It’s realpolitik, stupid! – Geopolítica, multipolaridade e como teorias das relações internacionais nos ajudam com tudo isso
Ao contrário do que muitos analistas escrevem, geopolítica e política internacional não são sinônimos. Enquanto a política internacional envolve todo assunto político com reverberação para além das fronteiras de um Estado, a geopolítica diz respeito às relações de poder entre Estados, envolvendo espaços geográficos

O ano de 2026 confirma que questões geopolíticas se tornaram, de fato, o interesse dominante na agenda política internacional. Ao associar diretamente a abdução de Maduro ao petróleo venezuelano e à presença de outras grandes potências na região, Donald Trump expôs, de forma nua e crua, que o objetivo central da operação era geopolítico.
Ao contrário do que muitos analistas escrevem, geopolítica e política internacional não são sinônimos. Enquanto a política internacional, grosso modo, envolve todo assunto político com reverberação para além das fronteiras de um Estado – operando tanto no plano das relações entre governos quanto nas relações entre atores subnacionais que perfazem os Estados –, a geopolítica, em sua acepção clássica, lida com situações mais restritas: diz respeito às relações de poder entre Estados, envolvendo, necessariamente, espaços geográficos.
Como definiu Yves Lacoste, a geopolítica “analisa e explica as rivalidades de poder sobre os territórios geográficos”. Portanto, não há que se falar em geopolítica quando o tema central não perpassa um dado território.
‘A geopolítica que está no espírito da “Doutrina Monroe” que agora volta a guiar a política externa estadunidense para a América Latina’
É, nesse sentido, a geopolítica que está no espírito da “Doutrina Monroe” (a famigerada “América para os americanos”), referenciada na nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump e que agora volta a guiar a política externa estadunidense para a América Latina.
Foram os interesses geopolíticos que orientaram as relações internacionais imperialistas do século XIX e que embasaram, em boa medida, as disputas políticas que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial. Do mesmo modo, foi a agenda geopolítica que orientou as dinâmicas da política internacional no período da Guerra Fria. Notadamente, foram as disputas por áreas de influência o princípio ordenador do sistema internacional bipolar da época, o que fez Brzezinski classificar a Guerra Fria como um conflito sobretudo geopolítico.
Não que as disputas ideológicas fossem irrelevantes. Ao contrário do que escreveram autores realistas das Relações Internacionais, ideias não são meros subterfúgios para disputas de poder material. Como lembram autores liberais das relações internacionais – Moravcsik é um bom exemplo –, a política externa dos Estados é ordenada em uma escala de preferências variáveis. Por outro lado, os interesses geopolíticos estiveram sempre no topo das preferências que guiaram as políticas externas das superpotências no referido período.
‘Quando ideologias ou valores sociais e políticos coincidem com interesses geopolíticos de um Estado, tem-se o melhor dos mundos’
De fato, quando ideologias ou valores sociais e políticos coincidem com interesses geopolíticos de um Estado, tem-se o melhor dos mundos. Nesse contexto, uma ação geopolítica questionável, ao se valer de ideias legitimadoras, torna-se, como escreveu Hans Morgenthau – expoente do realismo clássico –, “não só moral como psicologicamente aceitável para os atores e sua plateia”. Foi o que ocorreu durante boa parte da Guerra Fria.
Com o fim do conflito bipolar, o mundo passou por um breve período em que o princípio ordenador do sistema internacional não tinha apenas a geopolítica na sua mais alta posição na escala de preferências das grandes potências. Isso não quer dizer que nos anos 1990 e 2000 a geopolítica perdeu importância, apenas que outros valores e interesses passaram a orientar a agenda com maior ou igual relevância na ordem internacional.
‘O liberalismo estrutural não era marcado apenas pelo sistema de balança de poder, mas também por valores e instituições’
Esse período do imediato pós-Guerra Fria foi chamado na literatura de relações internacionais de internacionalismo liberal, ou a vigência da ordem liberal. Época marcada pela intensificação da interdependência econômica, pela expansão das organizações internacionais e pelo aumento substancial dos processos de integração entre os Estados. Esse liberalismo estrutural, como Ikenberry pontuou, não era marcado apenas pelo sistema de balança de poder, mas também por valores e instituições.
O sistema multipolar dessa ordem liberal, contudo, vem sendo desgastado desde os anos 2010. A ascensão chinesa e a perda de poder relativo dos Estados Unidos estão entre as principais variáveis explicativas – ao menos do ponto de vista dos teóricos realistas.
O grande marco de transição surgiu, provavelmente, com a agenda isolacionista do primeiro governo Trump. Agora, em seu segundo mandato, o presidente estadunidense corrige a rota para redefinir esse isolacionismo a partir da retomada da ideia de esferas geográficas de influência. Nesse sentido, a captura de Maduro e o posterior estabelecimento de um sistema de tutela da Venezuela são o registro do renascimento – ao menos em certa medida – de um sistema que parecia ter ficado para trás.
‘O comportamento dos Estados Unidos sob o governo Trump está plenamente alinhado com o realismo estrutural’
Embora possa ter decepcionado acadêmicos liberais, o comportamento dos Estados Unidos sob o governo Trump está plenamente alinhado com o realismo estrutural. John Mearsheimer, maior expoente contemporâneo dessa corrente teórica, sempre afirmou que o maior seguro que uma grande potência pode ter é ser um hegemon regional, ao mesmo tempo em que deve evitar que rivais se tornem igualmente hegemons em sua respectiva região geográfica.
