Brasil e Romênia aproximam criatividade, inovação e tecnologia em agenda estratégica inédita
A realização do primeiro fórum bilateral dedicado à economia criativa, inovação e tecnologia inaugura uma nova frente da diplomacia econômica brasileira, aproximando empresas, startups, universidades e setores culturais dos dois países em busca de negócios, investimentos e cooperação de maior valor agregado

No mês de maio, Bucareste sediou o I Fórum Brasil–Romênia de Economia Criativa, Inovação e Tecnologia, iniciativa pioneira organizada pela Embaixada do Brasil na Romênia e que representa uma mudança importante na forma como o Brasil vem conduzindo sua diplomacia econômica no exterior.
Mais do que um fórum tradicional de negócios, o evento reuniu representantes dos setores de tecnologia, audiovisual, literatura, inovação, inteligência artificial, marketing, economia criativa e transformação digital, consolidando uma agenda bilateral moderna e conectada às novas dinâmicas econômicas globais.
Sob liderança do embaixador Ricardo Guerra de Araújo, o encontro buscou posicionar o Brasil não apenas como exportador de commodities, mas como parceiro estratégico em setores intensivos em conhecimento, criatividade e tecnologia. A iniciativa também reforça o papel crescente da Romênia como plataforma de acesso ao Leste Europeu e hub tecnológico emergente dentro da União Europeia.
‘Para o embaixador Ricardo Guerra de Araújo “era necessário inovar também na forma de promover o Brasil no exterior”’
Segundo o próprio embaixador, “era necessário inovar também na forma de promover o Brasil no exterior”, rompendo com o modelo tradicional de fóruns focados exclusivamente em agricultura, energia ou infraestrutura. O Fórum nasce justamente da percepção de que áreas ligadas à economia criativa, à tecnologia e à inovação passaram a ocupar espaço central nas relações internacionais contemporâneas.
O caráter pioneiro da iniciativa chama atenção. Conforme destacou Ricardo Guerra, trata-se de um formato ainda inédito no âmbito do Itamaraty, voltado especificamente à economia criativa. A proposta amplia significativamente o conceito de diplomacia econômica ao integrar cultura, tecnologia, inovação e negócios como partes de uma mesma estratégia internacional.
A programação do Fórum incluiu rodadas de negócios, reuniões B2B, encontros institucionais, debates acadêmicos e uma série de conexões empresariais entre companhias brasileiras e romenas. Um dos focos mais relevantes esteve no setor de tecnologia da informação.
‘A embaixada identificou forte demanda por reuniões envolvendo empresas dos setores de TI, inteligência artificial e transformação digital’
Durante a preparação do evento, a embaixada identificou forte demanda por reuniões envolvendo empresas dos setores de TI, inteligência artificial e transformação digital. Como resultado, foram organizadas mais de dez reuniões virtuais entre companhias brasileiras e romenas, envolvendo nomes como Brasoftware, Dadosfera, BRASSCOM, ABRIA e Tecsoft, entidades ligadas ao ecossistema tecnológico brasileiro.
A iniciativa ocorre em um momento particularmente relevante para a relação bilateral. Em entrevista concedida durante o Fórum, o embaixador destacou que o comércio entre Brasil e Romênia alcançou US$ 714,2 milhões em 2025, com recuperação importante das exportações brasileiras, embora ainda exista desequilíbrio na pauta comercial.
Enquanto o Brasil exporta principalmente soja, petróleo e café, a Romênia vende ao Brasil produtos industriais e manufaturados de maior valor agregado, especialmente autopeças e itens tecnológicos.
Esse cenário reforça justamente a necessidade de diversificação da presença brasileira no mercado romeno e europeu. “É essencial ampliar a participação brasileira em segmentos mais inovadores e tecnologicamente intensivos”, afirmou o embaixador.
‘A Romênia, por sua vez, vive um momento de consolidação como um dos polos tecnológicos mais dinâmicos do Leste Europeu’
A Romênia, por sua vez, vive um momento de consolidação como um dos polos tecnológicos mais dinâmicos do Leste Europeu. Cidades como Cluj-Napoca já são frequentemente chamadas de “Vale do Silício” romeno, graças à concentração crescente de startups, empresas de software, centros de pesquisa e profissionais altamente qualificados. Nesse ambiente, o Brasil encontra oportunidades competitivas em áreas como inteligência artificial, software corporativo, transformação digital, cibersegurança, marketing digital e soluções aplicadas à indústria.
O embaixador também destacou exemplos concretos dessa aproximação tecnológica. Empresas brasileiras como Stefanini e VTEX já possuem presença na Romênia, enquanto companhias de origem romena, como Bitdefender, expandiram suas operações para o Brasil. Segundo Ricardo Guerra, esses movimentos demonstram que a cooperação tecnológica deixou de ser uma possibilidade teórica para tornar-se realidade concreta.
Outro aspecto relevante do Fórum foi a valorização da economia criativa como vetor de integração econômica e cultural. Literatura, audiovisual, artes visuais e produção cultural passaram a ocupar espaço central na estratégia bilateral. O embaixador destacou o crescente intercâmbio literário entre os dois países e a atuação de instituições culturais brasileiras na Romênia.
Nesse contexto, um dos símbolos mais interessantes apresentados durante o Fórum envolve justamente uma conexão histórica pouco conhecida entre Brasil e Romênia: o rosto do Cristo Redentor foi esculpido pelo artista romeno Gheorghe Leonida. A referência foi utilizada pelo embaixador para ilustrar como a economia criativa pode fortalecer não apenas o turismo e a cultura, mas também relações econômicas e institucionais de longo prazo.
‘O Brasil possui hoje um dos ecossistemas digitais mais dinâmicos do mundo, com forte presença de fintechs, agritechs e empresas de tecnologia com capacidade de internacionalização’
Ao mesmo tempo, o Fórum também abriu espaço para discussões sobre inteligência artificial, startups e transformação digital. Segundo Ricardo Guerra, o Brasil possui hoje um dos ecossistemas digitais mais dinâmicos do mundo, com forte presença de fintechs, agritechs e empresas de tecnologia com capacidade de internacionalização. O diplomata destacou ainda que soluções brasileiras como o pix se tornaram referência internacional em inclusão financeira e inovação digital.
A Romênia surge, nesse contexto, como uma porta estratégica de entrada para empresas brasileiras interessadas no mercado europeu. O país oferece acesso à União Europeia, infraestrutura digital avançada, custos competitivos e posição geográfica privilegiada no Mar Negro, com destaque para o Porto de Constanța. Segundo o embaixador, startups brasileiras podem utilizar a Romênia como base comercial, logística e tecnológica para expandir sua presença em toda a região do Leste Europeu.
Outro ponto importante discutido ao longo das entrevistas foi o potencial impacto futuro do acordo Mercosul–União Europeia. Ricardo Guerra ressaltou que o avanço do acordo poderá reduzir barreiras regulatórias e facilitar significativamente o comércio bilateral entre Brasil e Romênia.
‘O principal desafio agora será transformar os contatos realizados em projetos concretos, investimentos, cooperação institucional e novas iniciativas empresariais’
Mais do que um evento isolado, o Fórum sinaliza uma estratégia diplomática de longo prazo. Segundo o embaixador, o principal desafio agora será transformar os contatos realizados em projetos concretos, investimentos, cooperação institucional e novas iniciativas empresariais. Já há expectativa, inclusive, de realização de uma nova edição em 2027, ampliando a agenda para setores como agricultura, indústria farmacêutica, autopeças, equipamentos elétricos e tecnologia da informação.
Em um cenário internacional marcado pela reconfiguração das cadeias produtivas, avanço da inteligência artificial e busca por novos parceiros estratégicos, o I Fórum Brasil–Romênia de Economia Criativa, Inovação e Tecnologia mostrou que a diplomacia econômica contemporânea exige muito mais do que acordos comerciais tradicionais. Exige capacidade de conectar criatividade, cultura, tecnologia, inovação e negócios em uma mesma visão estratégica de inserção internacional.
E, nesse aspecto, Brasil e Romênia parecem ter encontrado um terreno comum promissor.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
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