A fortaleza da democracia americana e seu impacto na economia global.
A erosão da qualidade democrática nos Estados Unidos ocorre em meio a pressões inflacionárias, perda de confiança dos investidores, desvalorização do dólar e expansão dos gastos militares, levantando dúvidas sobre a estabilidade institucional da maior economia do mundo e seus impactos sobre os mercados e a ordem internacional

Por Ellen Zuliani Soares, João Pedro Meneguete Maia, Mariana Del Fabro e Roberto Rodolfo Georg Uebel*
1. A democracia americana
A democracia norte-americana, tradicionalmente associada aos ideais de liberdade, progresso e autodeterminação, desenvolveu-se em estreita relação com a projeção internacional dos Estados Unidos e com a consolidação de sua influência econômica.
Nesse sentido, desde o século XIX, observa-se que tais valores foram mobilizados não apenas como princípios internos, mas também como instrumentos de política externa.
A Doutrina Monroe, em 1823, formulada por James Monroe, constitui um marco inicial desse processo, ao estabelecer o princípio de “América para os americanos”. Embora, à primeira vista, a doutrina defendesse a soberania das nações recém-independentes frente às potências europeias, na prática, ela inaugurou uma lógica de liderança regional dos Estados Unidos.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que afirmava valores democráticos, também criava condições estruturais para a expansão de sua influência política e sobretudo, econômica no continente americano, favorecendo a abertura de mercados, o acesso a matérias-primas e a consolidação de uma divisão internacional do trabalho na qual os Estados Unidos se posicionavam como centro dinâmico (Mundo Educação, 2024).
‘Ao reinterpretar a Doutrina Monroe, os Estados Unidos passaram a reivindicar o direito de intervir diretamente em países latino-americanos em situações de instabilidade política ou inadimplência financeira’
Nessa perspectiva, no início do século XX, essa orientação foi significativamente aprofundada com o Corolário Roosevelt, em 1904, articulado pelo presidente Theodore Roosevelt. Nesse contexto, ao reinterpretar a Doutrina Monroe, os Estados Unidos passaram a reivindicar o direito de intervir diretamente em países latino-americanos em situações de instabilidade política ou inadimplência financeira.
Consequentemente, se consolidou uma política de intervenções que, sob o discurso de manutenção da ordem e da democracia, visava garantir a estabilidade necessária aos fluxos de capital e à proteção de interesses econômicos norte-americanos.
Assim, verifica-se que a promoção da democracia esteve frequentemente entrelaçada a práticas de hegemonia, evidenciando uma tensão entre princípios normativos e objetivos estratégicos (Encyclopaedia Britannica, 2026)
Por fim, já no século XXI, essa tradição foi reinterpretada no chamado Corolário Trump, associado à administração de Donald Trump, o qual reflete uma adaptação às dinâmicas contemporâneas da globalização e da competição entre grandes potências.
‘Embora mantenha a lógica de defesa da influência hemisférica, o Corolário Trump enfatiza o protecionismo econômico, o controle migratório e a contenção da presença de atores externos’
Nesse sentido, embora mantenha a lógica de defesa da influência hemisférica, essa abordagem enfatiza o protecionismo econômico, o controle migratório e a contenção da presença de atores externos, como China e Rússia, na América Latina.
Portanto, é perceptível que a democracia americana continua sendo utilizada como fundamento discursivo para a formulação de estratégias geopolíticas que transcendem o plano político, impactando diretamente a organização da economia global, especialmente no que se refere à circulação de capitais, às relações comerciais e à hierarquização entre centros e periferias do sistema internacional (CNN, 2025).
2. Performance americana segundo V-DEM Report 2026
O Relatório de Democracias 2026, elaborado pelo instituto V-DEM, é um mecanismo de mensuração do fortalecimento dos regimes políticos realizado anualmente. O método quantitativo permite a compreensão do desempenho dos Estados a partir da classificação em ranking e em categorias. As variáveis utilizadas pelo instituto perpassam desde liberdade política e eleitoral a igualdade de acesso e participação popular (V-DEM, 2025).
Ao presente artigo, duas das categorias do relatório ganham destaque: Democracia Liberal e Democracia Eleitoral. Tais categorias identificam instituições democráticas nos países avaliados e instrumentos eleitorais elaborados, no entanto, se diferem pela ausência de alguns componentes liberais ou pela violação de alguns critérios da Democracia Liberal (V-DEM 2025).
