A crise do multilateralismo não é só externa – O que o enfraquecimento das instituições internacionais revela sobre a política doméstica
A crise do multilateralismo não é um fenômeno externo que se impõe aos Estados. Ela é produzida por eles. E só poderá ser superada quando houver disposição política interna para reconstruir a confiança nas regras, nas instituições e na cooperação como instrumentos legítimos de ação coletiva em um mundo cada vez mais interdependente

Falar em crise do multilateralismo tornou-se quase um lugar-comum no debate internacional. A fragilização das organizações multilaterais, o aumento de decisões unilaterais e a perda de capacidade de coordenação global são frequentemente atribuídos à ineficiência dessas instituições ou à suposta inadequação de suas regras a um mundo mais fragmentado. Essa leitura, embora parcialmente correta, ignora um aspecto central do problema: a crise do multilateralismo é, antes de tudo, um reflexo das crises políticas domésticas dos próprios Estados que o compõem.
Instituições multilaterais não são entes autônomos dotados de vontade própria, nem atores independentes capazes de impor agendas à revelia dos Estados. Elas são, essencialmente, arranjos políticos criados, financiados e operados por governos nacionais, refletindo correlações de poder, consensos mínimos e compromissos negociados ao longo do tempo. Seu funcionamento, ou sua paralisia, depende diretamente do grau de engajamento político, normativo e financeiro de seus membros. Quando esse compromisso se enfraquece, as instituições não “falham” por si mesmas; elas apenas revelam os limites da cooperação em um contexto de retração da vontade política estatal.
‘O enfraquecimento do multilateralismo nas últimas décadas está menos associado a deficiências estruturais inevitáveis e mais a escolhas políticas conscientes’
Nesse sentido, o enfraquecimento do multilateralismo nas últimas décadas está menos associado a deficiências estruturais inevitáveis e mais a escolhas políticas conscientes. Estados que passam a instrumentalizar a política externa para consumo doméstico, seja como ferramenta de mobilização eleitoral, seja como elemento de guerra cultural, tendem a abandonar a lógica cooperativa em favor de gestos simbólicos de confronto. O custo dessa estratégia raramente é imediato no plano interno, mas seus efeitos acumulados corroem a capacidade de coordenação internacional e reduzem o espaço de atuação coletiva justamente em temas que exigem respostas compartilhadas.
É nesse contexto que ganha força o discurso soberanista que apresenta o multilateralismo como uma ameaça à autonomia nacional. Trata-se, porém, de uma leitura profundamente distorcida. Historicamente, a participação em instituições multilaterais foi um dos principais mecanismos pelos quais Estados, especialmente potências médias e países em desenvolvimento, ampliaram sua capacidade de influência, reduziram assimetrias de poder e protegeram seus interesses em um ambiente internacional desigual. A soberania, nesse sentido, nunca foi sinônimo de isolamento, mas de capacidade de agir de forma coordenada e previsível dentro de regras compartilhadas.
‘Ao invés de fortalecer o interesse nacional, esse discurso tende a deslegitimar normas que exigem responsabilidade e previsibilidade, convertendo o multilateralismo em bode expiatório de fragilidades políticas internas’
O soberanismo contemporâneo, mobilizado de forma seletiva, opera mais como retórica política do que como estratégia consistente de política externa. Ele é acionado sobretudo quando compromissos internacionais passam a impor limites concretos à ação governamental, seja na proteção de direitos humanos, na governança ambiental, na transparência institucional ou na prestação de contas. Ao invés de fortalecer o interesse nacional, esse discurso tende a deslegitimar normas que exigem responsabilidade e previsibilidade, convertendo o multilateralismo em bode expiatório de fragilidades políticas internas.
Esse processo está profundamente conectado à erosão democrática interna. Governos que enfrentam polarização extrema, desconfiança institucional e crises de legitimidade tendem a projetar essas tensões para fora. O sistema internacional passa a ser apresentado como um “outro” hostil: burocrático, elitista ou conspiratório. Essa narrativa cumpre uma função política clara: deslocar responsabilidades internas e reforçar identidades políticas baseadas no conflito, não na cooperação.
‘A oscilação de posições, a retórica de confronto e a descontinuidade de compromissos não apenas reduziram a credibilidade internacional do Brasil’
O caso brasileiro ilustra bem essa dinâmica. A política externa do país, historicamente marcada por previsibilidade, profissionalismo diplomático e compromisso com o multilateralismo, sofreu abalos significativos quando passou a ser capturada por disputas ideológicas internas. A oscilação de posições, a retórica de confronto e a descontinuidade de compromissos não apenas reduziram a credibilidade internacional do Brasil, como também limitaram sua capacidade de influenciar agendas estratégicas relevantes, da governança ambiental à reforma das instituições globais.
