07 fevereiro 2023

iii-Brasil: ‘Bomba ambiental’ afeta negativamente a imagem internacional do país

Notícia sobre afundamento de porta-aviões com material tóxico chamou grande atenção na mídia estrangeira ao longo da semana, com fortes críticas de ambientalistas preocupados com o impactos da medida. Divulgação tem efeito negativo na reputação do país

Notícia sobre afundamento de porta-aviões com material tóxico chamou grande atenção na mídia estrangeira ao longo da semana, com fortes críticas de ambientalistas preocupados com o impactos da medida. Divulgação tem efeito negativo na reputação do país

Por Daniel Buarque e Fabiana Mariutti*

iii-Brasil – de 30/1 a 5/2 de 2023

Visibilidade: 84 reportagens em 7 veículos analisados

Classificação das notícias:

51% Neutras

35% Negativas

14% Positivas

Uma notícia com relativamente pouca repercussão no Brasil se tornou um dos principais destaques sobre o país na imprensa estrangeira na última semana. O anúncio de que a Marinha afundou o porta-aviões desativado São Paulo foi divulgada no país sem muito alarde, mas foi tratada como uma “bomba ambiental” chamando muita atenção e críticas na mídia internacional, marcando negativamente a reputação do país no período. 

No total, foram registrados na primeira semana de fevereiro 84 textos com menção ao Brasil nos sete veículos analisados, trata-se de um volume um pouco acima da média semanal coletada desde o início do levantamento do Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil), em abril de 2022. Apesar do tom crítico sobre o porta-aviões, o período foi marcado por uma cobertura majoritariamente neutra (51%), sem potencial de afetar a imagem do país. Além disso, 35% das menções ao país foram negativas e 14% positivas.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/entenda-como-funciona-o-indice-de-interesse-internacional-monitoramento-de-noticias-sobre-o-brasil-no-exterior/

O afundamento do porta-aviões teve amplo espaço nas publicações estrangeiras. Jornais como o francês Le Monde e o americano The New York Times publicaram mais de uma reportagem, cada, sobre a decisão da Marinha brasileira, as críticas de ambientalistas e os possíveis impactos do naufrágio. Em um dos textos, o jornal americano cita uma fonte que chama a decisão de afundar o navio de “completamente inexplicável e irracional”. “A decisão foi duramente criticada por diversas organizações de defesa do meio ambiente, já que o antigo navio da marinha francesa, comprado pelo Brasil em 2000, está cheio de amianto, tintas e outros resíduos tóxicos”, diz o Monde.

“Ativistas ambientais tentaram impedir o afundamento planejado do navio de guerra, alertando que isso poderia poluir a cadeia alimentar marinha”, diz o britânico The Guardian. Ainda mais crítico, o espanhol El País usa o termo “bomba ambiental” para se referir ao afundamento: “O maior navio da frota brasileira era pura sucata. Uma bomba ambiental com toneladas de amianto e outros componentes tóxicos. Livrar-se do que restou do porta-aviões São Paulo – o casco, a casa de máquinas… – tem sido um verdadeiro pesadelo para a Marinha do Brasil”.

É importante ressaltar que as críticas ambientais se consolidaram nos últimos anos como um dos pontos centrais da piora da reputação internacional do Brasil. Notícias e análises sobre a destruição da Amazônia foram um dos focos centrais das críticas ao governo de Jair Bolsonaro. Houve um momento de melhora da abordagem desta questão desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições, mas o afundamento do navio nesta semana quebra a tendência de projeção mais positiva do país na área ambiental.

Além da questão ambiental, também chamou atenção internacional de forma negativa a piora do Brasil no ranking mundial de corrupção, que teve destaque no português Público, entre outros.

Em uma inversão com a semana anterior, teve abordagem um pouco mais positiva o noticiário sobre as primeiras ações do governo para tentar proteger populações indígenas encontradas em situação precária sob pressão do garimpo ilegal. O jornal francês Le Monde noticiou que o Estado começou a agir na região Norte do país para tentar proteger os yanomami.

Retrospectiva 

Desde o início de abril de 2022, o iii-Brasil coletou e analisou em média 74 reportagens por semana com menções de destaque ao país nos sete veículos de imprensa analisados. 

Ao longo do levantamento das últimas 43 semanas, o iii-Brasil registrou em média 49% de reportagens de tom neutro, 36% de menções com tom negativo e 15% de textos positivos sobre o país. 


*Daniel Buarque é editor-executivo do Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).

Fabiana Mariutti atua como pesquisadora, professora universitária,  e consultora; obteve pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração e bacharel em Comunicação Social. Estuda a imagem, reputação e marca Brasil desde 2010. Autora dos livros: “Country Reputation: The Case of Brazil in the United Kingdom: Four Stakeholders’ Perspectives on Brazil’s Brand Image(2017) e Country Brand Identity: Communication of the Brazil Brand in the United States of America (2013).


O Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil) é uma análise da imagem do país realizada a partir de um levantamento sistemático de dados sobre notícias que mencionam o Brasil a cada semana em sete publicações internacionais, selecionadas como representativas da imprensa internacional por serem reconhecidas internacionalmente como “newspapers of record”. São elas: The Guardian (Reino Unido), The New York Times (Estados Unidos), El País (Espanha), Le Monde (França), Clarín (Argentina), Público (Portugal) e China Daily (China).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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