26 maio 2023

O Brasil, o G7 e a tal dependência da China

Cúpula expôs desafios que a ordem multilateral enfrenta e a dificuldade de formação de um consenso global em um planeta em acelerada transformação. Para embaixador,  o que define a diplomacia brasileira são os interesses nacionais, e o Itamaraty acerta ao adotar uma postura neutra na crescente polarização atual

Cúpula expôs desafios que a ordem multilateral enfrenta e a dificuldade de formação de um consenso global em um planeta em acelerada transformação. Para embaixador,  o que define a diplomacia brasileira são os interesses nacionais, e o Itamaraty acerta ao adotar uma postura neutra na crescente polarização atual

Fotografia oficial dos chefes de delegação dos países membros e dos países convidados do G7 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Fausto Godoy*

O artigo G7 expôs paradoxos para a tradição diplomática brasileira, de autoria da minha colega professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Denilde Holzhacker, instigou-me a refletir sobre a participação do Brasil na cúpula do G7.

Tem ela razão em afirmar que “a reunião do G7 realizada em Hiroshima expôs os desafios que a ordem multilateral enfrenta, não apenas no tocante à gestão de crises globais, mas também na busca por diálogo além dos países membros do grupo”. Tem ainda maior razão quando afirma que “as relutâncias manifestadas pelo Brasil e pela Índia em se alinharem aos líderes do G7 reforçam a árdua tarefa de avançar na construção de um consenso global”.

A questão é: qual seria este “consenso global”? Que cara teria ele? A do grupo dos países “mais ricos” do planeta, que (ainda) se consideram os guardiões dos “valores universais” – democracia western style, direitos humanos, segurança internacional, etc… –  num planeta em acelerada transformação? 

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Tem razão a professora Denilde quando afirma que “embora os países do G7 compartilhem de um entendimento – eu diria convicção – em relação à Ucrânia, condenando as agressões russas e partilhando a visão de contenção do poderio chinês, a tentativa de obtenção de apoio de Índia, Brasil e Indonésia esbarra na falta de confiança dessas nações”. Aí está o dilema: no nosso caso, onde nos encaixaremos, nós e a nossa diplomacia, que tem que respeitar os preceitos de “não intervenção” e “solução pacífica dos conflitos” inscritos lapidarmente no artigo 4º da Constituição, no contexto desta guerra? Ou seja, o outro lado da moeda é exatamente este: conceitos que servem bem a determinada(s) civilização (ões) não se aplicam erga omnes num mundo ao mesmo tempo globalizado e apegado às tradições e valores próprios das suas sociedades.

Denilde também tem razão ao afirmar que “a diplomacia brasileira deve incessantemente se esforçar para ressaltar a necessidade de reforma das instituições multilaterais. Mas é imprescindível não ceder à ingenuidade diante da crescente bipolaridade mundial, e das estratégias dos países ocidentais para conter a China”. 

A meu juízo, Brasil e Índia, com suas características próprias, fazem parte de um planeta em plena transformação; isto é tautológico, evidentemente, mas nem sempre percebido e introspectado em toda a sua dimensão: uma coisa é saber, e outra apreender o seu significado em toda a plenitude e consequências.

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Aí é que está a questão: onde nos posicionamos nesta prevista bipolaridade? Nos apegaríamos ao Ocidente central rico, mas crescentemente envelhecido e confrontado com os países cada vez mais afluentes do Oriente – China, Índia, Japão, Coreia do Sul, ASEAN, etc. – em direção aos quais o mundo está transferindo o protagonismo da globalização? 

Adotaríamos uma posição conservadora e anacrônica por desconhecimento, ou preconceito, ou temor de olharmos para onde esta globalização se encaminha, e que poderia nos trazer benefícios maiores? Senão vejamos: o nosso principal parceiro comercial, desde 2009, é a China “comunista”, como sabemos todos. A Índia – o 5º PIB mundial – se encaminha para tornar-se a terceira maior economia do planeta até o final deste século, segundo os analistas. Seriam os valores do Ocidente suficientes para conter esta configuração da economia mundial que é fruto do próprio Ocidente que a desenhou em meados do século passado?

Como já disse em outro texto, quando eu nasci, em junho de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, o hegemon mundial ainda era a Grã-Bretanha, mas já não mais. Depois consolidou-se a bipolaridade compartilhada entre os Estados Unidos, guardião do capitalismo ocidental, e a União Soviética, do mundo comunista. Com a dissolução desta, em 1991, restaram apenas os Estados Unidos. E agora, desde o início deste século, emergiu a China. Ou seja, no meu tempo de vida – 77 anos – convivi com quatro hegemonias. Qual será a próxima?

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E como a nossa política externa deve agir neste cenário mutante? Uma coisa é a estrutura do poder mundial, e outra é a nossa essência, brasileira. A meu juízo, compartilhamos a grande maioria dos valores do Ocidente central, mas não todos. Esta nossa natureza aconselha, acredito, a sufragar antes de tudo as nossas especificidades como país e nacionalidade, bem como os nossos  objetivos próprios. 

O melhor caminho, acredito, é seguir a teoria – e prática – do “pragmatismo responsável”, que o Itamaraty aplicou sob a liderança do chanceler Antonio Azeredo da Silveira, na década de 1970: o que define a nossa diplomacia são os nossos interesses nacionais. Foi assim que em pleno governo militar transferimos o reconhecimento da China de Taipé – capitalista – para Pequim – comunista. Pelo visto, acertamos…

Acho que o Itamaraty tem toda razão em adotar uma postura neutra!


*Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

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Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

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