11 março 2026

Eleições presidenciais na Colômbia em 2026 – O ciclo de Petro sob julgamento

A eleição presidencial colombiana de 2026 sintetiza dilemas centrais da América Latina contemporânea: redistribuição versus mercado, paz negociada versus segurança militarizada, transição energética versus extrativismo

Gustavo Petro durante votação em Bogotá (Foto:Instagram/infopresidencia)

As eleições presidenciais colombianas de 2026 ocorrem sob forte polarização doméstica e regional. A Colômbia integra uma dinâmica latino-americana marcada pela disputa entre projetos progressistas, centrados em redistribuição, reformas sociais e transição produtiva, e coalizões conservadoras que enfatizam segurança reforçada, extrativismo e alinhamentos estratégicos tradicionais. Assim como nos pleitos recentes no Chile, Brasil e México, a eleição assume caráter plebiscitário, transformando-se em julgamento de um ciclo político.

No plano interno, a polarização organiza-se em torno do legado do atual presidente Gustavo Petro (2022-atual). A sucessão tornou-se, na prática, um referendo indireto sobre sua agenda de “Paz Total”, reformas sociais e transição energética, contraposta à agenda conservadora de endurecimento da segurança, revisão das negociações com grupos armados e reposicionamento estratégico internacional. As pesquisas indicam um eleitorado dividido quase igualmente entre aprovação e rejeição ao governo (La Silla Vacía, 2026a).

‘A institucionalização da disputa passa pela chamada Gran Consulta, primária interpartidária articulada por forças de direita e centro-direita para unificar candidaturas e evitar dispersão eleitoral’

A institucionalização da disputa passa pela chamada Gran Consulta, primária interpartidária articulada por forças de direita e centro-direita para unificar candidaturas e evitar dispersão eleitoral. Esta primária foi realizada no dia 08 de março, junto às eleições legislativas nacionais. O objetivo é chegar ao primeiro turno com um nome competitivo frente a uma esquerda relativamente organizada.

Paloma Valencia saiu como a grande ganhadora da Gran Consulta, representando a ala da direita, com sua campanha fortalecida (obteve 45,76 % do total de votos das consultas). Por seu turno, Claudia Lopez foi quem saiu vitoriosa na consulta do centro, pela Consulta de las Soluciones, embora a votação tenha sido menos expressiva do que se esperava (8,12 % do total de votos). Por fim, Roy Barreras ganhou a consulta do Frente por la Vida, representando a esquerda (com apenas 3,63 % do total de votos).

‘Apesar de o país ter candidatos conhecidos no espectro da direita, destaca-se que é um candidato outsider, que construiu sua pré-candidatura com discurso anti-establishment’

Apesar de o país ter candidatos conhecidos no espectro da direita, destaca-se que é um candidato outsider, não plenamente integrado às estruturas partidárias tradicionais, Abelardo de la Espriella, que construiu sua pré-candidatura com discurso anti-establishment e securitário, que chamou atenção do público e da mídia. 

No campo progressista, Iván Cepeda emergia como principal nome associado à continuidade do projeto de Petro, defendendo a agenda de paz, direitos humanos e redistribuição social (La Silla Vacía, 2026a). Contudo, enfrentou o desafio de herdar a base eleitoral governista sem absorver integralmente sua rejeição. Além disso, a decisão do ex-senador Roy Barreras de disputar consulta interpartidária ampliada revelou fissuras estratégicas na esquerda sobre a melhor forma de ampliar a base e preservar o legado progressista (Semana, 2026a).

‘Verifica-se um centro fragmentado que tenta ocupar o espaço anti-polarização’

Paralelamente, verifica-se um centro fragmentado que tenta ocupar o espaço anti-polarização, com nomes conhecidos como Sergio Fajardo, mas apresenta menor densidade eleitoral até o momento (La Silla Vacía, 2026b).

A pesquisa de intenções de votos mais recente da AtlasIntel, realizada em fevereiro, indicava consolidação da polarização. Os cenários testados mostram equilíbrio competitivo. Na pesquisa, Abelardo de la Espriella aparecia com 32,1% das intenções de voto, Iván Cepeda com 31,4% e Sergio Fajardo com 7,6%. Simulações de segundo turno sugerem vantagem da direita em cenários polarizados, embora com margens móveis e dependentes de alianças (La Silla Vacía, 2026b).

