocupação ao setor, como a exigência de homologação governamental para transações empresariais e mudanças de controle societário de mineradoras. A segurança jurídica é requisito para investidores, que necessitam de parâmetros claros sobre hipóteses, limites e critérios de atuação do poder público. Critérios imprecisos ou excessivamente discricionários podem afastar capitais e atrasar projetos estratégicos. A mineração é uma atividade de capital intensivo e de alto risco, e mecanismos de controle que afugentem o capital estrangeiro podem comprometer o desenvolvimento nacional. Esse ponto é sensível porque, como foi destacado na audiência do Senado, investidores estrangeiros respondem por cerca de 65% dos recursos aplicados na bolsa brasileira.

Instrumentos de fomento e incentivos condicionados

Na audiência em que o IBRAM esteve presente, também participou a economista Rafaela Guedes, consultora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Guedes analisou o desenho das políticas de incentivo e ressaltou que a história industrial brasileira indica a relevância de estímulos vinculados a contrapartidas tecnológicas e industriais. Essa abordagem sugere que o Estado reduza os custos de entrada para as mineradoras em troca de investimentos efetivos em pesquisa, desenvolvimento e transição energética. O IBRAM defende a avaliação de se estender regimes especiais para projetos de minerais críticos. Entre os instrumentos a serem considerados, estão o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI), o Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária (Reporto) e o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata).

A economista também pontuou o mérito das Zonas de Processamento de Transformação Mineral (ZPTM), previstas no Projeto de Lei 4443/2025. A lógica dessas zonas é adensar cadeias produtivas em regiões onde a vocação mineral já encontra condições de infraestrutura e capacidade industrial. O objetivo é aproximar mineração, processamento e transformação no território nacional. O IBRAM defende que esse mecanismo seja considerado no marco regulatório unificado, com critérios objetivos e incentivos vinculados à agregação de valor no país. A Lei 13.540/2017 já prevê a destinação de royalties minerais para atividades de ciência e tecnologia, o que deve ser fiscalizado com rigor pela sociedade. A estruturação de um Fundo Garantidor, com aporte inicial de R$ 3 bilhões das empresas, previsto no Projeto de Lei 2780/2024, pode contribuir para reduzir riscos financeiros de novos projetos.

O Brasil pode ocupar etapas de maior valor da cadeia mineral. A primeira etapa, denominada upstream, abrange o mapeamento geológico detalhado e a pesquisa mineral para identificação de depósitos. A segunda fase, o midstream, compreende o beneficiamento mineral e a produção de compostos químicos e metalúrgicos. É nessa etapa que se encontram desafios técnicos relevantes, como a separação química de elementos de terras raras, processo ainda fortemente concentrado na China. É necessário investir na formação de polos de processamento, separação e transformação mineral que utilizem tecnologias de baixo impacto ambiental.

A terceira etapa, o downstream, refere-se à fabricação de produtos finais e componentes de alta tecnologia. Produtores de nióbio no Brasil já desenvolvem aplicações de maior valor agregado nessa etapa, inclusive baterias de carregamento ultrarrápido em parceria com a indústria automobilística. Outros minerais, como o lítio e o cobre, são essenciais para a produção de acumuladores de energia, motores elétricos, cabos, redes e sistemas de transmissão. Por fim, a etapa de recovery envolve a economia circular e a mineração urbana. A reinserção de resíduos e a reciclagem de produtos pós-consumo são estratégias fundamentais para a resiliência do suprimento mineral. Sem integração entre as normas minerárias, ambientais e industriais, a reciclagem de minerais tende a permanecer limitada em escala e atratividade econômica.

Esse adensamento exige que a política mineral dialogue com a política industrial e com a demanda concreta das empresas que usarão esses insumos. A produção mineral só captura mais valor quando encontra compradores capazes de sustentar contratos de longo prazo e quando o país dispõe de competência técnica para transformar minérios em compostos, materiais e componentes. A política nacional deve criar esse ambiente, aproximando mineração, energia, indústria, ciência e financiamento em cadeias prioritárias, com instrumentos compatíveis com o tempo de maturação dos projetos.

Também é preciso criar demanda doméstica para os insumos produzidos no país. Sem compradores industriais dispostos a contratar fornecimento de longo prazo, projetos minerais tendem a permanecer dependentes de exportações primárias ou de decisões tomadas fora do território nacional. A política pública deve reduzir essa distância entre jazida, indústria e mercado, para que a agregação de valor deixe de ser apenas uma intenção e passe a orientar investimentos concretos.