‘Os Estados Unidos, sob o governo do presidente Trump, deixa de ser considerado uma democracia liberal, tornando-se uma democracia eleitoral, pela primeira vez desde 1975’
Nesse sentido, uma alteração nas classificações de 2025 para 2026 chamaram a atenção: os Estados Unidos, sob o governo do presidente Trump, deixa de ser considerado uma democracia liberal, tornando-se uma democracia eleitoral, pela primeira vez desde 1975 (dado mais antigo coletado pelo instituto).
Esse resultado é alarmante em vista da força da democracia americana e dos valores carregados pela nação desde sua formação e o relatório chegou a chamar esse de “o declínio mais dramático da história” (V-DEM, 2026).
3. Impactos na economia global
Diante disso, o presente artigo procura compreender os impactos globais do enfraquecimento de uma democracia até então muito bem estabelecida e, para tal, parte de uma análise econômica quantitativa. Buscando, portanto, mapear a economia americana nos últimos anos, as seguintes perspectivas se destacam:
- PIB e inflação
A economia dos Estados Unidos apresentou resiliência no primeiro trimestre de 2026, embora enfrente pressões inflacionárias e instabilidades externas. O PIB registrou um crescimento anualizado de 2,0% no primeiro período do ano, o que representa uma aceleração em comparação aos 0,5% verificados no quarto trimestre de 2025 (Trading Economics, 2026).
Esse desempenho foi sustentado pelos investimentos no setor de inteligência artificial e pela manutenção dos gastos governamentais, embora o resultado tenha ficado ligeiramente abaixo das expectativas do mercado, que projetava entre 2,2% e 2,3%. Paralelamente ao crescimento, houve uma aceleração nos índices de preços (Isto é Dinheiro, 2026).
A taxa de inflação anual atingiu 3,3% em março de 2026, o maior índice registrado desde maio de 2024, o fator determinante para esse aumento foi o conflito geopolítico no Oriente Médio, que elevou os custos de energia, com destaque para a alta de 18,9% no preço da gasolina (Reuters, 2026).
Diante desse cenário, analistas indicam que a inflação pode alcançar 4,2% no acumulado de 2026, dependendo da flutuação do petróleo Brent. No âmbito doméstico, o custo de vida permanece elevado. Os setores de moradia (+4,2%) e saúde (+3,6%) continuam a pressionar o orçamento das famílias. Em centros urbanos de alto custo, como Nova York, a média de aluguel para residências familiares ultrapassa os US$ 5.000 mensais (Expatistan, 2026).
Desse modo, em decorrência desses valores, o índice de sentimento do consumidor apresentou retração em abril de 2026. Apesar da pressão inflacionária, o mercado de trabalho mantém indicadores de estabilidade, pois pedidos de auxílio-desemprego somaram 189.000 na semana de 25 de abril, níveis historicamente baixos que indicam a manutenção da força de trabalho e a resistência do setor diante da conjuntura econômica atual (Valor Econômico, 2026).
- Exportações
Recentemente, o sistema internacional vem se deparando com um fenômeno incomum nos últimos anos, a desvalorização do dólar. Após anos da predominância do dólar perante outras moedas globais, a moeda enfrenta outros rumos no ano de 2026. Mais especificamente em abril, a moeda norte-americana chegou em seu nível mais baixo desde março de 2024, com uma cotação de R$ 4,95 frente ao real. E, de acordo com o índice DXY, que avalia o desempenho do dólar perante um conjunto de moedas fortes ao redor do mundo, também houve um recuo do dólar, evidenciando essa atual desvalorização como um acontecimento global.
‘As políticas tarifárias foram responsáveis por estimular as futuras guerras comerciais, que adicionaram mais uma camada de insegurança nos mercados mundiais’
O principal motivo responsável por esse fenômeno são as desafiadoras políticas tarifárias impostas por Trump, em abril de 2025, englobando tanto Estados aliados como inimigos. As políticas tarifárias mencionadas foram responsáveis por estimular as futuras guerras comerciais, que adicionaram mais uma camada de insegurança nos mercados mundiais.
Diante desses fatos, a confiança dos investidores se corrompeu, e os Estados Unidos deixaram de ser vistos como o porto seguro de investimentos que representavam em anos anteriores. Esse movimento, no entanto, não pode ser interpretado de forma isolada, pois reflete também a deterioração institucional americana identificada pelo V-DEM, cujo declínio democrático contribui diretamente para o enfraquecimento da credibilidade do país perante os mercados globais.
- Poder de compra
Essa desvalorização, por sua vez, impacta diretamente o poder de compra do consumidor nacional. Dessa forma, com o dólar em baixa, as importações se tornam mais caras, devido à redução do poder de compra comparado com o exterior, pressionando o custo de vida para os cidadãos norte-americanos.
