30 maio 2023

iii-Brasil: Percepção de retrocesso ambiental ameaça imagem internacional do Brasil

Mudanças na estrutura do governo foram descritas na mídia estrangeira como problemáticas para um governo que desde o começo tentou se projetar pelo fomento a políticas de proteção da Amazônia

Mudanças na estrutura do governo foram descritas na mídia estrangeira como problemáticas para um governo que desde o começo tentou se projetar pelo fomento a políticas de proteção da Amazônia

Por Daniel Buarque e Fabiana Mariutti*

iii-Brasil – de 22 a 28 de maio de 2023

Visibilidade: 54 reportagens em 7 veículos analisados

Classificação das notícias:

65% Neutras

20% Negativas

15% Positivas

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva impulsionou de forma positiva a imagem do Brasil na imprensa estrangeira no final de 2022 — e o início do novo governo ampliou a percepção favorável ao país. Entre os pontos que mais ajudaram a projetar o país de forma elogiosa estava a declarada intenção de focar na proteção ambiental após anos de destruição sob Jair Bolsonaro. Menos de seis meses após a volta de Lula ao poder, entretanto, a publicação de notícias sobre um possível retrocesso na área ambiental volta a ameaçar a reputação do país no exterior. 

No total, foram registrados na quarta semana de maio 54 textos com menção ao Brasil nos sete veículos analisados, volume muito abaixo da média semanal do Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil). A maior proporção dos textos teve tom neutro, atingindo 65% da cobertura sobre o país. As reportagens de tom positivo foram 15% e as negativas foram 20%. 

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/entenda-como-funciona-o-indice-de-interesse-internacional-monitoramento-de-noticias-sobre-o-brasil-no-exterior/

Apesar do predomínio de notícias de tom neutro, foi evidente o crescimento de reportagens que questionam a postura ambiental do Brasil. 

Segundo o jornal britânico The Guardian, a mudança na estrutura dos ministérios brasileiros foi “um golpe potencialmente incapacitante aos esforços para proteger as comunidades indígenas e a Amazônia”, deixando para trás o otimismo ambientalista criado desde a volta de Lula ao poder.

Críticas parecidas ganharam espaço também no português Público, que diz que Lula põe em risco a proteção ambiental para conquistar apoio no Congresso. “O Governo brasileiro está prestes a sofrer várias alterações à sua estrutura que vão enfraquecer os esforços de protecção ambiental e de combate à desflorestação ilegal, avisam várias organizações ecologistas. As mudanças que devem ser aprovadas pelo Congresso até ao fim do mês são produto das negociações entre o Governo de Lula da Silva e as bancadas do ‘centrão’”, diz.

Além da reestruturação das pastas do governo, teve destaque negativo a discussão em torno dos planos da Petrobras de explorar petróleo no delta do rio Amazonas. O espanhol El País destacou que o Ministério do Meio Ambiente tem se colocado contra a proposta, mas que o presidente “deixa a porta aberta” à ideia.

A cobertura internacional a respeito da participação brasileira na Cúpula do G7 teve uma abordagem em geral mais neutra, com destaque para o desencontro entre Lula e o presidente ucraniano. Um artigo de opinião do Público, entretanto, adotou um tom mais crítico e indicou que o Brasil passou a ser menos visto como neutro em relação ao conflito na Ucrânia:“Analistas dizem que presidente brasileiro continua muito agarrado à política externa do início dos anos 2000 e arrisca tornar-se num ‘líder envelhecido’”.

Outras notícias de grande destaque relacionadas ao Brasil na imprensa estrangeira no período trataram do caso de racismo contra o jogador de futebol brasileiro Vinícius Jr na Espanha. Um dos textos registra a foto aérea das luzes apagadas do Cristo Redentor, RJ, em solidariedade ao jogador. Outro texto bem longo descreve detalhes sobre o acontecido: publica as homenagens em campo de futebol no jogo seguinte de La Liga, na Espanha, relembra casos anteriores com o jogador na Espanha e informa que sete pessoas foram presas por abuso racial. Ainda, as críticas do governo brasileiro (como as de muitos brasileiros) ao caso receberam muita atenção da mídia internacional (e nacional), por mais que o foco central tenha sido o problema da Espanha, não se identifica influência sobre a percepção externa a respeito do Brasil.

Retrospectiva 

Desde o início de abril de 2022, o iii-Brasil coletou e analisou em média 70 reportagens por semana com menções de destaque ao país nos sete veículos de imprensa analisados. 

Ao longo do levantamento, o iii-Brasil registrou em média 49% de reportagens de tom neutro, 33% de menções com tom negativo e 18% de textos positivos sobre o país. 


*Daniel Buarque é editor-executivo do Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do IRI-USP, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).
Fabiana Mariutti atua como pesquisadora, professora universitária e consultora; obteve pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração e bacharel em Comunicação Social. Estuda a imagem, reputação e marca Brasil desde 2010. Autora dos livros: “Country Reputation: The Case of Brazil in the United Kingdom: Four Stakeholders’ Perspectives on Brazil’s Brand Image(2017) e Country Brand Identity: Communication of the Brazil Brand in the United States of America (2013).


O Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil) é uma análise da imagem do país realizada a partir de um levantamento sistemático de dados sobre notícias que mencionam o Brasil a cada semana em sete publicações internacionais, selecionadas como representativas da imprensa internacional por serem reconhecidas internacionalmente como “newspapers of record”. São elas: The Guardian (Reino Unido), The New York Times (Estados Unidos), El País (Espanha), Le Monde (França), Clarín (Argentina), Público (Portugal) e China Daily (China).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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