EUA estabelecem um novo padrão de intervencionismo na América Latina
O “Corolário Trump” combina dois aspecto da política externa dos EUA, são eles: a Doutrina Monroe somada ao “Corolário Roosevelt”. Resgatando, assim, a lógica do “policial regional” no hemisfério com o objetivo de assegurar sua área de influência a fim dos seus interesses nacionais

A ação militar dos EUA na Venezuela no último dia 3 rompeu um padrão de não intervenção direta do ator hegemônico sobre a América Latina. O recente episódio trata-se da maior operação militar dos Estados Unidos na região desde a invasão ao Panamá em 1989, quando o presidente Manuel Noriega foi destituído do poder. Apesar do caso panamenho citado, a ofensiva realizada contra a Venezuela se diferencia, na medida em que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados pelo governo estadunidense, enquanto Noriega não foi sequestrado.
A violação à soberania venezuelana coloca em xeque os fundamentos da ordem jurídica global instaurada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). É importante destacar que, em 1945, entrou em vigor a Carta das Nações Unidas (ONU), a qual foi ratificada tanto pelos Estados Unidos quanto pela Venezuela.
O ataque à soberania da Venezuela viola diretamente o direito internacional com fundamentação no artigo 4, o qual proíbe expressamente o “uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado”, com exceção à autorização explícita do Conselho de Segurança ou à legítima defesa imediata. As duas exceções não se justificam no caso venezuelano.
Justificativa, substantivo relacionado à existência de um fato ou ação
Esse termo é constantemente utilizado pelos Estados Unidos para apoiar suas ações intervencionistas. Lembremos do Iraque em 2003. Nesse último, os EUA também realizaram uma operação similar, sem ocupação terrestre, sendo uma operação tática, mas sem uma resolução estratégica. No Iraque, a justificativa foi as “armas de destruição em massa”; na Venezuela, o “narcotráfico”.
A grande questão que permeia o cenário internacional é que a narrativa se transformou, porém o padrão de ação permanece. Isto significa a falsa ilusão por trás da ação: a remoção do líder como o fim do problema. Todavia, a vitória tática não significa vitória estratégica, na medida em que o que forma um sistema, como o chavismo, não são pessoas, e sim uma rede.
No caso recente venezuelano, identificam-se dois movimentos acoplados e alarmantes para a região: o acesso a recursos estratégicos – o petróleo – e o novo padrão de intervencionismo dos EUA na região. O que está em disputa é a legitimidade sobre o destino dos países do continente e o respeito a suas soberanias e recursos naturais e energéticos. É necessário estar atento e forte frente aos novos desafios do tio Sam.
Uma breve retrospectiva
Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar na Venezuela, resultando no sequestro de Nicolás Maduro, presidente do país, e de sua esposa, Cília Flores. As tensões entre os dois países têm passado por escalonamento desde fevereiro de 2025, quando o governo Donald Trump designou as organizações criminosas na Venezuela como grupos terroristas. Esse evento “permitiu” que os Estados Unidos pudessem recorrer aos recursos militares em defesa dos interesses estadunidenses na região. Como reflexo, além disso, provocou a deportação de venezuelanos dos Estados Unidos, acusados pelo governo Trump de integrar organizações criminosas.
A mudança na ofensiva estadunidense se transformou no dia 8 de agosto, quando Donald Trump assinou secretamente uma diretiva ao Pentágono, autorizando o uso da força contra os cartéis de drogas latino-americanos. Esses, os quais o governo estadunidense já considerava como organizações terroristas.
Por conseguinte, o governo dos EUA autorizou o envio de mais de 4.000 fuzileiros navais do Grupo Anfíbio Pronto (ARG) de Iwo Jima e da 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, assim como membros da Marinha dos EUA para o Comando Sul. Somando-se a isso, o envio de um submarino nuclear de ataque, aeronaves de reconhecimento P-8 Poseidon e destróieres e cruzador de mísseis guiados ao mar do Caribe sob o pretexto do combate ao narcotráfico.
A justificativa do narcotráfico para ações dos Estados Unidos na região aciona um antigo imaginário latino-americano de um velho período de intervenções na região que marcaram o século XX.
O novo “Corolário Trump”
Ao longo dos últimos 200 anos, a política externa dos Estados Unidos foi norteada pelo reflexo da Doutrina Monroe (1823), sendo um pilar ordenador da política externa dos EUA para a América Latina. Durante o governo Barack Obama, mais especificamente em 2013, o secretário de Estado, John Kerry, afirmou que a era das esferas de influência na América Latina tinha chegado ao fim, fazendo alusão à Doutrina Monroe. Com isso, houve uma tentativa de afastar retoricamente os EUA de um passado intervencionista.
Todavia, no seu segundo mandato, Trump retoma esse pilar da política externa dos Estados Unidos para a política hemisférica. Esse movimento expressou-se em dezembro de 2025, quando o governo publicou sua nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS). Na nova versão do documento, o governo enumera novas ameaças, como narcotráfico, imigração, fronteira, tráfico humano, práticas comerciais predatórias, espionagem e, entre outras, a influência de outras potências estrangeiras na região.
A NSS, além disso, apresentou uma mudança em relação a como as posições regionais estão expostas no documento. Na versão atualizada, o documento sinaliza como região prioritária o “Hemisfério Ocidental”. Assim como positiva um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. O ocorrido na Venezuela na madrugada do dia 3 de janeiro expõe o caráter intervencionista do novo “Corolário Trump”, reafirmando sua política externa do America First.
De fato, o fantasma histórico intervencionista dos EUA na América Latina que marcou o século XX foi reavivado com o anúncio recente. Essa estratégia “remete às doutrinas do século XIX e início do século XX, defendidas por ex-presidentes como Monroe, Polk, McKinley, Jackson, Roosevelt e Wilson, todos adeptos da primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental”.
O “Corolário Trump” combina dois aspecto da política externa dos EUA, são eles: a Doutrina Monroe somada ao “Corolário Roosevelt”. Resgatando, assim, a lógica do “policial regional” no hemisfério com o objetivo de assegurar sua área de influência a fim dos seus interesses nacionais.
Yasmim Abril M. Reis, Doutoranda em Relações Internacionais, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas
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