27 julho 2023

Daniel Buarque: Aposta de Lula em multipolaridade cria ruídos de antiamericanismo

Busca do Brasil por um papel de destaque em uma ordem global multipolar cria tensão com históricos aliados no Ocidente, como os EUA. Para analistas americanos, postura do novo governo soa como oposição do país a Washington em questões-chave da geopolítica

Busca do Brasil por um papel de destaque em uma ordem global multipolar cria tensão com históricos aliados no Ocidente, como os EUA. Para analistas americanos, postura do novo governo soa como oposição do país a Washington em questões-chave da geopolítica

Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos EUA, Joe Biden, durante reunião na Casa Branca (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Daniel Buarque*

A discussão sobre a ambivalente posição do Brasil em meio às grandes disputas geopolíticas da atualidade parece se consolidar como o ponto crítico da política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Desde que assumiu o poder, o presidente declarou a “volta” do país ao cenário internacional, a busca pela melhora na imagem do Brasil, a tentativa de alcançar protagonismo em questões importantes do mundo (como a guerra na Ucrânia e o uso do dólar como moeda global) e uma reiterada defesa de uma ordem global multipolar. 

‘Ao se colocar como “neutro” nessa defesa da multipolaridade, o Brasil acaba arriscando alienar todos os lados e criando tensão com aliados importantes’

Como frequentemente acontece em relações internacionais, entretanto, os esforços de um ator nem sempre são vistos no resto do mundo da forma como ele deseja, e a postura do Brasil tem gerado ruídos e atritos com alguns dos seus principais parceiros internacionais. Como já argumentado nesta coluna, ao se colocar como “neutro” e ficar “em cima do muro” nessa defesa da multipolaridade, o Brasil acaba arriscando alienar todos os lados e criando tensão com aliados importantes.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-brasil-voltou-para-cima-do-muro-mas-corre-risco-de-ser-visto-como-problema-por-todos-os-lados-da-tensao-global/

Segundo Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, há uma crescente percepção em Washington, DC., de que Lula é antiamericano. “Desde que retornou à presidência do Brasil em 1º de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva tem causado alarme na capital dos EUA e em outros lugares com seus comentários sobre a Ucrânia, a Venezuela, o dólar e outras questões importantes”, diz. Segundo ele, a declarada neutralidade do Brasil soa aos americanos como alinhamento à Rússia e à China.

‘Para Winter, Lula não é contra os EUA, mas aposta em uma ordem multipolar e é contra a hegemonia global dos EUA’

Winter argumenta que essa leitura é exagerada, e que lideranças brasileiras reiteram a importância das relações entre os dois países, mas alega que a percepção tem um pé na realidade. Para ele, Lula não é contra os EUA, mas aposta em uma ordem multipolar e é contra a hegemonia global dos EUA –o que o aproxima de outros países do Sul Global.

Além do risco inerente de uma aposta em uma ordem global que muitos especialistas acham que está longe de se concretizar, um problema, como já mencionado, é que essa postura acarreta em uma leitura crítica pelas potências globais, especialmente no Ocidente.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-a-politica-externa-de-lula-e-a-volta-do-mito-da-multipolaridade/

Para os EUA, Lula parece acreditar que, “para que o Sul Global se erga, o Brasil deve trabalhar para derrubar ativamente, ou pelo menos enfraquecer, os pilares da ordem liderada pelos EUA nas últimas décadas”, diz Winter. Isso é visto como uma novidade, uma vez que gera a impressão de que o Brasil abandonou a tentativa de ser amigo de todos os países do mundo. Mas é visto como uma afronta e pode afetar as relações do Brasil com o governo americano, especialmente após as eleições presidenciais de 2024, quando os republicanos têm chance de voltar ao poder.

‘O distanciamento dos EUA tem ainda o risco de ecoar a postura anti-China do Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro’

O distanciamento dos EUA tem ainda o risco de ecoar a postura anti-China do Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro. Assim como havia um problema no posicionamento da política externa naquela época, o governo Lula precisa evitar ameaça a laços importantes do país com seus maiores parceiros, e isso inclui tomar cuidado com a retórica adotada.

Há uma crescente avaliação entre pesquisadores internacionais de que, mesmo sem que a multipolaridade se concretize, há espaço para países intermediários se beneficiarem das disputas entre os EUA e a China. Esse cenário não é tão favorável às aspirações brasileiras de se tornar uma potência global, mas o país pode se aproveitar dele, desde que consiga manobrar para que não seja visto como hostil a nenhum dos dois lados. É uma tática difícil de ser realizada, já que os dois lados vão cobrar alinhamento de “peões disputados”, como o Brasil. Mas é um caminho possível para otimizar a busca do país por um lugar de destaque nas relações internacionais sem criar atritos com seus parceiros.


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional 


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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