O Brasil no mundo, segundo Celso Amorim
O assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, em recente entrevista expressa sua opinião sobre o posicionamento do Brasil no cenário global da atualidade. Algumas de suas percepções são corretas quando defende, sem preconceitos, o interesse nacional: Outras, porém, continuam impregnadas de conteúdo ideológico e com falta de realismo e pragmatismo, […]

O assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, em recente entrevista expressa sua opinião sobre o posicionamento do Brasil no cenário global da atualidade.
Algumas de suas percepções são corretas quando defende, sem preconceitos, o interesse nacional:
- Devem ser condenadas as graves violações do direito internacional, como na eliminação de lideranças, do sequestro de Nicolás Maduro, no assassinato do Aiatolá Khamenei, presidentes ou chefes de Estado. Ou quando atribui as dificuldades globais à crueza da política externa recente dos EUA.
- O Brasil é um país ocidental e também é um país do Sul. Em última instância, nossa orientação deve ser guiada pelos interesses nacionais em cada circunstância concreta. Em algumas questões, votaremos ao lado dos Estados Unidos; em outras, poderemos convergir com a China. Essa é a lógica do não-alinhamento ativo.
- O Brasil não pode ser reduzido a uma identidade geopolítica única. Somos parte do Sul Global, embora profundamente marcados por múltiplas influências culturais — europeias, africanas, indígenas, árabes, entre outras. A política externa brasileira precisa refletir essa pluralidade e preservar autonomia de julgamento, evitando reproduzir visões importadas que não correspondem plenamente à nossa realidade histórica e social.
- Em um eventual cenário de tensão internacional entre terceiros, no qual o acesso a minerais estratégicos brasileiros se torne relevante, o país deve ser capaz de defender seus interesses e sua soberania. Esse é apenas um exemplo, mas ilustra um ponto mais amplo: defesa nacional, desenvolvimento tecnológico e segurança econômica passaram a ser dimensões inseparáveis.
Outras, porém, continuam impregnadas de conteúdo ideológico e com falta de realismo e pragmatismo, por não reconhecer os limites da atuação do Brasil e por não dar atenção aos reais interesses nacionais.
- É possível buscar brechas, promover mudanças graduais, tentar influenciar os acontecimentos, mas não se pode ignorar a realidade. A questão é como lidar com ela, e esse é um desafio para o qual ainda não temos uma resposta plenamente definida.
- A ausência de uma reação mais firme do sistema multilateral está ligada ao fato do próprio sistema multilateral ter sido moldado ao final da Segunda Guerra Mundial em torno das grandes potências vencedoras. Ele continua condicionado por essa estrutura. Cada uma delas atua até o limite de seus próprios interesses. Nenhuma está disposta, ao menos por enquanto, a assumir o risco de um confronto direto com os Estados Unidos que ainda é a maior potência militar do mundo.
- O Brasil tem que continuar trabalhando pela multipolaridade e deve manter boas relações com os Estados Unidos. Mas não pode, ao mesmo tempo, deixar de cultivar relações sólidas com a China, com a Rússia, com outros países. Inclusive porque, para fazer ponderações, é necessário preservar canais de diálogo com todos os lados.
- O Brasil deve continuar contribuindo para a construção de uma ordem internacional multipolar mais equilibrada, capaz de permitir relações externas baseadas na autonomia e não em alinhamentos ideológicos automáticos. Talvez seja esse o caminho: combinar capacidade dissuasória com atuação diplomática em favor de um sistema internacional mais aberto e cooperativo. Agora, se me perguntarem se há garantias de sucesso, a resposta honesta é não. Não há certezas. Estamos lidando com um momento histórico profundamente incerto.
- Tenho a percepção — ainda que possa estar enganado — de que os Estados Unidos tratam o Brasil com certo grau de cautela, em razão de sua dimensão territorial, populacional e potencial econômico e energético. Precisamos ter plena consciência desse lugar. O Brasil não pode adotar uma política externa marcada, como se disse no passado, por ‘vira-latismo’.
- Independentemente das simpatias ou discordâncias políticas que se possa ter, a trajetória histórica de Cuba é própria: houve uma revolução, os invasores foram expelidos. Pode-se discutir, e muitos discutem, os erros e limitações do sistema político que se consolidou a partir dali. Mas não é matando um povo de fome com sanções e isolamento que a situação política será alterada.
- A questão da desdolarização pode estar relacionada ao Brics, mas não se limita a ele. Uma moeda internacional é, essencialmente, uma questão de confiança. Quando surge a percepção de que essa moeda pode ser utilizada como instrumento político, seja para fins próprios, seja para restringir transações entre terceiros, os países naturalmente começam a buscar alternativas.
- Caminhamos para uma ordem mais multipolar. O grande risco é que essa multipolaridade venha a se confundir com uma lógica de áreas de influência. Isso é algo que o Brasil não pode aceitar. Um país com relações econômicas diversificadas—cerca de 35% do comércio com a China e pouco mais de 12% com os Estados Unidos—não pode ser enquadrado dentro de uma esfera exclusiva de influência.
Dada sua posição no governo, é importante examinar sua visão sobre as grandes tendências das relações internacionais. Na linha das declarações de Celso Amorim, o presidente Lula vem fazendo duras críticas aos EUA (inclusive cancelando visto de funcionário do Departamento de Estado contra a opinião do Itamaraty) e na reunião da Celac, na Colômbia, na semana passada, também aos membros do Conselho de Segurança da ONU que impedem que as Nações Unidas possam exercer seu papel no tocante a paz e a segurança global.
Essas posições podem refletir uma tentativa de conseguir uma reação de Washington contra o Brasil, que possa ser aproveitada para “defender a soberania nacional”, durante a campanha para a eleição presidencial.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional