11 setembro 2023

As democracias mais poderosas do mundo foram construídas sobre o sofrimento de outros

Professor aborda a retórica de confronto entre “democracias e autocracias” proclamada pelo presidente dos EUA, Joe Biden, defendendo que esta narrativa ignora o histórico de intervenções e apoio a regimes autoritários no exterior. Ao analisar as origens sombrias das democracias ocidentais e a ascensão da China, o autor critica a hipocrisia do Ocidente e enfatiza a importância da cooperação global diante das ameaças atuais, apontando a necessidade de uma abordagem mais humilde nas relações internacionais.

Professor aborda a retórica de confronto entre “democracias e autocracias” proclamada pelo presidente dos EUA, Joe Biden, defendendo que esta narrativa ignora o histórico de intervenções e apoio a regimes autoritários no exterior. Ao analisar as origens sombrias das democracias ocidentais e a ascensão da China, o autor critica a hipocrisia do Ocidente e enfatiza a importância da cooperação global diante das ameaças atuais, apontando a necessidade de uma abordagem mais humilde nas relações internacionais.

Em julho de 2013, apoiadores do presidente democraticamente eleito do Egito, Mohammed Morsi, entoam slogans contra o ministro da Defesa egípcio, general Abdel-Fattah el-Sissi, na cidade de Nasr, no Cairo, Egito. (AP Photo/Hassan Ammar)

Por Shaun Narine*

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, classificou o conflito entre o mundo ocidental e seus concorrentes como um choque entre “democracias e autocracias”. Isso mascara o desejo americano de poder e as complexas realidades da criação de democracias.

Supõe-se que democracias baseiam a legitimidade de um Estado em sua responsabilidade perante seu povo. Apoia as liberdades e os direitos humanos dos indivíduos. O que esses ideais significam na prática e como alcançá-los são questões difíceis.

Mas está claro que os EUA não são mais campeões credíveis ou um exemplares de democracia.

Na realidade, os Estados Unidos tem uma longa história de derrubada e enfraquecimento de democracias no exterior.

Um histórico conturbado com a democracia

A administração de Barack Obama, por exemplo, aprovou o golpe militar que derrubou a democracia no Egito e encerrou as revoltas da Primavera Árabe em 2013.

“Os EUA também têm uma longa história de apoio a regimes autoritários”

Os EUA também têm uma longa história de apoio a regimes autoritários. Deixando claro que ser autoritário não impede nenhum país de aderir à sua coalizão contra a China.

Os próprios EUA são uma democracia falida – ou talvez uma descrição melhor seja uma plutocracia com embelezamentos democráticos.

A política americana foi corrompida pelo dinheiro, os direitos civis estão sob ataque, a repressão eleitoral é frequente e a desconfiança e a divisão social são onipresentes. Em 2021, apenas 50% dos americanos disseram acreditar que vivem em uma democracia.

A Rússia usou as mídias sociais para interferir em eleições ao redor do mundo. A China tem tentado influenciar as comunidades da diáspora. Mas não há muitas evidências de que essas atividades sejam coordenadas e elas empalidecem em comparação com a onipresença e a influência da interferência americana.

Os EUA não têm “defendido a democracia”. Tem defendido seu poder e privilégios em um sistema global desigual.

As origens sombrias das democracias ocidentais

Esta não é a única maneira pela qual o conceito de democracia foi mal utilizado pelos Estados Unidos e outras nações ocidentais.

Muitos países do Ocidente fornecem a seus cidadãos os mais altos padrões de vida e liberdade do mundo. Como eles chegaram lá é algo que muitos convenientemente esquecem.

A tendência do mundo ocidental de se ver como o pináculo da civilização e da moralidade tem sido usada para justificar a dominação global e a intervenção no resto do mundo.

“Os EUA foram construídos do genocídio e da escravidão”

Os sucessos contemporâneos de algumas das democracias mais poderosas são o resultado da subjugação e exploração de outras pessoas dentro e fora de suas fronteiras. Os EUA foram construídos do genocídio e da escravidão.

