Brasil como ator estratégico em tempos de tensionamento mundial
A abundância de recursos naturais e a liderança agroalimentar, longe de serem apenas ativos de influência, podem transformar o Brasil em um alvo de disputa ou coerção pelas grandes potências eurasianas e pela superpotência norte-americana. Na ausência de capacidades militares compatíveis com sua extensão territorial e econômica, o país corre o risco de ser reduzido a um objeto da política externa alheia, em vez de sujeito

Do ponto de vista geopolítico, o Brasil ocupa uma posição singular no tabuleiro internacional. Em um cenário hipotético de conflito entre o bloco eurasiano (liderado por China e Rússia) e o eixo formado por Estados Unidos e Europa, o país surge como uma peça estratégica de difícil substituição.
O Brasil é o único Estado que participa simultaneamente da Organização dos Estados Americanos (OEA) e dos Brics, o que lhe confere uma capacidade de transitar entre polos de poder distintos, dialogando tanto com a arquitetura hemisférica de segurança quanto com o bloco emergente das potências eurasianas.
Além da condição institucional, o país dispõe de atributos estruturais que reforçam sua relevância.
‘Seu vasto território, população expressiva e abundância de recursos tornam-no um ator indispensável em dinâmicas de conflito prolongado’
Seu vasto território, população expressiva e abundância de recursos — como petróleo, minérios críticos e uma das maiores reservas de água doce do planeta — tornam-no um ator indispensável em dinâmicas de conflito prolongado. Somado a isso, sua capacidade agrícola seria fundamental para a manutenção da segurança alimentar global, ampliando sua influência sobre nações dependentes de importações.
Historicamente, essa posição é sustentada por uma tradição de não alinhamento e busca pelo multilateralismo.
Entretanto, sob a ótica do realismo estrutural de Kenneth Waltz, essa suposta “singularidade” brasileira deve ser encarada com ceticismo. Para Waltz, o sistema internacional é definido pela anarquia e pela distribuição de capacidades. Nesse sentido, a relevância de um Estado não advém de sua diplomacia ou participação em fóruns e organizações (como a OEA ou Brics), mas de seu poder material relativo.
‘Em um cenário de conflito entre grandes potências, o Brasil, enquanto potência média ou regional, teria sua autonomia severamente limitada pelas pressões sistêmicas’
Em um cenário de conflito entre grandes potências, o Brasil, enquanto potência média ou regional, teria sua autonomia severamente limitada pelas pressões sistêmicas. Para o neorrealismo, a “neutralidade ativa” brasileira pode ser interpretada não como uma escolha soberana, mas como uma vulnerabilidade: a falta de meios militares para projetar poder e garantir sua própria segurança sem depender do equilíbrio entre os gigantes.
Dessa forma, a análise de Waltz sugere que a abundância de recursos naturais e a liderança agroalimentar, longe de serem apenas ativos de influência, podem transformar o Brasil em um alvo de disputa ou coerção pelas grandes potências eurasianas e pela superpotência norte-americana. Na ausência de capacidades militares compatíveis com sua extensão territorial e econômica, o país corre o risco de ser reduzido a um objeto da política externa alheia, em vez de sujeito.
A “ponte” que o Brasil pretende ser entre os blocos só se sustenta enquanto houver um equilíbrio de forças; caso a polaridade se defina de forma agressiva, as potências médias são frequentemente forçadas ao alinhamento pela lógica da sobrevivência, independentemente de suas tradições diplomáticas.
‘O papel do Brasil em um conflito global não seria determinado por sua vocação mediadora, mas pela forma como as superpotências calculariam o custo-benefício de respeitar ou violar a neutralidade brasileira’
Em última análise, o papel do Brasil em um conflito global não seria determinado por sua vocação mediadora, mas pela forma como as superpotências calculariam o custo-benefício de respeitar ou violar a neutralidade brasileira.
O protagonismo efetivo do país, portanto, dependeria menos de sua retórica multilateralista e mais de uma conversão urgente de seus recursos em capacidades de defesa e dissuasão, garantindo que sua posição estratégica não se torne sua maior fraqueza estrutural no tabuleiro do poder mundial.
Anthony Inforçatti Oaks é Acadêmico do curso de Relações Internacionais (ESPM) e Pesquisador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Roberto Rodolfo Georg Uebel é professor do curso de Relações Internacionais (ESPM) e Coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Anthony Inforçatti Oaks é professor do curso de relações internacionais da ESPM e pesquisador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
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