Esse cenário se soma à inflação já elevada nos setores de moradia (+4,2%) e saúde (+3,6%), aprofundando o comprometimento do orçamento familiar. Além desse fato, segundo dados de um estudo realizado pela Pew Research sobre a confiança dos americanos na capacidade de Trump lidar com a economia, em abril de 2025, foi registrada uma queda de 14 pontos percentuais em comparação a novembro de 2024, evidenciando insegurança por parte da população e uma tendência de diminuição no consumo. Ainda nesse estudo, divulgaram que 49% dos americanos acreditavam que as políticas de Trump enfraqueceram a economia norte-americana, enquanto 37% acreditava que a economia estava fortalecida.
‘É possível interpretar um pessimismo generalizado por parte dos consumidores, que tende a se traduzir em retração do consumo, aumento da poupança e desaceleração do mercado interno’
A partir dessas porcentagens, é possível interpretar um pessimismo generalizado por parte dos consumidores, que tende a se traduzir em retração do consumo, aumento da poupança e desaceleração do mercado interno.
Em dados mais recentes, em abril de 2026, a Universidade de Michigan avaliou o índice de percepção do consumidor em 49,8, uma queda de 3,5 em comparação ao índice anterior (53,3) e ainda incluiu uma projeção de 47,6, indicando um pessimismo dentro da sociedade estadunidense.
No entanto, esses fenômenos transcendem a dimensão econômica, eles são o reflexo direto da erosão institucional americana, cujo declínio democrático, atestado pelo V-DEM, se materializa na crescente desconfiança dos mercados globais sobre a moeda norte-americana.
- Quesito Militar
No quesito militar, a análise foi pautada na dimensão dos gastos militares americanos nos últimos dez anos e identificou que ao longo do período avaliado os gastos militares do país corresponderam, em média, 3,4% do PIB americano (Banco Mundial, 2026), com desvio de padrão de 0,11. Assim, é evidente uma estabilidade nos gastos militares dos Estados, que está cerca de um ponto percentual acima da média mundial.
No entanto, o ano de 2020 se destaca por ser o único que foge ao desvio padrão e registra 3,65% em gastos militares, o que representa 768,69 bilhões de dólares, segundo os dados de PIB do Banco Mundial (2026). Apesar da queda percentual que segue o ano de 2020 nos gastos militares, o crescimento do PIB americano de 21,06 trilhões de dólares em 2020 para 28,75 trilhões em 2024 (Banco Mundial, 2026), um crescimento de 36,5% entre 2020 e 2024.

Gráfico 1 – Gastos militares dos Estados Unidos em % do PIB, segundo dados do Banco Mundial.
No ano de 2024, 983.250.000 bilhões de dólares foram direcionados, um salto alarmante para os anos anteriores. Nesse sentido, a tendência de militarização da economia americana é uma possível resposta ao desempenho no Relatório de Democracia do V-Dem e ao declínio para uma democracia eleitoral. Os altos gastos militares e a potência da indústria de guerra dos Estados Unidos ainda se mostra relevante para o Estado e pode ter se refletido nas demais variáveis analisadas anteriormente.
4. Considerações finais
Diante do exposto, é evidente que a instituição democrática nos Estados foi estabelecida desde sua constituição, vinculada à ideia de progresso e muito voltada nos últimos anos para a projeção internacional. No entanto, sua eficácia como mecanismo de propagação de direitos e liberdades vem se degradando, refletindo em um declínio de democracia liberal para a categoria de democracia eleitoral, segundo o V-DEM Institute.
Esse desempenho se reflete no curto prazo em indicadores econômicos como a inflação de 18,9% no preço da gasolina, mantendo o custo de vida elevado e reduzindo o poder de compra da população. A depreciação na taxa de câmbio também indica um enfraquecimento da credibilidade do país e de sua moeda, o que dialoga com o aumento efetivo dos gastos militares.
‘É evidente que o declínio democrático dos Estados Unidos se deve não a um evento isolado, mas sim a um processo econômico, social e militar e afeta além da própria sociedade americana, o sistema internacional’
Portanto, é evidente que o declínio democrático dos Estados Unidos se deve não a um evento isolado, mas sim a um processo econômico, social e militar e afeta além da própria sociedade americana, o sistema internacional, que passa a conviver agora com uma potência mais instável e imprevisível, cujas pretensões de projeção internacional se mantém. Esse é sem dúvidas um cenário que deve ser monitorado.
Referências
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*Ellen Zuliani Soares, João Pedro Meneguete Maia e Mariana Del Fabro são pesquisadores do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM. Roberto Rodolfo Georg Uebel é coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM.
Roberto Rodolfo Georg Uebel é professor do curso de relações internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
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