19 fevereiro 2026

Era Trump ataca os fundamentos históricos da política externa dos EUA

Em 03 de janeiro de 2026, o mundo acordou com a notícia da captura de Nicolás Maduro por comandos militares norte-americanos. O presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio deram explicações desencontradas para justificá-la. Falaram de prisão e julgamento de um líder do narcoterrorismo; de retomada de riquezas petrolíferas norte-americanas roubadas; de […]

Ilustração com base em imagens usadas em protesto contra Trump nos EUA (Foto: IA)

Em 03 de janeiro de 2026, o mundo acordou com a notícia da captura de Nicolás Maduro por comandos militares norte-americanos. O presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio deram explicações desencontradas para justificá-la. Falaram de prisão e julgamento de um líder do narcoterrorismo; de retomada de riquezas petrolíferas norte-americanas roubadas; de suspensão da imigração de venezuelanos; de exclusão na América Latina de interesses chineses; de instauração de um governo venezuelano submisso aos ditames norte-americanos.

De forma surpreendente, Edmundo González – tido pelos próprios Estados Unidos como presidente legitimamente eleito em julho de 2024 – não foi empossado na presidência, mas Delcy Rodríguez, vice de Maduro e importante liderança do chavismo. Trump a ameaçou, porém, com destino pior do que o reservado a Maduro, em caso de recusa à colaboração.

Ainda que o episódio e seus desdobramentos estejam cercados de incertezas, eles reavivaram a discussão acerca do papel dos Estados Unidos no mundo.

Os Estados Unidos e o mundo nos séculos XIX e XX

Conhecido pelos clássicos “As Aventuras de Tom Sawyer” (1876) e “Huckleberry Finn” (1885), o escritor Mark Twain publicou, em fevereiro de 1901, o artigo To the person sitting in darkness, no qual investia contra aqueles que, como Theodore Roosevelt, defendiam a expansão imperialista dos Estados Unidos. No coração dessa controvérsia, a Guerra Filipino-Americana (1899-1902), um desdobramento da Guerra Hispano-Americana de 1898, ano em que os Estados Unidos também anexaram o Havaí.

Tornando-se um Império, pensavam homens como Mark Twain, os Estados Unidos trairiam os fundamentos de sua experiência histórica excepcional. A República, afinal, teria nascido da revolta contra um poder imperial e inaugurado a era do consentimento popular como base do poder legítimo. Por outro lado, para Roosevelt e os seus a expansão imperialista asseguraria acesso a insumos, mercados e áreas de investimentos, atenderia a considerações de ordem geopolítica e afirmaria o papel dos Estados Unidos como uma “cidade na colina”, a nova Jerusalém destinada a levar aos que estavam imersos na escuridão as boas novas da democracia e do cristianismo.

Roosevelt venceu a contenda. Sob sua presidência (1901-1909), as Filipinas se tornaram uma colônia, obtendo a independência apenas em 1946. Foi além. Em 1904, anunciou o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, que autoatribuía aos Estados Unidos o direito de usar um porrete, o big-stick, sobre a América Latina: até 1994, foram 41 as intervenções norte-americanas nas Américas Central e do Sul, tanto com forças militares próprias quanto estimulando e apoiando golpes de Estado.

As Guerras Hispano-Americana e Filipino-Americana, a anexação do Havaí, o Corolário e o porrete são, geralmente, apontados como os marcos iniciais da expansão imperial dos Estados Unidos. Ainda assim, presidentes republicanos e democratas fizeram questão de professar o credo do excepcionalismo norte-americano e, tal qual desejava Twain, rejeitaram o rótulo de imperialista para seu país. O republicano George W. Bush (2001-2009), que levaria os Estados Unidos a duas décadas de imbróglio político e militar no Oriente Médio, chegou a afirmar: “Talvez sejamos o único grande poder na história que teve a chance de ser um Império, mas recusou”.

Comparado aos impérios europeus na Ásia e África, Bush tinha razão. Hoje, como em sua época, os Estados Unidos controlam apenas cinco pequenas ilhas habitadas por 3,6 milhões de pessoas, incluindo Porto Rico. Nada que se compare sequer ao moribundo império português de princípios da década de 1970, com seus de 2 milhões de quilômetros quadrados e 10 milhões de habitantes na África, contra um território de apenas 92 mil quilômetros quadrados e uma população de menos de 9 milhões de portugueses na Europa).