Avançar nas cadeias de minerais críticos exige domínio das etapas de processamento e transformação, o que depende de formação técnica e tecnologia própria. Essa agenda deve integrar instituições como o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A formação de mão de obra qualificada é indispensável para que a inteligência produtiva seja retida no país. A utilização de ferramentas digitais e de inteligência artificial já aparece em aplicações como análise de dados operacionais, predição de variáveis críticas e apoio à tomada de decisão. A inovação precisa alcançar também a etapa de processamento químico, especialmente nas cadeias de terras raras, lítio, grafita e níquel. O desafio brasileiro está em transformar conhecimento científico em capacidade produtiva. Isso exige equipes preparadas para operar plantas-piloto, validar rotas tecnológicas e levar novos materiais à escala industrial. Também requer laboratórios bem estruturados e regras de propriedade intelectual capazes de manter no país parte relevante do valor gerado pela inovação. Startups e empresas de base tecnológica podem acelerar esse processo quando integradas a universidades, centros de pesquisa e cadeias industriais com demanda concreta.

A viabilidade financeira da nova política mineral depende da mobilização do mercado de capitais doméstico. Mineradoras brasileiras recorrem a bolsas estrangeiras para captar recursos porque o mercado doméstico ainda carece de instrumentos de crédito compatíveis com o risco e o horizonte desses projetos. Essa dependência externa reduz a autonomia de decisão sobre os ativos minerais localizados em território nacional. É necessário criar condições para que parte da poupança nacional financie projetos minerários de longo prazo, cujo risco é elevado e exige retorno compatível com a complexidade da atividade. Títulos incentivados e outros instrumentos de crédito podem apoiar a infraestrutura dos distritos mineiros, desde que estejam associados a mecanismos de compartilhamento de risco e contratos de compra futura. Sem essa arquitetura, projetos tecnicamente promissores podem permanecer na fase de pesquisa ou buscar capital em praças estrangeiras mais familiarizadas com a mineração. Uma política de minerais críticos com perspectiva de país deve fazer o investimento avançar da lavra para etapas industriais mais sofisticadas, até alcançar materiais avançados, componentes e reciclagem.

Sustentabilidade e padrões ambientais, sociais e de governança

Na última década, o setor mineral passou a operar sob maior cobrança regulatória, social e empresarial em segurança e sustentabilidade. A adoção de critérios internacionais de segurança de barragens e o compromisso com a descarbonização são pilares da competitividade nacional. O cumprimento rigoroso das regras de licenciamento ambiental deve ser mantido, garantindo que o crescimento da atividade ocorra em harmonia com os biomas e as comunidades locais. A transparência na gestão dos impactos socioambientais é o que assegura a licença social para operar. Compradores europeus e norte-americanos ampliam exigências de rastreabilidade e certificação ambiental de seus fornecedores minerais. A matriz elétrica nacional permite atender a esse padrão com vantagem real sobre concorrentes mais dependentes de fontes fósseis.

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos deve ser tratada como uma agenda de Estado, duradoura e tecnicamente embasada. O Brasil tem base mineral relevante e instituições capazes de transformar esse potencial em uma estratégia industrial mais sofisticada. A segurança jurídica e a previsibilidade regulatória precisam estar no centro da política pública. Sem esses dois pilares, o país tende a exportar minério bruto enquanto outros agregam valor ao que foi extraído do seu subsolo.

A superação dos gargalos de financiamento e tecnologia exige coordenação permanente entre governo, empresas, universidades, centros de pesquisa e agentes financeiros. Essa articulação deve aproximar conhecimento geológico, desenvolvimento tecnológico e demanda industrial, para que a mineração avance além da lavra e sustente atividades de maior valor. Um marco regulatório claro, se aprovado com amplo consenso, pode reduzir o prêmio de risco cobrado por investidores estrangeiros e destravar projetos que, hoje, aguardam segurança jurídica para avançar. O sucesso se medirá pelo valor que o Brasil retém em cada etapa da cadeia mineral, do processamento aos componentes finais.  

Referências Bibliográficas

Instituto Brasileiro de Mineração. Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil. Um Passaporte para o Futuro. 1. ed. Brasília. IBRAM, 2025.

Senado Federal. Audiência Pública sobre Minerais Críticos e Estratégicos, com participação de Pablo Cesário e contribuições da economista Rafaela Guedes sobre incentivos condicionados, Zonas de Processamento de Transformação Mineral, REIDI, Reporto e Redata. Brasília. Senado Federal, maio de 2026.

Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Mineral Commodity Summaries 2025.

Brasil. Plano Nacional de Fertilizantes 2050.

Brasil. Lei 13.540, de 18 de dezembro de 2017.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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