A revolução da direita na América Latina
Fidel Castro foi, por décadas, a figura política latino-americana de maior projeção global, exportando sua ideologia revolucionária e influenciando líderes em diferentes continentes. Segundo Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly, hoje essa visibilidade internacional é ocupada por dois líderes de perfil oposto: Javier Milei, presidente da Argentina, e Nayib Bukele, presidente de El Salvador, […]

Fidel Castro foi, por décadas, a figura política latino-americana de maior projeção global, exportando sua ideologia revolucionária e influenciando líderes em diferentes continentes. Segundo Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly, hoje essa visibilidade internacional é ocupada por dois líderes de perfil oposto: Javier Milei, presidente da Argentina, e Nayib Bukele, presidente de El Salvador, ambos representantes de uma nova direita latino-americana.
Em um artigo publicado na Foreign Affairs, Winter indica que Milei e Bukele exercem influência muito além do peso econômico de seus países. Milei tornou-se próximo de Donald Trump, recebeu um pacote de resgate de US$20 bilhões dos Estados Unidos e passou a ser elogiado por líderes conservadores europeus e empresários do Vale do Silício. Segundo o texto, sua política de redução drástica do Estado ajudou a derrubar a inflação argentina de mais de 200% para cerca de 30% em dois anos. Bukele, por sua vez, conquistou enorme popularidade regional com sua política de repressão severa ao crime, mesmo ignorando garantias legais e direitos humanos.
Segundo o autor, o verdadeiro impulso revolucionário atual na América Latina vem da direita. Ele observa que vitórias eleitorais recentes e pesquisas indicam uma guinada conservadora regional que pode alterar políticas sobre segurança pública, economia, relações exteriores e meio ambiente. O artigo destaca reeleições e vitórias conservadoras no Equador, Argentina e Bolívia, além do crescimento da direita em países como Brasil, Colômbia, Peru e Costa Rica.
De acordo com o texto, pesquisas do Latinobarómetro mostram que a identificação com a direita atingiu o maior nível em mais de 20 anos, e Bukele aparece como o político mais popular da região, enquanto Nicolás Maduro figura como o menos popular. O autor afirma que esse movimento é explicado sobretudo por fatores internos: explosão da criminalidade ligada ao narcotráfico, avanço do evangelicalismo, descrédito do socialismo após o colapso de Venezuela e Cuba e migração em massa dentro do continente.
O artigo da Foreign Affairs aponta que a direita também mudou sua imagem histórica. Antes associada a ditaduras e autoritarismo, agora se apresenta como defensora da democracia, da ordem e até de políticas sociais mínimas. Governos conservadores, segundo o autor, ampliaram gastos sociais durante a pandemia e mantiveram programas de transferência de renda, como ocorreu no Chile, no Brasil e na Argentina sob Milei.
Segundo Winter, a segurança pública tornou-se o tema central. O tráfico de drogas se expandiu enormemente, transformando países antes estáveis em territórios disputados por cartéis. O sucesso de Bukele na redução dos homicídios em El Salvador é citado como exemplo que inspira outros governos, mesmo com métodos extremos. Pesquisas mostram amplo apoio popular a políticas duras, inclusive suspensão temporária de direitos civis.
O texto ressalta que, apesar do avanço conservador, a esquerda continua competitiva e há incertezas. Trump, embora aliado de alguns líderes, é impopular na região e suas políticas tarifárias já provocaram reações nacionalistas, como no Brasil e no Panamá.
O artigo conclui que, se a guinada à direita se consolidar, a América Latina poderá adotar políticas mais favoráveis ao mercado, mais rígidas contra o crime e mais alinhadas aos Estados Unidos, com postura mais cautelosa em relação à China. Não seria uma revolução ideológica como a de Castro, mas representaria uma transformação profunda na direção política e estratégica da região.
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