13 março 2026

A Doutrina Monroe em ação

Nos últimos meses, os EUA intensificaram sua atuação na América Latina, combinando intervenções diretas, pressão política e articulação militar regional sob o que autoridades chamam de “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. A estratégia busca conter cartéis, reduzir a influência de potências externas e ampliar o acesso americano a áreas estratégicas — movimento que levanta tensões diplomáticas e desafios para o Brasil.

Donald Trump e líderes da América Latina durante encontro ‘Escudo das Américas’ (Foto: Casa Branca)

A prioridade para a América Latina na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA teve importantes desdobramentos nos últimos dois meses. 

Em janeiro, os EUA intervieram na Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro. A presidente interina Delcy Rodrigues passou a trabalhar em coordenação com Washington, na prospecção e venda de petróleo por empresas norte-americanas, na libertação de presos políticos, sem alterar os princípios básicos do regime bolivariano. 

Em fevereiro, o governo do Panamá completou os procedimentos internos para o cancelamento de contrato com empresa chinesa responsável pela operação do canal do Panamá, substituída por empresa dos EUA. 

No Equador, o governo americano enviou militares para combater cartéis criminosos. 

No Panamá, Franklin Martins, ex-ministro de Lula, foi impedido de transitar pelo aeroporto a caminho da Guatemala e deportado ao Brasil.

‘O secretário da Guerra, Pete Hegseth liderou a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis’

No início do corrente mês, o secretário da Guerra, Pete Hegseth liderou a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, da qual participaram 16 países latino-americanos. A Conferência ocorreu na sede do Comando Sul dos EUA, setor das Forças Armadas responsável por monitorar a América Latina e o Caribe. 

Da América do Sul, estavam presentes representantes da Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile e Peru. Da América Central, estavam Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago. 

Em seu discurso de abertura, Hegseth afirmou que “os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados”. 

‘O secretário enfatizou que a “coalizão” formada na Flórida expressa a política do Corolário Trump à Doutrina Monroe’

O secretário do governo Trump enfatizou que a “coalizão” formada na Flórida expressa a política do Corolário Trump à Doutrina Monroe. Incluída na Estratégia de Segurança Nacional, anunciada em dezembro pelos Estados Unidos. 

Ao explicar a nova doutrina na Conferência da Flórida, o secretário de Guerra, Pete Hegseth, afirmou que os EUA querem “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio, para que nossas nações possam se industrializar”. “Queremos impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum”, acrescentou.

Logo em seguida, no último dia 7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promoveu encontro – Escudo das Américas – com líderes latino-americanos na Flórida para a formação de uma coalizão militar contra os cartéis de drogas, em linha com a reunião com o secretário da Guerra. 

‘Trump citou os cartéis de drogas como a principal razão para intensificar o envolvimento de seu governo na América Latina’

Trump citou os cartéis de drogas como a principal razão para intensificar o envolvimento de seu governo na América Latina, pressionando a Venezuela nos últimos meses e prendendo o presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. “É uma parte maravilhosa do mundo, mas para aproveitar todo esse enorme potencial precisamos acabar com o domínio dos cartéis, das gangues criminosas e das organizações horríveis dirigidas, em alguns casos, por verdadeiros animais, e libertar de verdade o nosso povo”, disse Trump. 

Participaram da cúpula 12 chefes de Estado, entre eles, o argentino, o paraguaio e o presidente eleito do Chile. No final do encontro, foi assinado documento lançando a coalizão, apoiada formalmente por todos os líderes presentes.

Brasil, Colômbia e México, países com maiores problemas com o crime organizado e o tráfico de drogas não foram convidados para os dois encontros. 

‘México e Brasil têm informado que o combate aos cartéis na América Latina tem que ser feito respeitando a soberania dos países da região’

Os governos do México e do Brasil têm informado que o combate aos cartéis na América Latina tem que ser feito respeitando a soberania dos países da região. Lula incluiu o combate ao narcotráfico na agenda de negociações com Trump. O presidente colombiano, Gustavo Petro, reagiu à declaração do secretário estadunidense, comentando que os EUA “não precisam agir sozinhos para acabar com os cartéis de droga, pois não saberiam como fazê-lo bem. Para destruir os cartéis da máfia, precisamos nos unir”.

Os dois encontros representam um grande desafio para a política externa brasileira. 

A cúpula presidencial deu a Trump a oportunidade de projetar força mais perto de casa, mesmo que o conflito no Oriente Médio esteja acarretando consequências que ele talvez não consiga controlar totalmente, como o aumento dos preços do petróleo e do gás. 

‘A ameaça de “agir sozinho” na América Latina “se necessário”, se materializada, violaria a soberania das nações latino-americanas’

A ameaça de “agir sozinho” na América Latina “se necessário”, se materializada, violaria a soberania das nações latino-americanas, uma das bandeiras defendida por Lula.É importante ter presente que, apesar da forma e estilo de suas apresentações, Trump tem concretizado suas ameaças, como no caso da Venezuela e do Irã. Ao evocar a Doutrina Monroe, Trump ainda indica que outro objetivo é expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, e que Cuba está em seus últimos momentos de vida.

Nesse contexto, o anúncio de que o governo de Washington irá incluir oficialmente o CV e o PCC como organizações terroristas motivou telefonema de Mauro Vieira a Marco Rubio contra essa decisão em vista da disposição do governo Lula de propor uma cooperação com Trump para combater o crime organizado. 

‘Lula mostrou preocupação ao dizer publicamente que se o Brasil não se preparar adequadamente na área da Defesa’

Na semana passada, conversou por telefone com a presidente do México e da Colômbia sobre essa questão. O presidente Lula mostrou preocupação ao dizer publicamente que se o Brasil não se preparar adequadamente na área da Defesa, “alguém poderá invadir a gente”. 

Se Trump desconsiderar o pedido brasileiro e anunciar os principais grupos do crime organizado como organizações terroristas, será mais uma episódio das dificuldades no relacionamento bilateral. 

Quanto à ameaça de intervenção, o clima pode se deteriorar ainda mais se o Paraguai aceitar a presença de militares norte-americanos em seu território na fronteira com o Brasil. 

O cancelamento da autorização dada por Alexandre de Moraes para que o responsável pelos assuntos do Brasil no Departamento de Estado, Darren Beattie, visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro, vista pelo Itamaraty como uma nova forma de interferência externa, terá consequências (além da volta da lei Magnitiski).

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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