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece um contraponto importante a esse processo, mas também revela seus limites. Ao retornar ao governo, Lula buscou reconstruir a política externa brasileira a partir de uma revalorização explícita do multilateralismo, do discurso de cooperação internacional e da recuperação do protagonismo diplomático do país. Houve um esforço deliberado de ancoragem simbólica do Brasil em fóruns multilaterais, com ênfase na agenda ambiental, na retomada do diálogo com parceiros tradicionais e na reafirmação do Itamaraty como ator central da formulação diplomática.
‘O governo Lula 3 opera em um contexto político e institucional significativamente mais restritivo do que em seus mandatos anteriores’
Essa inflexão foi relevante para interromper o processo de isolamento e recompor parte da credibilidade internacional perdida. No entanto, Lula 3 opera em um contexto político e institucional significativamente mais restritivo do que em seus mandatos anteriores. A elevada polarização doméstica, a fragmentação do sistema político e a necessidade constante de negociação com um Congresso heterogêneo e pouco alinhado limitam a capacidade do Executivo de transformar discurso multilateralista em estratégia consistente de longo prazo. A política externa volta a ser valorizada, mas permanece vulnerável às pressões internas e a equilíbrios precários.
Além disso, a tentativa de reposicionar o Brasil como liderança do Sul Global e como mediador em conflitos internacionais esbarra em ambiguidades discursivas e em dificuldades de coordenação. Em alguns momentos, o país busca simultaneamente reafirmar compromissos normativos, como a defesa da ordem internacional baseada em regras, e preservar margens de autonomia estratégica que geram percepções de ambiguidade entre parceiros. Essa tensão, embora não seja inédita na política externa brasileira, adquire maior visibilidade em um cenário internacional mais polarizado e menos tolerante a posições intermediárias.
‘A crise do multilateralismo não se resolve apenas com a mudança de orientação presidencial ou com a recuperação de uma retórica cooperativa. Ela exige condições políticas domésticas que garantam previsibilidade, sustentação institucional e capacidade de transformar compromissos internacionais em políticas efetivas’
O caso de Lula 3, portanto, ilustra que a crise do multilateralismo não se resolve apenas com a mudança de orientação presidencial ou com a recuperação de uma retórica cooperativa. Ela exige condições políticas domésticas que garantam previsibilidade, sustentação institucional e capacidade de transformar compromissos internacionais em políticas efetivas. Sem a reconstrução desses consensos internos, o multilateralismo tende a permanecer como projeto discursivo, mais do que como instrumento plenamente operacional da política externa brasileira.
Importante notar que o problema não reside nas organizações multilaterais em si. A Organização das Nações Unidas, por exemplo, continua sendo o principal fórum de articulação política global, apesar de suas limitações estruturais. O que mudou foi a disposição dos Estados em sustentar o custo político do multilateralismo: negociar, ceder, cumprir regras e aceitar mecanismos de monitoramento. Em contextos de crise democrática, esses elementos passam a ser vistos como ameaças, não como garantias.
Há, ainda, um efeito simbólico relevante. Quando grandes ou médias potências relativizam compromissos multilaterais, sinalizam que normas podem ser flexibilizadas conforme conveniência política. Isso gera um efeito cascata, estimulando comportamentos oportunistas e enfraquecendo padrões mínimos de cooperação. O resultado não é mais autonomia nacional, mas um ambiente internacional mais instável, menos previsível e, paradoxalmente, mais restritivo para países que dependem de regras para proteger seus interesses.
‘Multilateralismo não sobrevive sem legitimidade interna’
Reverter esse quadro exige mais do que reformas institucionais internacionais. Exige reconstrução de consensos domésticos sobre o papel do Estado, da democracia e da política externa. Multilateralismo não sobrevive sem legitimidade interna. E legitimidade interna não se sustenta quando instituições são sistematicamente descredibilizadas ou instrumentalizadas.
O desafio, portanto, é duplo. No plano internacional, é preciso atualizar mecanismos de governança para torná-los mais representativos e eficazes. No plano doméstico, é fundamental resgatar a compreensão de que política externa não é extensão de campanhas eleitorais nem arena para disputas identitárias simplificadoras. Ela é política de Estado e, como tal, depende de instituições sólidas, previsíveis e comprometidas com o longo prazo.
A crise do multilateralismo, assim, não é um fenômeno externo que se impõe aos Estados. Ela é produzida por eles. E só poderá ser superada quando houver disposição política interna para reconstruir a confiança nas regras, nas instituições e na cooperação como instrumentos legítimos de ação coletiva em um mundo cada vez mais interdependente.
Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
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