A parceria estratégica Brasil-Índia
Relação bilateral entre os dois países se faz importante em um mundo em grande transformação e com crescentes incertezas, em que a busca de diversificação comercial em todas as áreas se impõe, diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial

Ao longo das últimas décadas, dois países importantes para o Brasil nunca estiveram nas prioridades políticas e comerciais dos governos brasileiros e do setor privado: a Índia e o México. Essa situação começa a mudar em relação a Índia e poderá mudar em relação ao México, caso os EUA decidam terminar com o acordo comercial (ex-Nafta).
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou, no mês passada, visita de Estado a Índia, em paralelo a sua participação na Cúpula da IA, organizada pelo governo indiano. No encontro internacional sobre IA, Lula defendeu uma governança global com a criação de um mecanismo de coordenação internacional. A declaração final, firmada por 86 países (sem os EUA) visou a criação de um quadro legal para a prevalência do controle humano e para o desenvolvimento dos países, que terá grande relevância futura, caso seja efetivamente implementado.
‘A busca de diversificação comercial em todas as áreas se impõe, diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial’
No tocante às relações bilaterais, em um mundo em grande transformação e com crescentes incertezas, a busca de diversificação comercial em todas as áreas se impõe, diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial. Nos setores de ponta — como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial, defesa — as oportunidades com novos parceiros são inúmeras. O Brasil deve continuar a expandir suas relações com o mundo — sem distinção ou alinhamentos automáticos.
A visita à Índia se insere nesse contexto e poderá se desenvolver positivamente para tornar os dois países motores de um novo modelo de desenvolvimento. O Brasil mantém com a Índia uma parceria estratégica desde 2006, pouco aproveitada, e que, somente agora, começa a concretizar-se.
O comércio bilateral alcançou US$ 15,2 bilhões em 2025, número ainda está muito aquém do potencial para economias do porte dos dois países. Os dois governos projetam um intercâmbio comercial de mais de US$ 20 bilhões nos próximos anos. Para tanto, será necessário ampliar significativamente o Acordo de Comércio Preferencial Mercosul–Índia, que vigora desde 2009, substituindo-o por um acordo de livre-comércio, mais abrangente e ambicioso.
Os acordos assinados ao final da visita, na prática, são cartas de intenções:
- O acordo sobre minerais críticos, com a preferência dos dois países na compra desses minérios, foi um dos mais importantes, pois, a transição energética e digital não se fará sem minerais críticos. O Brasil conta com, pelo menos, 26% das reservas mundiais de minerais críticos, tendo apenas 30% de seu território prospectado.
- A Parceria Digital (a primeira dessa natureza assinada pelo Brasil) para ampliar a cooperação em inteligência artificial, computação de alto desempenho e startups de base tecnológica.
- A Aliança Global para Biocombustíveis pode criar um mercado mundial, transformando os desafios da transição energética e da mudança do clima em oportunidades. A Índia é o mercado de bioenergia que mais cresce no mundo, e o Brasil tem meio século de experiência com o etanol e motores flex.
Os setores agropecuário e de saúde são outras áreas em que os dois países podem ampliar a cooperação.
No setor agropecuário, o Brasil e a Índia são o segundo e o quarto maiores produtores de alimento do mundo. O Brasil vende sua genética animal para Índia e poderá cooperar na integração de cadeias produtivas agrícolas, na inovação tecnológica, no uso sustentável do solo e na segurança alimentar global.
‘Os dois países têm um histórico de atuação conjunta para garantir acesso amplo e barato de medicamentos genéricos para populações de baixa renda’
O Complexo Industrial da Saúde é outra vertente estratégica da cooperação e do comércio bilaterais. A Índia é um grande fornecedor de insumos farmacêuticos para o Brasil. Os dois países têm um histórico de atuação conjunta para garantir acesso amplo e barato de medicamentos genéricos para populações de baixa renda e para países em desenvolvimento. Foram assinados três acordos de parceria estratégica da Fiocruz com empresas locais para desenvolvimento conjunto de vacinas, medicamentos e insumos essenciais.
Por outro lado, a indústria brasileira é competitiva em vários setores de elevado conteúdo tecnológico e valor agregado, como o aeronáutico e o espacial. A Índia já é o terceiro maior mercado de aviação comercial do mundo e um dos maiores mercados globais de defesa, com ambiciosos programas de modernização. Em ambas as áreas, o Brasil está pronto para cooperar. Os acordos assinados pela Embraer com o Grupo Adani e a Mahindra vão propiciar a produção de aeronaves comerciais e de defesa na Índia.
Espera-se que essas cartas de intenção possam se concretizar para elevar o nível do relacionamento bilateral com a India.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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