O Canadá está apenas começando a reconhecer sua história de genocídio cultural. Todos os Estados europeus que praticaram o colonialismo lucraram dessa brutalidade.

Os britânicos extraíram mais de US$ 45 trilhões em riquezas da Índia entre 1765 e 1938 e destruíram a economia do país.

A Revolução Industrial do Reino Unido foi financiada pela pilhagem indiana. Dezenas de milhões de indianos morreram como resultado das políticas econômicas da Grã-Bretanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill deliberadamente implementou políticas que criaram e exacerbaram a Fome de Bengala, que matou mais de três milhões de indianos.

Escondendo a verdade

A amnésia ocidental sobre sua história brutal é deliberada. Quando o Império Britânico terminou, lançou a Operação Legado, a destruição de milhões de documentos detalhando toda a extensão das atrocidades britânicas em suas colônias.

A Bélgica escondeu a verdade sobre a cruel exploração do Congo Belga pelo rei Leopoldo, que envolveu o assassinato de 10 milhões de pessoas.

Nos EUA, a campanha da direita política contra a teoria crítica racial sufoca a realidade histórica e o legado do racismo americano.

“Para estados empobrecidos, a democracia pode realmente exacerbar as divisões sociais”

A democracia não é uma panaceia para a miséria e as desigualdades humanas. Para Estados empobrecidos, a democracia pode realmente exacerbar as divisões sociais.

Exatamente o que torna uma democracia bem-sucedida não é claro, embora pareça ser a “boa governança”. O que é claro é que democracias não podem ser simplesmente desejadas. A maioria dos estados ocidentais só oferecem exemplos de construção de democracias que se basearam em extrema violência militar, política e social.

A democracia, em princípio, é um objetivo desejável. A maior parte do mundo apoia a doutrina da “responsabilidade de proteger” – a ideia de que os Estados têm obrigações básicas para seus cidadãos. No entanto, a maioria não apoia intervenções militares para promover esses objetivos ostensivos. Eles estão cientes das grandes dificuldades envolvidas em fazer uma democracia funcionar.

Os Estados Ocidentais argumentam que apenas democracias são estados legítimos porque são apoiadas pelo consentimento de seus cidadãos. Esse não é o caso da maioria dos estados autoritários.

Prosperidade Chinesa

No entanto, a China – o principal alvo da campanha americana “democracia versus autoritarismo” – complica a “narrativa democrática”. Um estudo meticuloso e de longo prazo de Harvard descobriu que a grande maioria dos cidadãos chineses apoiam seu governo nacional. Outras pesquisas chegaram à mesma conclusão geral.

Esse apoio pode refletir, em parte, as normas e experiências culturais e históricas da China, mas é principalmente atribuído ao quanto a vida do povo chinês melhorou.

O Partido Comunista Chinês (PCC) supervisionou 40 anos de crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história mundial. O PIB per capita chinês aumentou de US$ 195 em 1980 para US$ 12.556 em 2021. Cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza. Como qualquer governo, democrático ou não, a legitimidade do PCC reflete sua atuação.

“A China, no entanto, não está promovendo agressivamente seu modelo político”

A China, no entanto, não está promovendo agressivamente seu modelo político ao redor do mundo, ao contrário dos esforços muitas vezes violentos, coercitivos e seletivos do Ocidente pela democracia liberal.

As democracias ocidentais podem ajudar melhor o mundo fazendo mais para viver de acordo com seus ideais mais elevados e abordando suas relações com o resto do mundo com humildade nascida da consciência histórica.

A única ameaça existencial que todo o planeta enfrenta são as mudanças climáticas. A cooperação dentro de toda a comunidade internacional é mais importante do que nunca e exigirá transformações econômicas e políticas globais.

A estratégia americana e ocidental de fomentar a divisão global para manter um status quo nocivo é, na melhor das hipóteses, contraproducente.


Shaun Narine é professor de relações internacionais e ciência política em St. Thomas University no Canadá


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.

Tradução de Julia Gonzalez


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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