19 setembro 2022

Brasil: como políticos populistas usam a religião para ajudá-los a vencer

O uso da religião para reforçar a ambição política não é novidade, mas novo estudo sugere que nos últimos anos a religião foi usada como capital político de uma maneira distinta entre os populistas. Ela ganha força por causa das semelhanças ideológicas entre o populismo e certas formas de religião que aspiram a transformar a ordem social

O uso da religião para reforçar a ambição política não é novidade, mas novo estudo sugere que nos últimos anos a religião foi usada como capital político de uma maneira distinta entre os populistas. Ela ganha força por causa das semelhanças ideológicas entre o populismo e certas formas de religião que aspiram a transformar a ordem social

O presidente Jair Bolsonaro e sua esposa, Michele, durante culto religioso

Por Mathew Guest*

A eleição presidencial brasileira deste ano oferece um vislumbre de como os líderes populistas do século XXI estão usando a religião para entusiasmar sua base de apoio. O atual líder de direita Jair Bolsonaro chegou ao poder em 2018 com o apoio de eleitores cristãos evangélicos que se entusiasmaram com seu conservadorismo social.

Enquanto algumas pesquisas sugerem que esse apoio pode ter se desgastado desde então, Bolsonaro continua cortejando o apoio evangélico. Ele enquadrou a eleição como uma batalha entre o “bem” temente a Deus e o “mal” da oposição.

Em 13 de agosto de 2022, ele estava sendo apoiado no comício Marcha por Jesus no Rio de Janeiro entre milhares de seus apoiadores evangélicos. O candidato da oposição e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está tentando reconquistar esses votos invocando linguagem religiosa, refletindo como Bolsonaro reformulou o cenário político.

Isso é em parte uma questão de números – os protestantes evangélicos representam cerca de um terço da população brasileira (estimados em cerca de 70 milhões de pessoas) – mas também é uma questão de estilo político.

Bolsonaro procura o eleitor evangélico conservador porque ele precisa do voto deles, mas também porque sua linguagem e valores se alinham bem com sua mensagem populista. Central para a política de Bolsonaro é uma agenda conservadora pró-família que inclui visões negativas da homossexualidade e do aborto.

Os políticos populistas adotam um estilo distinto. Eles são predominantemente nacionalistas, alegando representar a verdadeira vontade do povo, e ainda assim o fazem dividindo a sociedade em campos binários: quem pertence e quem não pertence a ela.

Mas esse alinhamento do populismo de direita a uma base cristã não se restringe apenas ao Brasil. Vemos isso no autoritarismo otimista de líderes como o ex-presidente dos EUA Donald Trump, a líder de extrema direita francesa Marine le Pen e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

De acordo com os sociólogos Andrew Whitehead e Samuel Perry, a ascensão de Trump ao poder coincidiu com um aumento do nacionalismo cristão. Eles descrevem o nacionalismo cristão como uma “estrutura cultural – uma coleção de mitos, tradições, símbolos, narrativas e sistemas de valores – que idealiza e defende uma fusão do cristianismo com a vida cívica americana”.

Em sua pesquisa, Whitehead e Perry descobriram que os cidadãos norte-americanos que mais apoiavam o nacionalismo cristão são mais propensos a apoiar tipos autoritários de liderança, modelos “tradicionais” de família e uma compreensão da identidade americana que privilegia aqueles que são cristãos, brancos e nativos. Eles também eram mais propensos a votar em Trump em 2016.

Bolsonaro, conhecido por alguns como o “Trump dos Trópicos”, é um admirador declarado do ex-presidente dos EUA. Narendra Modi permaneceu um forte defensor do nacionalismo hindu durante seu mandato como primeiro-ministro da Índia.

Na Turquia, Recep Tayyip Erdogan, presidente ou primeiro-ministro durante a maior parte dos últimos 20 anos, reuniu um populismo islâmico. O Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan afirma defender os valores da maioria muçulmana da Turquia contra sua elite secular.

Divisões binárias

A ligação entre religião e populismo é, em parte, uma questão de retórica. O populismo favorece a linguagem das distinções binárias –verdade e mentira, certo e errado, nós e eles, cidadão e imigrante. Certas formas de religião organizam o mundo em categorias similarmente dualistas, baseadas na crença de que o universo é divinamente ordenado para ser assim.

Os populistas também afirmam apelar diretamente à vontade do povo, rejeitando a autoridade das “elites”, atacando a mídia, o establishment político, as universidades, a intelectualidade ou os grandes empresários.

O populismo nem sempre está associado à religião e nem sempre os populistas usam linguagem religiosa. Mas a conexão é forte, mesmo que nem sempre seja simples. Por exemplo, a religião não é universalmente adotada pelos populistas como aliada.

Em toda a Europa, o sentimento anti-islâmico há muito é invocado por movimentos nacionalistas de direita. O partido Rassemblement national de Marine le Pen (anteriormente Front National) agora faz campanha pela “desislamização” da França, apresentando os muçulmanos como uma ameaça à segurança e uma presença cultural alienígena. A religião serve como um marcador de quem não pertence.

Coalizões de movimentos populistas religiosos encontraram causa comum em sua oposição ao que é apresentado como uma agenda liberal, “acordada”. A recente aparição de Orbán na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no Texas fornece um exemplo impressionante. O CPAC se tornou um importante ponto de encontro para nacionalistas cristãos nos EUA, e a reunião deste ano culminou em um discurso de encerramento de Trump.

Como Trump, Orbán caracteriza suas ambições políticas como uma luta contra os “inimigos da liberdade”, uma “guerra cultural” com as forças do liberalismo “acordado”. Dirigindo-se aos delegados do CPAC, ele descreveu a Hungria como “uma nação velha e orgulhosa, mas do tamanho de Davi, sozinha contra o Golias globalista”.

Uso de imagens religiosas

O uso de imagens bíblicas por Orbán não é único entre os políticos populistas. Trump foi comparado por alguns apoiadores ao rei Davi: um líder imperfeito, mas ungido.

Trump avançou a causa cristã evangélica por meio de suas decisões como presidente. Ele usou seu poder executivo para cortejar o voto cristão conservador, com consequências monumentais para o povo americano.

Durante seus quatro anos no cargo, ele nomeou três juízes para a Suprema Corte dos EUA, inclinando a balança para uma direção conservadora e reforçando sua posição com a direita cristã. Isso levou à polêmica derrubada da decisão que protegia o direito das mulheres americanas de ter acesso ao aborto desde 1973.

O uso da religião para reforçar a ambição política não é novidade. Mas minha pesquisa sugere que nos últimos anos a religião foi usada como capital político de uma maneira distinta entre os populistas.

Estamos testemunhando o uso estratégico e cínico da religião como meio de promover agendas nacionalistas e conservadoras. Ela ganha força justamente por causa das semelhanças ideológicas entre o populismo e certas formas de religião que aspiram a transformar a ordem social.

Ainda não está claro como essas mudanças influenciam as comunidades religiosas em nível de base. Mas onde os alinhamentos com as tradições religiosas dão frutos políticos – como no Brasil, nos EUA e na Turquia – podemos esperar que aqueles que buscam o poder continuem tentando usá-lo para seus próprios fins.


*Mathew Guest é professor de sociologia da religião na Durham University


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Cadastre-se para receber nossa Newsletter