No entanto, Bush omitiu o fato de que a construção do território norte-americano – dos 13 estados originais, na Costa Leste, ao imenso estoque de terras entre o Atlântico e o Pacífico – foi um empreendimento de conquista imperial à base do porrete, como evidenciam a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848) e as guerras com as nações indígenas.Bush parece não atribuir importância, também, ao fato de que após a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos se tornaram um império informal, fazendo valer seus interesses econômicos, políticos e militares em regiões mais vastas do que as de qualquer outro império da história.

A Segunda Guerra foi um divisor de águas no papel dos Estados Unidos no mundo. A reconstrução européia e asiática, o colapso dos impérios britânico e francês na Ásia e na África, e a Guerra Fria tornaram coisa do passado o isolacionismo das décadas de 1910 a 1930

As circunstâncias eram favoráveis. Os Estados Unidos perderam na Segunda Guerra 418 mil homens (0,3% de sua população de 1940), contra 25 milhões perdidos pelos soviéticos (12,8% da população do país em 1940), 20 milhões de chineses, 7 milhões de alemães, 5,7 milhões de poloneses e 3 milhões de japoneses.

Durante a guerra, os Estados Unidos saíram de vez da Grande Depressão e se tornaram o “Arsenal da Democracia”, produzindo 88 mil tanques, 2,4 milhões de caminhões e 300 mil aviões militares. Entre 1942 e 1945, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 76% e a conversão da economia de guerra para economia civil se beneficiou da enorme capacidade instalada. Nos 20 anos seguintes, enquanto boa parte do mundo enfrentava uma dolorosa reconstrução humana e material, os Estados Unidos conheceram seus Anos Dourados.

Ainda assim, os formuladores de política externa norte-americanos tinham consciência de que o país não teria recursos econômicos, militares e políticos para, sozinho, construir e manter uma nova ordem internacional que assegurasse seus interesses, inclusive em razão de sua situação geopolítica. A leste e oeste, o país é protegido por dois oceanos e, a sul e ao norte, por aliados militarmente frágeis. No entanto, qualquer ação militar que julgue necessário realizar exige o envio de homens e equipamentos a milhares de quilômetros de distância, tornando-o dependente de apoios próximos ao teatro de operações. Era preciso, portanto, combinar cooperação e força, exemplo e coerção.

O país conduziu, assim, os Acordos de Bretton Woods, que em 1944 criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e lideraram a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU). Em seu próprio benefício, os EUA determinaram as “regras do jogo” econômico mundial – impondo o dólar como moeda das transações internacionais -, mas compartilharam responsabilidades e custos com os demais países, inclusive a União Soviética.

Era importante, de fato, co-responsabilizar os soviéticos pela nova ordem, não só por seu poderio militar como, também, para evitar o erro cometido no pós-Primeira Guerra, quando a punição à Alemanha resultou em uma potência relevante sem compromisso com a segurança coletiva. Também foi importante a construção da visão dos Estados Unidos como um modelo de sociedade que, pela primeira vez na história, conciliou liberdade política e abundância material. O cinema, os seriados de televisão, a música e teorias da modernização, ao difundir o modelo político, econômico e cultural norte-americano, levaram ao mundo a mensagem da “cidade na colina”.

Por outro lado, os Estados Unidos lideraram, em 1949, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que se contraporia ao Pacto de Varsóvia, liderado pela União Soviética e criado em 1955. Com a OTAN, os EUA projetaram poder sobre o Atlântico Norte e a bacia do Mediterrâneo, cruzamento entre Europa, África e Ásia.

O equilíbrio de forças nucleares dos dois grandes pactos militares evitou um conflito generalizado, como a Primeira e a Segunda Guerras, mas não guerras localizadas, muitas delas com a participação dos Estados Unidos, como a da Coréia (1950-1953) e a do Vietnã (1955-1975).

Os Estados Unidos tampouco se abstiveram de dar sustentação ao apartheid na África do Sul desde a presidência do democrata Harry Truman (1945-1953) ou de apoiar e/ou promover golpes de estado, como no Irã (1953), na Guatemala (1954), no Brasil (1964), no Chile (1973) e na Argentina (1976), sempre que julgavam ameaçados seus interesses políticos, econômicos ou estratégicos.

Quando a “cidade na colina” não se mostrava suficiente para garantir os interesses norte-americanos, o porrete era acionado.

Os Estados Unidos são, afinal, o país dos Quatorze Pontos de Woodrow Wilson e das Quatro Liberdades de Franklin D. Roosevelt, mas,também, aquele que jogou duas bombas atômicas sobre o Japão.