Ao enfatizar: “este é o NOSSO hemisfério”, na sequência da ação na Venezuela, Donald Trump deixou claro seguir a cartilha da hegemonia regional como pressuposto para a segurança do Estado. Um ajuste geopolítico e realista de sua política externa.
Nessa esteira, a ação dos Estados Unidos na Venezuela, para além de recuperar uma área de influência, visou mesmo subjugar o Estado sul-americano, de modo que seu recado fosse claro para diversos atores. Afinal, como ressaltou Morgenthau, “o propósito político da guerra propriamente não se resume em conquistar o território inimigo e aniquilar os seus exércitos, mas em conseguir a mudança de mentalidade do inimigo, de modo a fazer com que este se curve à vontade do vencedor”.
‘Ação na Venezuela é o registro do renascimento de um sistema multipolar competitivo, ordenado com base nos preceitos geopolíticos’
De forma mais objetiva, o episódio serviu de sinalização clara para os Estados latino-americanos e para as demais grandes potências, sobretudo Rússia e China: o continente tem dono. Acima de tudo, é o registro do renascimento de um sistema multipolar competitivo, ordenado com base nos preceitos geopolíticos.
A ação também revela um modus operandi ímpar: uma sinceridade com poucos precedentes na realpolitik. Quando Trump deixou claro que dentre as principais motivações, além da reafirmação da hegemonia estadunidense, estava o interesse em apoderar-se do petróleo venezuelano, indo de encontro à noção de que os “atores que se exibem no cenário internacional raramente apresentam com as suas verdadeiras cores a política externa que estejam seguindo, e uma política de imperialismo praticamente nunca revela a sua face verdadeira nos pronunciamentos dos que a adotam” (Morgenthau).
Com a nova investida do governo Trump direcionada à Groenlândia, não restam dúvidas – ao menos para este que vos escreve – que a abdução de Maduro na Venezuela é um divisor de águas, que marcará os livros de história para as próximas gerações de estudantes de relações internacionais.
Em se consolidando, esse modelo – já velho conhecido das potências europeias – trará implicações práticas importantes, como a possível retomada de Taiwan pela China e a consolidação russa no Leste Europeu.
‘É preciso evitar cair em um uso fácil de analogias históricas e concluir, apressadamente, que estamos em uma Nova Guerra Fria ou na repetição da política de poder do final do século XIX e início do século XX’
Dito isso, é preciso também evitar cair em um uso fácil de analogias históricas e concluir, apressadamente, que estamos em uma Nova Guerra Fria ou na repetição da política de poder do final do século XIX e início do século XX. O gênio não voltará para a lâmpada: o mundo hoje está plenamente interconectado e interdependente, no qual importantes valores emergiram, como a cooperação internacional e a proteção dos direitos humanos.
Se as Nações Unidas – ao menos como as conhecemos hoje – estão em estado terminal, é impossível não creditar a elas diversos avanços conquistados ao promover a cooperação internacional em diversas áreas, que se materializaram em tratados internacionais os quais – mesmo que você não saiba – serviram para estabelecer boa parte das normas e regras que regulam o seu dia a dia.
Mais do que isso, a ONU serviu seu propósito central: prover um fórum para que as grandes potências evitassem confrontos diretos e mesmo uma nova guerra mundial. Muitos esquecem a frase icônica do ex-Secretário Geral Dag Hammarskjöld, por isso é sempre bom lembrar que a “ONU não foi criada para levar a humanidade para o céu, mas para salvá-la do inferno”.
Em suma, a complexidade desse emergente sistema internacional nos pede que analisemos os fatos com calma; os cânones das relações internacionais nos ajudam a ter um overview do atual estado de coisas. Contudo, a parcimônia necessária a qualquer internacionalista hoje é bastante difícil, considerando que não se pode afastar do objeto de análise. Afinal, estamos no olho do furacão.
Referências
Brzezinski, Zbigniew. Game Plan: A Geostrategic Framework for the Conduct of the U.S.-Soviet Contest. Boston: The Atlantic Monthly Press, 1986.
Hammarskjöld, Dag. Address at University of California Convocation, Berkeley, California, May 13, 1954.
Ikenberry, G. John. Liberal Leviathan: The Origins, Crisis, and Transformation of the American World Order. Princeton: Princeton University Press, 2011.
Lacoste, Yves. Trente-six ans après… In: Lacoste, Yves. La géographie, ça sert, d’abord, à faire la guerre. Paris: La Découverte, 2012.
Mearsheimer, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W.W. Norton & Company, 2001.
Moravcsik, Andrew. Taking Preferences Seriously: A Liberal Theory of International Politics. International Organization, v. 51, n. 4, p. 513-553, 1997.
Morgenthau, Hans J. A Política entre as Nações: a luta pelo poder e pela paz. Tradução de Oswaldo Biato. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.
Miguel Mikelli Ribeiro é colunista do Interesse Nacional e consultor legislativo da Câmara dos Deputados da área de segurança pública, doutor em Ciência Política e estágio pós-doutorado no Instituto de Altos Estudos de Genebra.
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