14 janeiro 2023

Como fica o Brasil agora? Presidente Lula se fortaleceu, mas apoiadores de Bolsonaro não vão ficar quietos

Ataques a Brasília parecem ter enfraquecido os bolsonaristas, pelo menos temporariamente, mas descartar ou minimizar sua capacidade contínua de organizar outros eventos violentos no futuro seria não apenas errado, mas perigoso, argumenta professora de relações internacionais

Ataques a Brasília parecem ter enfraquecido os bolsonaristas, pelo menos temporariamente, mas descartar ou minimizar sua capacidade contínua de organizar outros eventos violentos no futuro seria não apenas errado, mas perigoso, argumenta professora de relações internacionais

Manifestantes invadem Congresso, STF e Palácio do Planalto (Foto: Agência Brasil).

Por Deborah Barros Leal Farias*

No domingo, 8 de janeiro, partidários radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e vandalizaram prédios que abrigam o Congresso, a Suprema Corte e o Palácio Presidencial do Brasil.

Desde então, mais de 1.500 pessoas foram detidas.

O governador do Distrito Federal, responsável legal por garantir a ordem em Brasília e proteger os prédios do governo, foi afastado temporariamente do cargo. Além disso, o ex-comandante da Polícia Militar do governador foi preso.

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Neste momento inicial após o motim, algumas avaliações iniciais podem ser feitas sobre as repercussões para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para os apoiadores de Bolsonaro. Em primeiro lugar, que Lula parece paradoxalmente fortalecido com isso.

E, em segundo lugar, embora tenha havido pouco apoio do público em geral aos tumultos, os bolsonaristas estão longe de ser um grupo fraco.

E agora, como fica a presidência de Lula?

Os ataques em Brasília causaram grandes danos materiais. No entanto, não conseguiram derrubar Lula, nem mesmo enfraquecer sua liderança.

Muito pelo contrário – Lula parece ser quem mais capital político ganhou de imediato.

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Apesar de ter assumido a Presidência há pouco mais de uma semana, é a terceira vez que ocupa o cargo. Independentemente de alguém apoiá-lo ou não, ele tem uma experiência incomparável em como retratar uma posição de poder e confiança. Ele também é conhecido como um político incrivelmente habilidoso, com uma capacidade particular de construir pontes políticas.

Um dia após os ataques, Lula convocou uma reunião em Brasília com a presença de todos os 27 governadores do Brasil, incluindo alguns partidários ferrenhos de Bolsonaro, juntamente com membros do Supremo Tribunal Federal e membros poderosos do Senado e da Câmara dos Deputados.

Ele disse que os atos violentos são inaceitáveis e que os envolvidos devem ser julgados e punidos na forma da lei. A reunião terminou com todos eles caminhando – muitos de mãos dadas – do palácio presidencial até a Suprema Corte (cerca de 400 metros de distância) para que todos pudessem testemunhar a destruição em primeira mão.

Mesmo que tenha sido “apenas” uma sessão de fotos, foi uma visível demonstração de unidade institucional de membros e dirigentes dos poderes executivo, legislativo, judiciário e da federação.

Entretanto, a duração de permanência desse espírito é uma incógnita – afinal, isso é política.

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E agora, como ficam os apoiadores de Bolsonaro?

Esse episódio parece ter enfraquecido os bolsonaristas, pelo menos temporariamente. Mas descartar ou minimizar sua capacidade contínua de organizar outros eventos violentos no futuro seria não apenas errado, mas perigoso. Derrubar um regime democrático pode ser um obstáculo muito alto a ser alcançado, mas gerar caos e medo pode estar na agenda dos próximos quatro anos.

‘Derrubar um regime democrático pode ser um obstáculo muito alto a ser alcançado, mas gerar caos e medo pode estar na agenda dos próximos quatro anos’

É importante notar que os apoiadores de Bolsonaro não são um grupo homogêneo. Alguns são principalmente contra Lula ou seu partido (o Partido dos Trabalhadores) e apoiaram a candidatura presidencial de Bolsonaro para que Lula não ganhasse. Outros aceitaram a derrota de Bolsonaro, mesmo que com dor, mas seguiram suas vidas.

Nenhum desses grupos vandalizou prédios públicos ou dormiu em tendas fora dos quartéis do Exército por semanas. Até agora, a impressão é que esses torcedores mais “moderados” não apoiam o que aconteceu em Brasília.

Uma análise de mais de dois milhões de postagens nas redes sociais durante os tumultos mostrou que 90% dos comentários do público foram negativos em relação aos tumultos, expressando principalmente tristeza, medo e repulsa.

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Então, é provável que os apoiadores de Bolsonaro que defendem os ataques à capital sejam um grupo relativamente pequeno. No entanto, eles compartilham uma visão radical do Brasil.

Muitos deles estão convencidos de que o Brasil precisa ser “salvo do comunismo”. Os manifestantes se consideram “verdadeiros patriotas”, os responsáveis por proteger Deus e a família contra a “ameaça vermelha”. Neste Natal, alguns apoiadores e empresários de Bolsonaro chegaram a questionar o Papai Noel vestindo vermelho, dada a associação entre a cor vermelha e o comunismo.

No momento, apenas um punhado de figuras políticas está apoiando abertamente os manifestantes. Mas alguns membros das Forças Armadas e da polícia estão apoiando os distúrbios. Não está claro exatamente quantos policiais estão neste campo ou se estão dispostos a arriscar seus empregos e apoiar ações antidemocráticas.

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Também não está claro se esse foi o ápice das tentativas violentas de derrubar Lula ou o início do que ainda está por vir. O país ainda está tomado por polarização.

O desafio agora no Brasil é recriar a centro-direita política do país, que essencialmente evaporou nas duas últimas eleições, engolfada pela influência de Bolsonaro com a extrema-direita. Uma centro-direita que defende valores da democracia não eliminaria os radicais de extrema-direita, mas com sorte ajudaria a torná-los um grupo marginal.

Ainda assim, esta não é uma solução de curto prazo – se é que é uma solução. No momento, há muita tensão política no ar e qualquer avaliação de longo prazo é imprudente.


*Deborah Barros Leal Farias é professora na UNSW Sydney.


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

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