21 janeiro 2026

A invasão da Groenlândia, se acontecer, será o maior erro geopolítico desde a Segunda Guerra Mundial

A hipótese de uma invasão da Groenlândia por parte dos EUA, direta ou disfarçada sob o argumento de “segurança estratégica”, é diplomaticamente indefensável e irracional. Caso venha a concretizar-se, conformará um dos maiores erros geopolíticos do mundo contemporâneo, comparável apenas às decisões tomadas pela Alemanha ao invadir a Polônia, em 1939, que precipitaram a eclosão […]

Na imagem, produzida por inteligência artificial, que o presidente americano Donald Trump publicou em seu perfil na rede Truth Social, ele aparece fincando a bandeira americana na ilha ao lado do secretário de Estado Marco Rubio e do vice, J. D. Vance, com uma placa indicando: “Groenlândia – Território dos EUA – Estabelecido em 2026”. Donald Trump no Truth Social

A hipótese de uma invasão da Groenlândia por parte dos EUA, direta ou disfarçada sob o argumento de “segurança estratégica”, é diplomaticamente indefensável e irracional.

Caso venha a concretizar-se, conformará um dos maiores erros geopolíticos do mundo contemporâneo, comparável apenas às decisões tomadas pela Alemanha ao invadir a Polônia, em 1939, que precipitaram a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

O problema central não está no custo militar imediato, mas nos efeitos sistémicos: a erosão das alianças, a perda de legitimidade das normas internacionais e o abalo da ordem liberal sustentada pelo Ocidente desde 1945.

Nos últimos dias, repetidas declarações de Trump defendendo que Washington, “gostem ou não”, deveria controlar o território groenlandês geraram uma reação inédita da Europa. Inclusive, a Casa Branca alegou que a “intervenção militar sempre é uma opção”.

A União Europeia marcou para quinta-feira (22) uma reunião de emergência entre os líderes do bloco para discutir a resposta que será dada aos EUA após a ameaça de tarifas sobre oito países europeus até que os norte-americanos consigam comprar a Groenlândia.

A pedido da Dinamarca, já que a Groenlândia é parte integrante de seu território, tropas da Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda e Reino Unido anunciaram mobilizações conjuntas na ilha do Ártico. Mesmo assim, a Casa Branca sustenta que o presidente Trump continua tendo como objetivo “tomar” ou “comprar” a Groenlândia.

Rapidamente, o Parlamento Europeu divulgou uma declaração conjunta dos líderes dos grupos políticos condenando de forma inequívoca as declarações da administração Trump em relação à Groenlândia, “que constituem um desafio flagrante ao direito internacional, aos princípios da Carta das Nações Unidas e à soberania e integridade territorial de um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)”.

Na última quarta-feira, autoridades da Dinamarca e da Groenlândia conversaram com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Após o encontro, os dinamarqueses afirmaram um “desacordo fundamental” com Trump sobre o futuro da ilha, embora ambos os lados tenham concordado em discutir as preocupações acerca da segurança dos EUA na região do Ártico.

O pretexto da segurança no Ártico hoje, a disputa por minerais estratégicos amanhã

O argumento da segurança tem sido apresentado como a justificativa imediata. Assim, os EUA sustentam que a Groenlândia seria parte central da sua segurança nacional, sob a alegação de que Rússia e China estariam ampliando sua presença e influência no Ártico.

A Chinarespondeu que Washington utiliza terceiros como pretexto para avançar interesses próprios,enquantoMoscourepudiouoenvio de tropas daOtan àGroenlândia,denunciando uma “militarização acelerada” da região.

Na prática, a retórica oficial enquadra a ilha como um ativo defensivo indispensável diante dos três maiores rivais bélicos da atualidade – EUA, Rússia e China.

No entanto, esse enquadramento tende a ocultar uma dimensão de longo prazo ainda mais relevante. Para além da segurança imediata, o território groenlandês insere-se num espaço que concentra minerais estratégicos, terras raras e recursos essenciais para a transição energética e para as indústrias de alta tecnologia.

À medida que o degelo amplia o acesso a essas riquezas, o Ártico deixa de ser apenas uma fronteira militar e passa a ser igualmente uma fronteira econômica.

Nesse sentido, o discurso da contenção da Rússia e da China hoje pode funcionar como a base política para, no futuro, assegurar o controle sobre recursos minerais estratégicos de valor crescente.

Um erro estratégico contra aliados, não contra rivais

O problema central é que, ao procurar defender seus interesses contra “potências rivais à hegemonia”, os EUA podem cometer um erro estratégico grave contra os próprios aliados europeus.

A Groenlândia não é um território hostil nem um vazio de poder. Não é o mesmo que atacar o Irã, a Nigéria%20no%20noroeste%20da%20Nig%C3%A9ria. “”) ou a Venezuela. Isto porque trata-se de uma região vinculada à Dinamarca, aliada do Ocidente, membro da União Europeia (UE) e membro fundador da Otan.

Assim sendo, qualquer ação coerciva contra a ilha equivaleria, na prática, a um ataque a um aliado – minando o artigo 5º da Otan – rompendo o princípio fundamental da segurança coletiva euro-atlântica: a confiança mútua entre os parceiros.

À luz da teoria do realismo ofensivo, formulada por John Mearsheimer em The Tragedy of Great Power Politics, o comportamento das grandes potências organiza-se em torno de três premissas centrais: a busca permanente pela maximização do poder relativo; o caráter essencialmente instrumental e contingente das alianças; e a baixa tolerância de Estados líderes à autonomia excessiva de seus aliados.

Sob essa perspectiva, as pressões sobre a Groenlândia revelam menos uma necessidade objetiva de segurança e mais uma lógica de hegemonia e controle estratégico dos EUA.

O paradoxo é que tal lógica, quando aplicada aos aliados, gera autossabotagem estratégica. Logo, ao sinalizar que alianças são condicionais e reversíveis, a potência líder enfraquece a credibilidade das garantias de defesa, incentiva a Europa a buscar autonomia estratégica e “sepulta” a própria Otan.

O precedente histórico do colapso normativo

A história oferece um alerta incontornável. Em 1939, o erro de cálculo estratégico de Hitler foi acreditar que o Reino Unido e a França não reagiriam militarmente à invasão da Polônia. O resultado foi a eclosão da Segunda Guerra Mundial (veja Martin Gilbert, em A Segunda Guerra Mundial: a história completa, vol. 1).

Evidentemente, a Groenlândia de 2026 não é a Polônia de 1939. Contudo, a dinâmica dos acontecimentos é perigosamente semelhante: quando grandes potências passam a tratar a soberania como variável negociável, o sistema internacional entra em rota de colapso.

Os custos de uma invasão da Groenlândia seriam menos militares e mais normativos. O Ocidente construiu sua legitimidade internacional no pós-Segunda Guerra Mundial com base na defesa da soberania, da integridade territorial e do direito internacional.

Nesse sentido, a advertência de Emmanuel Macron é central. “A violação da soberania da Groenlândia acarretaria consequências em cascata sem precedentes”.

Se ocorrer, a invasão da Groenlândia será lembrada como o maior erro geopolítico do pós-guerra.


Filipe Prado Macedo da Silva, Professor e Pesquisador do Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI), Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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