03 junho 2026

Juros mais altos – O custo inesperado e mais persistente de instabilidades geopolíticas

As guerras, tensões comerciais e choques sobre energia e fertilizantes estão reacendendo a inflação global e reduzindo as perspectivas de crescimento. Para o Brasil, o impacto mais duradouro pode vir pelo canal financeiro: juros elevados por mais tempo aumentam o custo da dívida pública, encarecem investimentos e crédito e ampliam os desafios de uma economia já marcada por baixo crescimento e limitada capacidade fiscal

Foto: Departamento de Guerra dos EUA

As tensões geopolíticas mundiais deixaram de ser apenas um tema de segurança internacional e passaram a representar um risco macroeconômico direto. Conflitos em regiões estratégicas, interrupções em rotas comerciais e choques sobre commodities afetam preços, expectativas e decisões de política monetária. 

Para países emergentes como o Brasil, esse cenário é especialmente sensível: a economia já convive com juros elevados, dívida crescente, baixo crescimento potencial e pouca margem fiscal para reagir a novos choques.

‘A crise no Oriente Médio reacendeu pressões inflacionárias globais’

O relatório recente da ONU, World Economic Situation and Prospects as of mid-2026, aponta que a crise no Oriente Médio reacendeu pressões inflacionárias globais, sobretudo pelo aumento dos preços de energia, fertilizantes e alimentos. A ONU estima inflação global de 3,9% em 2026, acima da previsão anterior, em um contexto no qual a interrupção do Estreito de Hormuz pressiona petróleo, gás natural liquefeito e cadeias de suprimento. 

Para o Brasil, esse choque é relevante porque combustíveis afetam a cadeia de transporte, produção e preços, enquanto fertilizantes mais caros elevam custos agrícolas. Como o país é grande produtor agrícola, mas depende de insumos importados, o aumento no custo de fertilizantes pode pressionar preços internos de alimentos e reduzir margens no agronegócio, mesmo em vendas internacionais. 

Além da inflação, o relatório da ONU revisou para baixo o crescimento mundial, projetando expansão global de 2,5% em 2026 e 2,8% em 2027. Para a América Latina e o Caribe, a ONU destaca uma trajetória de baixo crescimento, limitada por fraquezas estruturais, investimento fraco, pouco espaço fiscal, custos de financiamento elevados e menor demanda externa. 

‘O choque externo chega em um momento que o Brasil já cresce pouco e depende de estímulos domésticos, altamente centrados em consumo e endividamento’

No caso brasileiro, a própria ONU projeta desaceleração de 2,3% em 2025 para 2,0% em 2026, refletindo condições monetárias significativamente restritivas. Ou seja, o choque externo chega em um momento que o Brasil já cresce pouco e depende de estímulos domésticos, altamente centrados em consumo e endividamento. 

O avanço inflacionário tende a se transformar em aumento dos juros futuros. Quando os mercados passam a esperar inflação mais alta e maior incerteza, também passam a exigir retornos maiores para financiar governos e empresas. Isso eleva o custo da dívida pública, encarece o crédito privado e reduz a viabilidade de novos investimentos. 

A ONU também alerta que bancos centrais podem manter juros mais altos por mais tempo para conter a inflação, enquanto governos enfrentam pressões fiscais adicionais. O resultado é um círculo de menor crescimento: inflação mais alta exige juros maiores, juros maiores reduzem investimento, e investimento menor limita a expansão futura da economia. 

‘No Brasil, o mecanismo de juros e inflação é extremamente preocupante porque o ponto de partida já é frágil’

No Brasil, esse mecanismo é extremamente preocupante porque o ponto de partida já é frágil. A Selic permanece em patamar elevado, e parte significativa da dívida pública está indexada à própria taxa básica de juros. 

Segundo declarações recentes do presidente do Banco Central, cerca de 50% da dívida soberana brasileira está ligada à Selic, o que faz com que aumentos de juros se transmitam rapidamente para o custo fiscal. Além disso, a dívida pública federal encerrou 2025 acima de R$ 8,6 trilhões e pode chegar a até R$ 10,3 trilhões em 2026, segundo o Tesouro Nacional. Essa combinação de juros altos, gastos públicos elevados e dívida crescente é difícil de sustentar no longo prazo. 

Por isso, o aumento dos juros futuros pode ser o principal impacto de longo prazo das incertezas geopolíticas mundiais sobre o Brasil. O país não possui amplo espaço fiscal para absorver choques inesperados e, ao mesmo tempo, enfrenta crescimento pressionado, investimento fraco e produtividade estagnada. 

A OCDE observa que, apesar do crescimento recente, o investimento no Brasil segue baixo e a produtividade permanece estagnada. Nesse contexto, juros futuros mais altos não apenas elevam o custo da dívida pública, mas também encarecem capital de giro, financiamento produtivo, infraestrutura e inovação. Isso torna a produção mais cara, reduz a competitividade e pode deixar o Brasil ainda menos produtivo ao longo do tempo. 

‘As tensões geopolíticas afetam o Brasil por vários canais’

Em síntese, as tensões geopolíticas afetam o Brasil por vários canais: energia, alimentos, fertilizantes, inflação, crescimento mundial e comércio. No entanto, o canal mais persistente pode ser o financeiro. 

Se a inflação externa elevar os juros futuros, o Brasil enfrentará simultaneamente menor crescimento, maior custo da dívida e menor capacidade de investimento. Em uma economia já marcada por dívida alta, juros elevados, baixa produtividade e pouco espaço fiscal, esse choque pode comprometer não apenas o desempenho de curto prazo, mas também a trajetória de crescimento do país nos próximos anos.

Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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