‘Embora a corrupção permaneça como principal problema apontado (37,8%), a insegurança aparece logo em seguida (25%), consolidando a centralidade do debate sobre ordem pública’

Um dado particularmente relevante é a reconfiguração das prioridades do eleitorado. Embora a corrupção permaneça como principal problema apontado (37,8%), a insegurança aparece logo em seguida (25%), consolidando a centralidade do debate sobre ordem pública. Esse deslocamento altera o terreno eleitoral em relação a 2022, quando a agenda de mudança social foi decisiva para a vitória de Petro. Em 2026, a centralidade da segurança tende a favorecer candidaturas conservadoras (Semana, 2026b).

Outros temas aparecem com menor intensidade, mas mantêm relevância: saúde (12,3%), desemprego e pobreza (9,4%), economia e inflação (4,8%), impostos e ineficiência estatal (4,1%) e educação (2,5%) (Semana, 2026b). O conjunto revela eleitorado preocupado simultaneamente com integridade institucional, segurança e bem-estar socioeconômico, favorecendo candidaturas que combinem discurso anticorrupção, promessa de eficiência administrativa e respostas concretas à violência.

‘A mídia e o debate público reforçam o enquadramento plebiscitário da disputa’

A mídia e o debate público reforçam o enquadramento plebiscitário da disputa, marcado pela continuidade do ciclo progressista ou retorno conservador, reduzindo o espaço para candidaturas intermediárias e empurrando o eleitorado para polos programáticos.

À guisa de conclusão, observa-se que a eleição presidencial colombiana de 2026 sintetiza dilemas centrais da América Latina contemporânea: redistribuição versus mercado, paz negociada versus segurança militarizada, transição energética versus extrativismo.

O pleito definirá não apenas um sucessor presidencial, mas o sentido do ciclo político iniciado no país em 2022. Em um sistema fragmentado e territorialmente desigual, o resultado permanece aberto. Mais do que identidades ideológicas rígidas, o desfecho dependerá da capacidade de construção de maiorias em ambiente profundamente polarizado. Nesse contexto, o único dado seguro é a incerteza.


Referências: 

LA SILLA VACÍA. Encuesta Atlas Intel: La campaña se polariza y otras ocho conclusiones. La Silla Vacía Nacional, 8 fev. 2026b. Disponível em: https://www.lasillavacia.com/silla-nacional/atlas-intel-la-campana-se-polariza-y-otras-ocho-conclusiones/. Acesso em: 24 fev. 2026.

LA Silla Vacía. Ponderador de encuestas presidenciales 2026 – Aprobación y desaprobación de Gustavo Petro. La Silla Vacía, 2026a. Disponível em: https://www.lasillavacia.com/silla-nacional/ponderador-de-encuestas-presidenciales-2026/. Acesso em: 24 fev. 2026.

SEMANA. ¿Iván Cepeda o Roy Barreras? En el Pacto Histórico se sacaron al aire los ‘trapitos al sol’ y hubo de todo: señalamientos de “trampa” y pedidos de respeto. Semana TV – El Debate, 19 fev. 2026a. Disponível em:  https://www.semana.com/semana-tv/semana-el-debate/articulo/ivan-cepeda-o-roy-barreras-en-el-pacto-historico-se-sacaron-al-aire-los-trapitos-al-sol-y-hubo-de-todo-senalamientos-de-trampa-y-pedidos-de-respeto/202649/ Acesso em: 24 fev. 2026.

SEMANA. La batalla por la Presidencia sería entre Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda, según la encuesta de AtlasIntel para SEMANA. Los demás candidatos están lejos de los punteros. Semana, 8 fev. 2026b. Disponível em: https://www.semana.com/politica/articulo/la-batalla-por-la-presidencia-seria-entre-abelardo-de-la-espriella-e-ivan-cepeda-segun-la-encuesta-de-atlasintel-para-semana-los-demas-candidatos-estan-lejos-de-los-punteros/202602/. Acesso em: 24 fev. 2026.  

Fernanda Nanci Gonçalves é doutora em ciência política pelo IESP-Uerj. Professora dos cursos de relações internacionais do Unilasalle-RJ e UERJ. Coordenadora do Núcleo de Estudos Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE-Iesp/UERJ).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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