O mundo visto por Trump

A crise da ordem internacional do pós-Segunda Guerra teve seu momento inicial com a Queda do Muro de Berlim, em 1989, a que se seguiu o fim da União Soviética, dois anos depois. Desde então, presidentes norte-americanos se viram na contingência de repensar o papel dos Estados Unidos no mundo. Com diferenças de ênfase, todos reafirmaram o porrete e a cidade na colina. Barack Obama (2009-2017), fundamental para a assinatura do Acordo de Paris, não hesitou em usar drones no Iêmen, na Somália e no Paquistão. Em seus dois governos, foram autorizadas 542 operações do tipo, que resultaram na morte de 3.800 pessoas, das quais 320 civis.

A novidade de Trump, portanto, não é o uso da força em desafio à ordem legal, tanto internacional quanto doméstica. Até a captura de Maduro tem precedente na prisão de Manuel Noriega, homem forte do Panamá, em 1990. Desde seu retorno ao poder, em janeiro de 2025, Trump já ordenou ataques ao Iraque, Nigéria, Somália, Iêmen, Síria e Irã. Na América Latina, além da captura de Maduro, ameaçou Panamá e Colômbia, militarizou o Caribe e afundou barcos supostamente a serviço de traficantes.

A novidade é o ataque cerrado ao multilateralismo (associado ao globalismo, ou seja, à erosão da soberania dos Estados Nacionais, tidos por Trump como unidade central nas relações internacionais), aos aliados da OTAN e ao livre-comércio. Sua Estratégia de Segurança Nacional, de 2025, sequer cita a ONU, expoente máximo do multilateralismo e alvo de suas críticasfrequentes.

A ordem mundial sugerida pela Estratégia se baseia em um equilíbrio de forças entre Estados Unidos, Rússia e China e suas respectivas áreas de influência, com a Europa atlântica – OTAN – praticamente relegada à sua própria sorte. A Estratégia propõe um Corolário Trump à Doutrina Monroe, como se a América Latina fosse a natural área de influência norte-americana – Marco Rubio chegou a chamá-la de “nosso Hemisfério” – e a Paz Pela Força, ou seja, a ameaça ou uso efetivo do porrete onde e quando julgado necessário, inclusive fora da área de influência latino-americana, como evidenciam os ataques já realizados, com destaque para o bombardeio no Irã. Em consequência, o orçamento da União de 2026 prevê um aumento de 13,4% nos gastos militares em relação a 2025, ano em que tais gastos já ultrapassavam a soma dos nove maiores orçamentos militares seguintes.

A Estratégia revela, por outro lado, a força do personalismo de Trump. Nas 52 páginas da Estratégia de Segurança Nacional de 2010, o nome de Barack Obama aparece 6 vezes; nas 29 páginas da de 2025, o nome de Trump surge 27. Ele chegou a afirmar que o limite do seu poder não é a Constituição, mas sua própria moralidade.

Trump impõe e retira tarifas alfandegárias para pressionar politicamente aliados e adversários e sua ofensiva pela conquista da Groenlândia, com enorme impacto negativo entre os países da OTAN, sequer é mencionada na Estratégia, sugerindo não ser percebida como central nem pelos formuladores de política externa indicados por ele próprio.

O ataque de Trump ao multilateralismo e a qualquer tipo de cooperação, a percepção das relações internacionais como jogo de soma-zero entre Estados Nacionais expressa-se, também, na retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (sua Estratégia de Segurança Nacional não faz nenhuma referência a pandemias, contra 10 menções na Estratégia de 2010, anterior à Covid-19), assim como na retirada do Acordo de Paris.

Na Estratégia de 2025, aliás, mudanças climáticas (preocupação central na Estratégia de 2010) surgem como uma ideologia desastrosa que prejudica a economia norte-americana. Em suma, a única superpotência restante demonstra não ter compromisso sequer com a construção de uma nova governança global que procure enfrentar os desafios ambientais e sanitários do presente.

Os impérios britânico, francês e norte-americano buscaram se legitimar através das narrativas do fardo do homem branco, da missão civilizatória e da cidade na colina. As duas primeiras foram desafiadas pelas lutas de libertação nacional do pós-Segunda Guerra na Ásia e África, ao passo que a terceira, de forma inédita, está sendo atacada pelo seu próprio beneficiário. Ao abrir mão da cidade na colina e se fiar no porrete, Trump entende colocar a “América Primeiro”, mas ao que tudo indica está deixando a “América Sozinha”, para prejuízo dos próprios Estados Unidos (e do mundo).


Flávio Limoncic, Professor de História, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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